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BIANCA 🧿

Dois meses. Já tinha se passado tudo isso desde o dia que eu meti o pé daquela casa com a alma rasgada e a minha filha no colo. E nesses dois meses, o Relíquia não deu um dia de paz.

Era vídeo chorando, mensagem dizendo que ia se matar, que sem mim ele não tinha chão, que a vida dele era eu e a Maria.

Manipulação pura, daquele jeito que só ele sabia fazer. O tom de voz quebrado, o olhar perdido, as palavras ensaiadas.

Mas eu me segurei. Firmei no propósito. Porque agora era sobre mim. Sobre minha filha. Sobre o que eu queria construir longe da sombra dele.

Comecei a trampar firme no salão da tia da Letícia. Botei em praticar o curso de designer de sobrancelha que eu já tinha feito, a mo cota, e tava voando. As cliente amando meu trabalho, uma indicando a outra.

Comecei a juntar um dinheirinho. Pouco a pouco, o plano de alugar uma casinha no morro ia tomando forma. Era minha liberdade sendo construída com cada fio de sobrancelha que eu desenhava com carinho.

Mas é claro que, quando o Gabriel descobriu que eu ia alugar uma casa, ele surtou. Veio com aquele papo de pai presente, que "a filha dele tinha que ter conforto", que "aquele era o lar da Maria". Disse que ia sair da casa, que deixava só pra gente, que queria ver a gente bem.

— "Só quero que a minha filha tenha o melhor, Bianca tudo que eu nunca tive. Tu sabe... aquela casa é dela tanto quanto minha. E se tu quiser ficar lá, eu saio, juro pela alma da minha mãe pprt."

Confesso que minha cabeça ficou um nó. Chamei as meninas, contei tudo. A Bruna fez aquela cara de quem já tava prevendo.

— Olha, se tu for pra lá, vai com o pé atrás. Mas é tua filha, tua paz. Se ele der um pio errado, tu mete o pé.

A Letícia já soltou uma:

— Mas se tu for, vamo fazer aquela resenha na laje, hein? Enche de droga, bebida e bofe bonito. Se ele pintar, já vai sentir o baque.

Rimos, mas no fundo era isso mesmo. Se fosse pra voltar, ia ser nos meus termos.

Hoje era dia especial. O mesversário da Maria Giulia. E eu nunca deixei passar em branco. Dessa vez, o tema foi "Minnie Rosa", porque a cria tava apaixonada nos desenhos.

Mandei fazer uma decorzinha simples, mas linda. Os balões, o painel, os docinhos com o rosto da Minnie e até um bolinho com o nome da minha filha escrito com glitter comestível.

Chamei só os mais próximos. O PT e o Frajola, que mesmo sendo cria do Gabriel, sempre foram presente durante a gravidez, nunca me abandonaram.

As meninas: Bruna, Letícia, Beatriz... A mãe do Gabriel, que mesmo com tudo, eu amava como se fosse da minha mãe. A Gaby também foi, claro. Até a Luana, que conheci na festa da laje, colou. Só quem era de verdade.

O sol já ia se pondo e a laje tava linda. Balões, música de fundo, o cheirinho de churrasco no ar, as crianças brincando. E o principal: Maria Giulia sorrindo. Era por ela que tudo fazia sentido.

Tiramos diversas fotos, Gabriel sempre se aproveitando do momento das fotos e tentando encostar em mim.

—Tira essa mão daqui de trás -falei entre os dentes, com a Maria no colo.

—Caralho chata pra sempre em -falou e tirou a mão.

Maria já tava bamba de sono, coloquei ela no bebê conforto perto de mim, e a tropa do para nunca começou, não perdemos uma oportunidade né kkkk

A galera resolveu descer bebida, som subiu, o Frajola comprou uma caixa de skol beats, o PT apareceu com whisky. Já tavam chamando o vizinho que toca no Baile do Jaca pra dar um grau no som. A laje virou resenha.

Em certo momento, desci pro quarto pra buscar uma manta da Maria. Tava meio friozinho. Quando entrei, não percebi que alguém vinha atrás.

Fechei a porta. Tranquei. Mas antes de virar, senti aquele cheiro conhecido. O perfume que ainda morava na minha memória. Quando olhei, era ele. Gabriel. Trancado comigo no quarto.

— Que que tu tá fazendo aqui, garoto? — falei baixo, tentando manter o controle.

— Só queria te olhar. Só queria um momento contigo... Tu tá linda, Bia. Tu sempre foi.

— Gabriel, para com isso. Tu sabe o que tu fez. Não dá mais. — minha voz tremia.

Ele se aproximou. As mãos na minha cintura. O olhar daquele jeito que sempre me desmontava. E eu? Já tinha tomado umas três, o coração enfraquecido pela saudade.

— Me perdoa, por favor. Só hoje. Só nós dois. Eu não consigo te esquecer... — ele falou no meu ouvido, roçando os lábios no meu pescoço.

Tentei resistir. Mas quem nunca errou?

Foi um beijo. Um toque. Uma recaída.

A gente se entregou. No quarto onde a Maria dormia. Na casa onde a gente viveu e chorou. Foi errado, mas naquele momento, parecia certo.

Depois, a gente subiu. Eu ajeitei o cabelo, limpei o batom borrado. E quando pisamos na laje juntos, a galera ficou em choque.

— Eitaaaa! — gritou o PT. — ELES VOLTARAM, FAMÍLIA! PEGA PORRA -comemorou dando tiros pro auto.

Bruna levantou a sobrancelha, a Letícia riu e puxou a Gaby:

— Olha lá, tua cunhada de novo, Gaby. Juntou com o ex que não presta.

A Gaby só balançou a cabeça e sussurrou:

— Só espero que dessa vez ele não vacile.

A festa seguiu. Música, dança, gargalhada. E eu? Entre uma lembrança e outra, com a minha filha no colo e o coração batendo torto.

Ainda não sabia o que ia ser daqui pra frente. Mas naquele momento, naquela laje, eu só queria viver.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora