E pra quem acha que vida de mãe solteira é só fralda e galinha cozida, tu se engana, tá? Hoje era dia de baile. Baile da Penha, brabo, favela toda desce. E eu? Eu ia causar.
Bruna tava borocoxô ainda, então eu puxei: — Bora sair, porra! Vamos curtir, rir, dançar, esquecer dos problemas, mona.
Letícia já gritou: — Amém, caralho! Tava só esperando TU falar!
E foi decidido. Baile. Tiro, porrada kkkkk
Fui no salão que eu sempre fazia, lá no Complexo, a Lu das Unhas já sabia o grau.
— Vai ser oque hoje, hein, Índia?
— Quero tudo, meu amor. Unha, pé, cabelo, sobrancelha, cílio, e mete o bronze. Tô sendo patrocinada.
Ela arregalou o olho: — Ihhh, quem é o mecenas?
Soltei aquele sorriso de quem não deve nada a ninguém: — O bofe ronca da Penha. Chefão, meu amor.
Ela só deu risada: — Só anda na nata, né, garota?
Fiquei horas lá, passei o dia me arrumando como se fosse casar. Sai de lá parecendo outra. Cabelo no grau, unha igual garra de onça, cílio batendo vento e o bronze marcadinho, tipo fita isolante. Tava um luxo.
Maria ficou com a vó, como sempre. Dei um beijão nela, mas confesso... o coração tava apertado. Tinha aquele peso. Mãe sente. Mas deixa a mãe viver kkk.
Botei o vestido branco colado, frente única, com as costas todas abertas. Salto alto, maquiagem que parecia feita com ouro. Um @ da loja me patrocinou também, então fiz foto, fiz vídeo, fiz story. A @gossipnews22 que lute.
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ÍNDIA 🎀 |@mamaedamg
Até entendo o ódio delas. 😘
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Chegamos na Penha. Eu, Letícia, Bruna e Gaby. O baile tava fervendo. Muito bonde descendo dos morros tudo. Jacaré, Alemão, Juramento, Chapadão... tudo misturado. Mas ali ninguém fala de guerra, só de hit.
Bruna já tava rindo de novo. Vi um brilho no olhar dela que fazia tempo que não via. Um DJ puxou aquela "BROTA NA NOVA, BROTA NA NOVA NOVINHA..."e ela levantou a mão, dançando com o copo na outra.
— ISSO, CARALHOOOO! — ela gritou, e eu gritei junto. A favela pulsa.
A gente dançava, rebolava, zoava, ria alto. E quando começou as do oruam, foi o auge. Eu tava no camarote com as meninas, e o bofe ronca só de olho. Mandou bebida, mandou lança, mandou olhar. Só que eu...
Eu ainda olhava o celular, esperando mensagem dele. Relíquia.
Mesmo depois de tudo, da outra grávida, da raiva... meu coração era dele. Maldito amor de vagabundo.
Foi então que o clima pesou.
Letícia cutucou meu braço: — India... olha ali embaixo...
Olhei.
Era ele.
Relíquia.
Correndo o olho no baile inteiro, camisa do Flamengo, ouro no pescoço, cara de poucos amigos. Tava bolado. Muito. E eu sabia que era por minha causa.
— Ihhhh, qual foi desse bofe? — Gaby falou já indo puxar Bruna pro lado.
Ele subiu a escada do camarote que nem segurança barra. Mandou geral sair. Os caras do lado abriram espaço. O bafafá foi instantâneo.
— TU TÁ DE PALHAÇADA, NÉ? — ele gritou, me encarando de cima a baixo.
— Qualfoi, tá maluco? — falei, mantendo pose. O coração batendo na boca.
— Fica se exibindo pra vagabundo? Com esse vestido? Com esse cuzão de merda te bancando? Tá maluca?
— TU NÃO É NADA MEU! SE MANCA.— gritei de volta, tremendo, mas firme.
Ele chegou perto. Puxou meu cabelo, mas não foi forte. Foi daquele jeito de quem quer te marcar. Todo mundo já filmando.
— É isso que tu quer pra tua vida, Bianca? Hein? Ser piranha dos outro?
— Solta meu cabelo, Relíquia.
Ele riu. Um riso de quem perdeu o juízo.
— Tu é minha, porra. Sempre foi. Pode bancar a marrenta, mas TU ME AMA.
— Amo porra nenhuma. Tu destruiu minha vida.
— E mesmo assim tá aí toda montada, só porque sabia que eu vinha.
Fiquei calada. E ele soube. Soube que tinha me acertado.
Me puxou. Feio. No meio do baile.
— RELÍQUIA! TU TÁ DOENTE, CARA! — Gaby tentou impedir, Letícia foi pra cima, mas ele botou a mão no cabo da pistola e ninguém ousou. As mina recuaram.
Me levou pro carro dele, jogou porta, bateu com raiva.
— Tá maluco? Vai me matar agora?
— Vou te foder, Bianca. É isso que eu vou fazer.
Silêncio.
Eu olhei pra ele. E não falei nada. Porque no fundo, eu sabia.
O motel era um que a gente já tinha ido antes. No Fundão.
Entrou direto, sem nem olhar pra atendente.
Quando a porta fechou, ele veio pra cima. Me empurrou na parede, me beijou com raiva. Um beijo quente, sufocado, desesperado. Tirei o salto com tudo, rasguei o vestido com a própria mão.
— Tira essa porra toda, agora.
E eu tirei. Tirei porque queria. Porque precisava. Porque só ele me fazia sentir aquilo.
Transamos como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse acabar ali. Só porradeiro sinistro no meu útero.
Gemidos altos, tapa na bunda, ele me chamando de "minha", me marcando inteira. Me olhando como se ninguém mais no mundo existisse. E eu? Eu tava entregue. Suada, molhada, sem vergonha nenhuma.
Depois, ele deitou do meu lado. Fumou um cigarro. Em silêncio.
— Vai voltar pra mim, Índia?
— E tu vai parar de me fazer sofrer?
Ele não respondeu. Mas segurou minha mão, como sempre fazia depois do caos.
Fiquei olhando pro teto. Sem saber se chorava, se ria, se dormia.