BRUNA
[FLASHBACK — Dia do Enterro]
O calor tava sufocante, o sol batendo direto na minha cara, como se o céu tivesse querendo me humilhar junto com a vida. Eu tava ali, parada, com o olhar fixo no caixão, o corpo travado... segurando a marra, segurando a lágrima, segurando a alma que tava querendo sair pela boca.
Só respirava fundo e cerrava o punho, fincando as unhas na palma da mão, me lembrando que eu tinha que ser forte.
Por ele...
Por tudo que a gente viveu.
As meninas tavam do meu lado — Bianca segurando meu braço, Letícia fungando e apertando meu ombro... Todo mundo vestido com a blusa que a gente fez na véspera, com a estampa dele, aquele sorriso safado que só ele tinha, e a frase:
"Saudades eternas... te levo no coração porque na vida não consegui. Eterno PT do Jaca 🐊🚩🐻😭."
Só que eu não conseguia olhar pra blusa. Não queria olhar. Nem pra foto, nem pra porra nenhuma.
Meu olhar tava nele. No caixão.
Ali dentro tava o cara que eu amei, o cara que me fez rir, que me fez chorar, que me fez querer quebrar tudo e depois querer abraçar ele pra sempre.
Meu nego.
Meu PT.
Mas eu tava firme, na marra, na frieza, na força que a favela ensinou.
Até que ela apareceu.
O silêncio do cemitério se quebrou com a voz fina dela, toda montada, barriga de uns meses, andando como se fosse dona do velório:
— Vim me despedir do pai do meu filho...
Na hora minha visão ficou turva, minha mão esquentou, e eu senti o sangue correr mais rápido.
Bianca me puxou pelo braço:
— Bruna... segura... não é hora...
Mas COMO que não é hora, Bianca?!
A piranha chegou, fez cena, botou a mão na barriga e ainda olhou na minha cara, com aquele olhar de quem quer ver o circo pegar fogo:
— Eu e ele távamos juntos... antes dele morrer...
Eu sorri. Sorri aquele sorriso de quem tá indo pro inferno de cabeça erguida.
Inclinei o corpo pra frente, puxei o braço da Bianca e falei baixinho:
— Me solta... só um minutinho...
Ela segurou com mais força:
— Não faz merda, Bruna...
— Me solta, Bianca!
Soltei o braço com força e fui pra cima.
— REPETE ESSA MERDA, SUA VAGABUNDA! REPEEEEETE!
Ela deu um passo pra trás, mas continuou marrenta:
— Tô esperando um filho dele...
Nem pensei, só empurrei.
— FILHO O CARALHO! QUEM É TU? QUEM É TU PRA FALAR DELE AQUI?!
O bonde começou a gritar:
— AÍ, AÍ... SEGURA AS MINAS!
Letícia veio me puxar, Bianca já tava me segurando de novo, mas eu tava cega, cega de dor, de raiva, de tudo.
— TU NÃO TEM VERGONHA NÃO?! QUER APARECER NO DIA DO ENTERRO DO MEU AMOR, É?!
Ela arregalou os olhos, virou as costas e saiu andando, falando alto:
— Se fode aí com tua dor... eu vim me despedir...
VOCÊ ESTÁ LENDO
BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
