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BIANCA 🧿

Cheguei no Guanabara com a Maria na cola e a Gaby já me esperando lá na porta, toda largada com shortinho jeans e chinelo, mas com aquele óculos grandão de lente escura fazendo a linha madame Jacaré.

A pMaria correndo com carrinho pequeno, daqueles de criança que o mercado dá só pra complicar, e eu já suando, pensando na lista de compra.

Logo que a gente entrou, parecia até bloco de carnaval: um monte de gente, empurra-empurra, caixa lotado, criança chorando. Peguei logo duas coca-cola de 2L porque se chegar no baile sem coca é passar vergonha.

— Bianca, tu viu o babado do Biel? — Gaby veio logo jogando a bomba, com aquele sorrisinho venenoso.

Olhei pra ela, fazendo a sonsa.

— Qual deles? Porque esse daí arruma caô até dormindo.

— A marmitex dele postou uma penca de foto com ele, tá ligado? Tipo casalzão. Aí a Fiel viu.

— Mentira.

— É sério, nega. O bagulho já tá rendendo no Twitter, cheio de fake falando. Diz que a Fiel quase matou ela ontem, só não matou porque os bofes impediu!

Soltei uma risada alta, pegando um pacote de batata.

— Essa mina é muito otária, mané. Ele deve falar as mesmas merda pra todas, e ainda tem quem acredite.

— É porque amante que não sabe se colocar, passa vergonha, Bia. Tu mesmo fala isso.

— Fato. Tu acha que eu vou pagar de ridícula? Não, né. Eu sei qual é meu lugar, e outra: já tenho dor de cabeça demais com o Relíquia. Imagina eu bater de frente com Fiel de vagabundo... tô fora.

— Isso aí, nega. Tu é amante consciente. — Gaby riu, pegando uma caixa de cerveja.

Maria, do nada, veio com o carrinho dela cheio de bala, chocolate e salgadinho.

— Mamãe, compla pá mim!

Olhei pra cara dela, rindo de nervoso.

— Tu tá pensando que eu sou quem, Maria? A dona do Guanabara? Vai escolher dois só, o resto vai ficar.

Tenho dinheiro pra levar? Tenho! Porém não vou acostumar não.
Ela cruzou os bracinhos, emburrada, mas obedeceu. Gaby ficou só rindo:

— Igualzinha a tu, Bianca. Cara fechada, mas coração mole.

— Vai tomar no cu, Gaby. — falei rindo.

Depois de pegar tudo, ficamos um tempão na fila, reclamando e fofocando. Quando conseguimos pagar, já tava de noite quase. Carregamos as sacolas até lá fora e cada uma subiu na sua CPX.

A minha já tava com o tanque quase na reserva, mas dei fé que chegava em casa. Maria subiu atrás de mim, sacola no braço, e partimos.

O vento batendo na cara, cheiro de churrasco já saindo das casas, gente gritando no beco "feliz natal", foguete estourando lá do alto. Gaby acelerou, piscou a luz da moto pra mim, e seguiu pro barraco dela. Eu fui pro meu canto, Maria já dormindo encostada em mim na moto.

Cheguei coloquei logo ela na cama, pra ir agilizando as coisas.

Larguei as compras na mesa e suspirei. A favela tava no pique, mas eu ainda tinha que fazer alguma coisa pra não ir de mão abanando pra ceia. Não sou dessas de meter o louco e chegar só pra comer.

Peguei logo um frango, temperei do jeito que eu sabia, joguei no forno, fiz um arroz com farofa do lado. Nada demais, mas era aquilo: simples, só pra não passar vergonha.

Maria acordou do cochilo e ficou resmungando no sofá, pedindo presente. Eu falei que só mais tarde, com a vó, que ia rolar.

Enquanto a comida tava lá no fogo, fiquei mexendo no celular, rolando o Twitter e rindo dos memes sobre o Biel e as marmitas dele. "Homem é tudo igual", pensei, sacudindo a cabeça.

Botei a comida que eu tinha feito mais cedo nas sacolas daquelas de feira mesmo, sabe? Que tem a alça reforçada e dá pra meter até travessa de vidro. Peguei o arroz, a farofa, e o frango que já tava douradinho. Não ficou nível chefe de cozinha, mas tava cheiroso, e era o suficiente pra eu não passar vergonha quando chegasse lá na casa da ex-sogra.

Maria tava toda preguiçosa, mas mesmo assim arrumei ela direitinho: vestidinho florido, sandalinha e o cabelo preso com lacinho. Ela reclamou, claro, porque criança nunca tá satisfeita.

— Tá dodoi , mamã!

— Tá não, garota. Para de onda. Tá linda.

Quando terminei, peguei as sacolas, botei tudo no braço, ajeitei Maria na CPX, bebel já tá prendada, fica quietinha e subi o morro. O vento batendo na cara, foguete estourando lá de cima, a favela já tava com aquele clima de Natal.

Chegando na casa da Gisely, encontrei logo os familiares do Gabriel. Alguns eu já conhecia, tipo a avó dele, sempre fofa comigo, e uma tia que eu nem lembrava o nome mas que adorava soltar gracinha. E tinha também a prima dele, piranhona assumida, que ficava me olhando de cima a baixo como se eu fosse ameaça.

Entreguei as sacolas na cozinha e falei:

— Gi, trouxe umas coisinhas aí que eu fiz, só pra não vir de mão vazia.

Ela sorriu, sempre com aquele jeitinho doce dela:

— Obrigada, Bia, você é um amor. Maria vai ficar aqui comigo, né?

Maria já tinha se jogado no colo da avó, abraçando forte. Aí a tia sem noção veio com a língua afiada:

— Ué, Bianca, vai pra onde toda arrumada desse jeito?

Revirei os olhos por dentro, mas mantive a pose:

— Vou resolver umas coisas, tia. Mais tarde eu volto pra ceia.

A prima piranhona riu baixinho, cochichando com alguém, e eu pensei: se a Gaby não gosta muito dela, quem sou eu pra gostar? Não tinha opinião formada, mas já sabia que não ia dar liga.

Beijei Maria, que já tava toda feliz com os presentes que o povo da família deu, e desci de novo no grau da CPX. Primeiro destino: cabine de bronze. Fiquei lá, ouvindo funk no fundo, sentindo o calor, do meu sol azul pensando na vida.

Saí reluzente, marquinha desenhada do jeito que eu gosto.

Daí já emendei sobrancelha, cílios e unha. Tudo marcado, tudo no esquema. Quando eu quero me cuidar, é pra sair de lá mulherão.

E como se não bastasse, ainda parei nas lojas do morro. O bom é que nem precisa descer pro asfalto. As meninas vendem umas peças de cair o queixo. Babado mesmo.

Na primeira lojinha não curti nada. Achei meio sem graça. Já na segunda, provei três roupas e fiquei na dúvida, acabei levando as três, porque né... melhor garantir. Passei em outra, que tinha até umas peças diferenciadas, mas não curti tanto.

Ganhei até um cropped de graça, pra eu divulgar, hahaha!

Por fim, fui na lojinha de calçado e comprei logo um salto daqueles, junto com uma bolsa pra completar o look. Saí carregada, mas feliz.

Voltei pra casa no gás da moto, sacolas balançando e eu rindo sozinha, porque só quem é cria sabe o gostinho de resolver tudo sem sair do morro.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora