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BIANCA 🧿

Acordei com Maria em cima de mim, toda esparramada, chupeta torta na boca, cabelo bagunçado. Coisa mais linda. Eu deitei pra fazer a Maria tirar o soninho da tarde dela e acabei dormindo junto, e o carrapato do Gabriel veio junto.

A única hora que essa garota fica quieta é dormindo. Fiquei só olhando, com a mão nas costinhas dela, sentindo aquele calorzinho bom.

Mas já era noite já, dava pra ver so a claridade do ar-condicionado piscando no quarto. Suspirei, desliguei o ar, tirei ela devagar de cima de mim e deixei na cama.

Fui pra sala, liguei a TV. Tava passando comercial, essas propagandas de remédio, supermercado, tudo chato. Aproveitei, fui na cozinha, peguei um pacote de biscoito recheado. A larica do cochilo da tarde sempre vem, parece até que eu tinha acabado de fumar.

Voltei pra sala mastigando, sentei no sofá, coloquei o pé em cima da mesinha. Quando a TV voltou, já era o RJTV.

A repórter com aquela cara séria, fundo de sirene, helicóptero, polícia correndo. Meu coração gelou na hora, eu sabia... sabia que vinha merda. E quando é esses bagulho a pessoa fica vidrada na tv né, eu nunca assisto TV, mas só passa esses bagulho que já era.

"Boa noite, a operação no Complexo da Penha deixa um saldo de mortos e presos. Entre os mortos, está Fabiel de Souza Santos, conhecido como 'Biel' ou Bl da penha, apontado como um dos chefes do tráfico na região. Segundo a polícia, ele estava sendo procurado há mais de cinco anos e era considerado um dos homens de confiança do comando..."

Na mesma hora o biscoito engasgou na minha boca. Me tremi inteira. A mão gelou, a visão embaçou.

-Biel... -sussurrei, quase sem voz. -Não, não é possível...

Meu olho marejou, lágrima escorrendo sozinha. Larguei o biscoito na mesa, fiquei só olhando pra TV. E parecia que cada palavra da mulher era uma facada: "um dos mais procurados... operações anteriores... troca de tiros intensa...".

Levei a mão na boca, o coração disparado. Era como se tivesse caído um buraco dentro de mim.
Peguei o celular tremendo e liguei pra Letícia. Ela atendeu já com barulho de funk atrás, sempre na rua.

-Fala, Índia.

-Letícia... -minha voz falhou. -Tu viu a TV? Diz que não é ele, por favor...

Silêncio do outro lado. Até o barulho de música parou.

-É ele, Bi. -a voz dela veio baixa, séria. -Biel morreu mesmo. Penha tá um caos, geral em choque. Mandaram fechar tudo lá.

A lágrima desceu quente.

-Caralho, Let... eu não sei o que eu faço, eu tô tremendo.

-Não faz nada, amiga. -ela disse firme. -Tu não pode chorar por ele em público, tu sabe. Tudo era no sigilo pow, ninguém pode desconfiar.

-Mas eu sinto, Let... -falei, engasgada. -Ele me tratava bem, sempre chegava com um carinho, me fazia rir... mesmo do jeito dele. Eu não amava ele, mas eu gostava... eu sentia.

Silêncio. Senti o peito apertar, a garganta travada. Lembrei das vezes que ele me chamava de "preta", dos presentes, das risadas no carro quando descia comigo escondido, da adrenalina. Lembrei do jeito que ele olhava a Maria, mesmo sem ser filha dele.

E agora... nada. Só uma foto estampada na TV, o corpo coberto no beco.

-Marca 10, tô indo aí fica contigo irmã. -Letícia falou do outro lado da linha, eu não conseguir dizer nada, apenas desliguei e coloquei o celular do meu lado no sofá, e fiquei encarando a TV, tentando processar tudo.

BIANCA 🧿Histórias para pegar e não largar. Descubra agora