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BIANCA🧿

O dia amanheceu nublado, aquele peso estranho no ar, como se o céu também tivesse sentido a perda dele. A favela tava silenciosa, só o som das motos passando de vez em quando, os cachorro latindo na rua e as tia fofoqueira cochichando na esquina.

Eu tava em casa, com as meninas, preparando as paradas pro enterro. A Maria ficou com a vó, lá em cima, porque hoje não dava... hoje era dia de despedida.

A Bruna tava largada no sofá, calada, olhando pro nada, com o olho inchado de tanto chorar. Eu e as meninas, na cozinha, fazendo a blusa que combinamos. Pegamos aquela foto dele, boladão, camisa do vasco, a correntona no pescoço, o sorriso de sempre, e mandamos estampar.

A frase saiu de mim, do fundo da alma:
"Saudades eternas, te levo no coração porque na vida não consegui, eterno PT do Jaca 🐊🚩🐻😭"

— Ficou foda — falei, olhando pra estampa ainda quente, brilhando no tecido branco.

Letícia passou a mão na blusa com cuidado, como se tivesse passando na pele dele.

— Tá a cara dele... — murmurou, com o olho cheio d'água de novo.

— Vai geral usar, né? — perguntei, pegando a outra blusa que acabamos de estampar.

— Claro, pô... ele merece. Foi cria, foi parceiro, foi sangue. Ele morreu como homem!

A Bruna nem reagiu, só ficou ali, parada, com aquele olhar vazio. Fui até ela, abaixei, coloquei a blusa na mão dela.

— Veste, mana... por ele.

Ela pegou, apertou contra o peito, mas nem teve força de responder. Levantou devagar, foi pro quarto e se trocou. Saiu de lá com a blusa vestida, o rosto pálido, mas firme.

— Bora — ela disse, com a voz fraca, mas decidida.

Descemos o morro todo mundo junto, o bonde pesadão. A rua já tava cheia de gente, todo mundo usando as blusas com a mesma estampa, os moleque com as motos alinhadas, bandeira do Vasco pendurada, os cria tudo na contenção.

Parecia que a favela parou, geral indo pra mesma direção: o cemitério, ali perto do morro do Jacaré.

A mãe dele tava lá, já, sentada num banco, com a cara fechada, o olhar perdido. A irmã também, abraçada nela, mas nem olhava pra Bruna. Passamos por elas, e eu senti aquele climão... pesado. Elas nem deram bom dia, nem olharam. Só ficou aquele silêncio cortante.

Fui puxando a Bruna devagar, abraçada nela, porque eu sabia que ela tava segurando muito, mas a qualquer momento podia desabar.

Quando o caixão chegou, carregado pelos amigos mais próximos, o morro inteiro ficou em silêncio. Só dava pra ouvir o choro abafado de algumas mães, as orações baixas, e o ronco das motos que ficaram de fora, esperando a carreata de depois.

Eu olhei pro caixão, todo preto, com a bandeira do Vasco jogada em cima, o boné dele no canto. A blusa que fizemos... ficou perfeita, parecia que ele tava ali, rindo com a gente.

De repente, no meio da cerimônia, apareceu uma enviada. Aquela que vivia de cisma com a Bruna, sempre querendo arrumar uma treta.

Ela veio pra cima, com o barrigão aparecendo, gritando:

— Ele era meu! Eu tô esperando um filho dele! Eu que devia tá aí, não tu!

O tempo parou.

Bruna arregalou o olho, e antes dela falar qualquer coisa, eu entrei no meio.

— Se manca, garota! Hoje é dia de respeito, cala tua boca! — já botei a mão na frente da Bruna, que tava vermelha de raiva e de dor.

—Se manca, Bianca! Tu sabe! Ele tava comigo também! — a garota berrou, chorando.

A mãe e a irmã dele nem se meteram, só olharam de canto, com aquele olhar de desprezo. Elas não gostavam da Bruna, isso sempre foi nítido. Hoje, então... pior ainda.

— Vai embora, mandada do caralho. Hoje não — falei, segurando o braço da Bruna, que já tava se tremendo.

Ela ficou me olhando, com a lágrima descendo, mas engoliu seco. Nem respondeu.

A garota foi levada pelo tio dela, que viu que ia dar merda e puxou ela dali.

**

Depois disso, rolou a última despedida. Cada um foi colocando uma flor, um arranjo de flores com os nomes das pessoas que se importam com ele, uma lembrança, um toque no caixão, antes de descer. Bruna encostou a mão na madeira, ficou parada ali, como se não quisesse soltar nunca.

— Eu te amo, seu otário... — ela sussurrou, e eu, do lado, apertei a mão dela.

Deixamos ele ir.

O caixão desceu, e junto com ele, uma parte da gente.

**

Na saída, geral montou nas motos. O bonde parecia um exército. Todo mundo com a blusa, a frase brilhando no peito:

"Saudades eternas, te levo no coração porque na vida não consegui, eterno PT do Jaca 🐊🚩🐻😭"

Liguei minha moto, com a Bruna na garupa, e o ronco dos motores ecoou por tudo.

Geral acelerou junto, fazendo aquele barulho que ele amava, passando pelas ruas do morro, como se fosse uma carreata, uma homenagem viva.

O vento batia no rosto, o som das motos parecia um grito coletivo:
"Valeu, PT! Tá eternizado no morro, cria!"

Subimos, cortamos o Jacaré todo, descemos pelo Manguinhos, Bonsucesso,  demos a volta no Complexo, fizemos o barulho que ele sempre fazia quando passava na frente das barracas.

No final, paramos todos na laje onde ele sempre ficava com a gente, fumando, trocando ideia, dando risada. Gabriel mandou um monte de mensagem falando sobre o amigo, e do enterro que ele não pode ir.

Bruna olhou pro céu, calada. Eu fiquei do lado, respirando fundo, sentindo que, de alguma forma, ele tava ali, rindo da gente, pedindo pra soltar mais um foguete, pra fazer mais um rolé. Os fogos foram soltados, em homenagem.

E foi isso que a gente fez.

**

O morro pode até ficar mais silencioso agora, mas a nossa memória... essa nunca vai se calar.
Eterno PT do Jaca.

🐊🚩🐻😭

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