98

417 18 1
                                        

BRUNA

[FLASHBACK — Dia do Enterro]

O calor tava sufocante, o sol batendo direto na minha cara, como se o céu tivesse querendo me humilhar junto com a vida. Eu tava ali, parada, com o olhar fixo no caixão, o corpo travado... segurando a marra, segurando a lágrima, segurando a alma que tava querendo sair pela boca.

Só respirava fundo e cerrava o punho, fincando as unhas na palma da mão, me lembrando que eu tinha que ser forte.
Por ele...

Por tudo que a gente viveu.

As meninas tavam do meu lado — Bianca segurando meu braço, Letícia fungando e apertando meu ombro... Todo mundo vestido com a blusa que a gente fez na véspera, com a estampa dele, aquele sorriso safado que só ele tinha, e a frase:

"Saudades eternas... te levo no coração porque na vida não consegui. Eterno PT do Jaca 🐊🚩🐻😭."

Só que eu não conseguia olhar pra blusa. Não queria olhar. Nem pra foto, nem pra porra nenhuma.

Meu olhar tava nele. No caixão.

Ali dentro tava o cara que eu amei, o cara que me fez rir, que me fez chorar, que me fez querer quebrar tudo e depois querer abraçar ele pra sempre.
Meu nego.
Meu PT.

Mas eu tava firme, na marra, na frieza, na força que a favela ensinou.

Até que ela apareceu.

O silêncio do cemitério se quebrou com a voz fina dela, toda montada, barriga de uns meses, andando como se fosse dona do velório:

— Vim me despedir do pai do meu filho...

Na hora minha visão ficou turva, minha mão esquentou, e eu senti o sangue correr mais rápido.

Bianca me puxou pelo braço:

— Bruna... segura... não é hora...

Mas COMO que não é hora, Bianca?!

A piranha chegou, fez cena, botou a mão na barriga e ainda olhou na minha cara, com aquele olhar de quem quer ver o circo pegar fogo:

— Eu e ele távamos juntos... antes dele morrer...

Eu sorri. Sorri aquele sorriso de quem tá indo pro inferno de cabeça erguida.

Inclinei o corpo pra frente, puxei o braço da Bianca e falei baixinho:

— Me solta... só um minutinho...

Ela segurou com mais força:

— Não faz merda, Bruna...

— Me solta, Bianca!

Soltei o braço com força e fui pra cima.

— REPETE ESSA MERDA, SUA VAGABUNDA! REPEEEEETE!

Ela deu um passo pra trás, mas continuou marrenta:

— Tô esperando um filho dele...

Nem pensei, só empurrei.

— FILHO O CARALHO! QUEM É TU? QUEM É TU PRA FALAR DELE AQUI?!

O bonde começou a gritar:

— AÍ, AÍ... SEGURA AS MINAS!

Letícia veio me puxar, Bianca já tava me segurando de novo, mas eu tava cega, cega de dor, de raiva, de tudo.

— TU NÃO TEM VERGONHA NÃO?! QUER APARECER NO DIA DO ENTERRO DO MEU AMOR, É?!

Ela arregalou os olhos, virou as costas e saiu andando, falando alto:

— Se fode aí com tua dor... eu vim me despedir...

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora