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BIANCA🧿

Entrei no carro ainda com o sangue fervendo, cabelo pra cima, unha toda fodida e o coração batendo a mil. Gabriel bateu a porta com força, ligou o carro e já começou o sermão.

— Bianca, tu perdeu a noção de vez, né? — ele falou alto, o maxilar travado. — Brigar na rua, que porra é essa?

— Que porra é essa o quê, Gabriel? — rebati na hora, virando pra ele. — Tu queria o quê? Que eu ficasse quieta ouvindo aquela piranha falar da minha filha? Eu sou mãe, caralho!

Quando vi os tufos daquele mega meia boca, da Talita entre os meus dedos, eu sorrir. Tirei logo uma foto, e ele lá continuou falando.

Ele deu uma risada seca, sem achar graça nenhuma. — Mãe sim, mas também é maluca! Era pra tu falar comigo, pow, que eu resolveria esse bagulho pra tu,

— Ah, tá de sacanagem né?! Eu tentei te avisar, Gabriel, te mandei mensagem falando que ia dar merda, mas tu nunca me escuta, né? Quando tu tá por aí pelo mundo, esquece do caralho todo, só lembra da existência do morro.

Ele virou pra mim na hora, o olhar dele queimando.

— Ih, vai começar o show agora? Lá vem tu jogar na minha cara o bagulho do morro... Bianca, tu sabe qual é minha vida, porra!

— Sei sim, e é por isso mesmo que eu fico puta! — falei alto, batendo a mão no painel. — Tu só lembra de mim quando quer, quando precisa. Quando eu te chamo pra resolver um bagulho sério, tu some. Aí quando eu resolvo do meu jeito, tu quer pagar de certinho?

Ele passou a mão na cara, respirando fundo, tentando se segurar

— Tu acha que é fácil pra mim? Tu acha que eu fico de boa vendo tu se meter nessas merda, Bianca? Caralho tô pá ódio da tua cara hoje, malucona, vontade de, hum! vou nem te contar. —ele falou batendo a mão no volante bufando, e eu rir

— Fácil não é pra ninguém, Gabriel! — retruquei. — Mas pelo menos me escuta, caralho! Eu te avisei que ia fazer, e tu cagou. Agora vem me dar lição de moral?

Ele ficou quieto por uns segundos, só o barulho do motor e minha respiração pesada. Aí olhou pra mim de lado, meio rindo, meio puto.

— Tu fala muito, Bianca...

— Ah vai tomar no teu cu. — respondi, sem querer e virei meu rosto pra janela, olhando pra movimentação que ainda tá na rua.

— Tá maluca porra? Me mandando tomar no cu? —Ele pegou no meu pescoço, fazendo eu olhar pra ele, apertou de leve e falou no fundo dos meus olhos, depois soltou a mão. —Pega a visão, parceira.

Botou as mãos no volante, e correu com o carro dali, parece um maluco dirigindo.

— Faz isso não vida, que já me dá logo um tesão. —falei olhando pra ele rindo, ela olhou pra mim e negou com a cabeça.

Ele soltou um sorriso torto, sem olhar pra mim, só deu aquela risadinha de canto.

— Fica tirando, Bianca... depois aguenta o papo.

— Ah, papo eu aguento, tu que não segura o rojão pô. — falei debochada, cruzando as pernas e ajeitando o cabelo todo com os dedos, fazendo de pente bagunçado ainda.

— Ih, tá se achando agora? — ele falou, com aquele tom rouco, quase rindo, mas ainda puto. — Daqui a pouco tu vai tá chorando, pedindo pra parar.

— Para nada, eu que boto tu pra pedir arrego, tu sabe cara. — rebati, encarando ele firme, e ele olhou pra mim rápido, com aquele olhar que me desmonta, mesmo quando eu quero odiar ele.

O som mudou, entrou um outro funk mais lento, mais sujo e o clima no carro ficou diferente. A respiração dele pesava, ele tava todo gostinho, 2 pistolas em cada perna, de blusa do mengo no ombro, boné meio que de lado, que perdição!

Ele o carro virou na rua da mãe dele. O som ainda tocava, o povo olhando, cumprimentando ele com aquele respeito de sempre.

Quando a gente parou em frente à casa da tia Gisely, ela já tava no portão, rindo, com o celular na mão.

— Ihhhh, olha quem chegou, a braba do Jacarezinho! — ela gritou, mão na cintura e aquele sorriso maroto. — Mo brabona tu hein, Bia! Causou, né?

Eu soltei um risinho e desci do carro.

— Falaram, tia? — perguntei, de leve.

— Falaram? Minha filha, o morro inteiro já sabe! — ela riu, abrindo o portão. — Meteram o vídeo no grupo da rua, tu tá viralizada, mona.

Gabriel bufou.

— Caralho, coroa, para de dar corda pra maluquice dela, pô — ele reclamou, passando a mão na cabeça.

— Ah, cala a boca, Gabriel — tia respondeu, rindo. — Tu também não presta, o da Bianca foi teti a teti, e tu que chega logo pra matar, quer falar de que tu?

— A diferença é que eu sou do corre, o bagulho se resolve assim! E eu só não quero ver ela se metendo nessas porra, coroa.

— Relaxa, — eu cortei, pegando a Maria no colo, que tava vidrada com o ipad e a chupeta na boca. — Já tá resolvido, alguma tinha que ficar de exemplo né, pra ver que eu sou de fazer e não de falar. Kkkkkk

A tia olhou pra mim com aquele olhar de quem aprova e ainda se amarra na treta.

— E tu fez foi pouco, Bianca. Se fosse comigo, eu tinha virado ela no avesso.

— Papo reto, tia. Falei com calma, ela quis bancar a maluca, agora aguenta.

Maria abraçou meu pescoço, cheirinho doce de bebê misturado com o de casa. Eu dei um beijo na testa dela e respirei fundo  já tava com a alma mais leve.

Ficamos ali conversando um pouco nos 3, comemos e depois Gabriel me levou pra casa.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora