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Acordei com o sol invadindo a janela do quarto da Bruna, a Maria Giulia já resmungando no berço improvisado do lado. Levantei com aquele pique de quem tava decidida a virar a chave da vida. Hoje o corre ia começar de verdade.

— Bora, minha princesa... mamãe vai correr atrás do dote, tu vai ver. A gente ainda vai vencer, só nós duas.

Troquei a Maria, dei mamá, ajeitei ela toda bonitinha, graças a deus minha filha não da muito trabalho, fica quietinha parece que sente as coisas.

Depois fui me olhar no espelho: cabelo amarrado com aquele coque de guerreira, sobrancelha feita na régua, maquiagem leve. Short jeans, cropped básico e chinelo. Favela fashion lkkkkkk

Bruna apareceu na porta do quarto, ainda de camisa larga.

— Vai sair?

— Vou. Vou na creche ver matrícula da Maria. Quero botar ela já na próxima semana.

— É isso, Bi. A vida anda. Tu tem é que trabalhar, se ocupar... esquecer aquele verme.

— Ele que lute — falei, pegando a mochila da bebê e rindo fraco.

Desci a ladeira com a Maria no colo, vento batendo no rosto, coração acelerado. Não era medo, era emoção de saber que eu tava fazendo diferente. Pela minha filha. Por mim.

Cheguei na creche da comunidade, aquele movimento de mãe pra lá e pra cá, carrinho, criança correndo, funk baixinho tocando no fundo.

— Oi, moça. Vim saber da matrícula.

— Oi, mamãe! Já começou sim. Qual a idade da pequena?

— Quatro meses.

— Perfeito. A turma do berçário ainda tem vaga. Só preciso da certidão, cartão do SUS, vacina e comprovante de residência.

Anotei tudo. Saí dali com o coração quentinho. Só de saber que a Maria ia ter lugar pra ficar enquanto eu corresse atrás do meu. E o melhor: segunda eu já começava no salão da tia da Letícia. Um bico, sim. Mas um começo.

Só que a paz nunca dura muito quando o nome dele é Gabriel.

Saí da creche e dei de cara com ele do outro lado da rua. Camisa no ombro, boné na testa, olhar carregado. Veio andando rápido, quase tropeçando nos próprios passos.

— Bianca! — ele gritou.

Abaixei a cabeça, fingi que não era comigo.

— Bianca, PORRA! Vamo trocar um lero. Só uma ideia, juro.

— Fala baixo. Tô com a Maria.

— Me escuta, caralho. Tô tentando falar contigo faz dias. Tu me bloqueou em tudo, até meus fakes tão bloqueados mané.

— Porque tu é doente, Gabriel. Eu vi tu e a Vanúbia NA NOSSA CAMA. Não tem papo pra tu, colega.

— Foi um vacilo, Bianca! Eu tava chapado, nem lembro direito. Tu acha que eu queria aquilo?

— Tu sempre tem uma desculpa, né? Acho que tu queria isso e muito mais, até pq não foi o primeiro vacilo e tu sabe muito bem, e tu nem teve palavra de homem que tu tanto enche a boca e diz ser, nem tentou!

— Porra, tentei sim! Fui lá, tua irmã me expulsou! Me esculachou na frente de geral.

— E ela tava certa!

— Olha pra mim — ele segurou meu braço. — Eu te amo, caralho. Tu acha que eu durmo? Que eu como? Que eu vivo sem tu e minha filha?

Soltei o braço com força. A Maria já começando a chorar.

— Vai viver com a Vanúbia então. Me esquece.

— Tu vai ficar com outros, né? Eu sei. Tô ligado. Aqueles arrombados que dão encima de tu... se tu ficar com eles, eu mato. Tô te dando o papo, Bianca, abraça se quiser.

—Sou solteira meu amor, S O L T E I R A -falei soletrando— fico com quem eu quiser, e tu tas esquentando a cabeça atoa, bebê.

Me virei e fui embora. Sentindo o olhar dele queimar nas minhas costas.

Quando cheguei na casa da Bruna, ela já tava de braço cruzado na varanda, escutando o babado.

— Ele foi atrás de tu de novo?

— Achou. Cismado que tô com outros. Como se eu tivesse cabeça pra homem depois do estrago que ele fez.

— Caralho, que bofe chato. Tu tá é com cabeça pra cuidar da tua vida. Segunda começa no salão, né?

— Começo. Já vou separar tudo. Minha meta é guardar dinheirinho e sair daqui, ter meu canto com a Maria. Vida nova.

— E ele?

— Que fique lá. Correndo atrás do vento.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora