BIANCA🧿
A laje já tava esfriando, o sol já tinha ido embora, e a brisa da noite começava a bater diferente.
A carne já tinha dado o que tinha que dar, os copos já tavam mais pra lá do que pra cá, e as conversas tavam só risada e zoeira.
O som batendo alto no fundo, e Gabriel encostado perto do portão da laje, beck numa mão, copo de whisky na outra, só na resenha com Frajola e PT.
—Pega visão, rapaziada! — alguém gritou lá de cima — Vai rolar pagofunk lá na quadra hoje! Vamo brotar?
Foi o suficiente pra acender a vibe de geral.
— Ainda! — Gabriel respondeu — Bora piar do jeitão que a nós tá, as mulher demora pra carai pra se arrumar.
Eu fui logo pegando Maria Giulia, ajeitei ela no colo e fui procurar da tia Gisely, mãe do Gabriel.
— Tia, segura ela pra mim um tempo? A gente vai dar um pulo lá no pagode.
— Claro, minha filha. Vai lá, aproveita. Eu fico com a minha princesinha aqui — falou com aquele jeitinho carinhoso de sempre.
Dei um beijo na testa da pequena, que já tava quase dormindo no meu colo, e entreguei pra ela.
Desci com as meninas — Bruna, Letícia e Gabrielly — e os bofes já estavam tudo se reunindo na descida, esperando só a gente. O bondezinho tava formado: o cheiro da laje ainda impregnado nas roupas, os olhos meio vermelhos, mas a vibe? Alta.
Descemos com aquele passinho solto, risada solta, cerveja na mão e os moleques soltando fumaça pro céu. O som do tamborim e do batidão já ecoava lá de baixo, e o morro inteiro parecia se preparar pra aquela noite.
A quadra tava cheia, o DJ mandando ver no microfone:
— Alô, Jacarezinhoooo! Quem tá feliz grita aêêê!
Gritaria, fogos estourando, o pagode tocando pesado, e a gente chegou como? Dominando o ambiente. Os caras tudo ronca, as minas de shortinho e brilho na pele, e o clima fervendo.
Encostamos num canto, pedimos umas breja e ficamos ali, só na resenha. As mulheres dos traficantes tudo reunida, falando alto, dançando, tirando foto e trocando ideia.
— Papo reto, minha vida era outra antes do bofe entrar pro corre — falou uma delas, balançando o copo.
— E tu acha que a minha não era? — Gabrielly retrucou, rindo. — Mas fazer o quê? A gente ama, né.
— Eu só queria que ele parasse, mas nessa altura do campeonato. — disse Luana, a grávida que a gente conheceu mais cedo.
Eu escutava tudo, mas meu olhar não largava a pista. Meu olho bateu numa figura conhecida... uma mulher, de vestido justo, saltinho e cabelo escovado. Era a tal amante que a gente já tinha visto mais cedo, mas agora? Tava vindo na nossa direção.
Ela veio com aquele sorriso falso, forçado, e se meteu no meio da roda. O clima mudou na hora.
— E aí, manas... tudo teigas? — ela disse, como se fosse íntima.
As meninas se entreolharam.
— Ainda. — Letícia respondeu seca, já sacando que vinha b.o.
— Queria trocar um lero com vocês, porque acho que me entenderam mal lá na laje.
— Ninguém entendeu mal não, gata — Bruna retrucou. — A gente só entendeu o que tu mostrou mesmo.
Ela deu um risinho debochado.
— Relaxa... eu sei que é foda ser mulher de traficante. Eu já fui amante, mas hoje sou fiel. Ele largou tudo por mim.
Nisso, uma das fies escutou.
— Como é? — a mina virou com a cara fechada — Tu tá falando do Marquinhos?
A amante arregalou o olho. Silêncio. Pesado.
— Tá falando do meu bofe?
— Ué, ele não disse que tava solteiro?
— Solteiro, meu cu, tá maluca? — a mina foi pra cima dela, empurrando com força.
A roda abriu no mesmo segundo, os gritos começaram. A amante tentou explicar, mas já era. A fiel pulou no pescoço dela, puxou o muco com gosto. Gritaria, cabelo voando, os caras tudo tentando separar.
— Qual foi? Qual foi? — gritou PT, segurando a fiel.
Gabriel me puxou pra trás, me protegendo, mas eu não conseguia tirar o olho da cena.
— Pprt, falei que ela era probrema — murmurei.
Letícia só ria.
— As mina pintam mexmo, não perdoa!
Depois da confusão, a amante saiu boladona, com o cabelo todo revirado, e a fiel foi aplaudida pelas outras mulheres.
— Aqui é mulher de cria, respeita — gritou ela.
O DJ só mandou um "tá pegando fogo, hein?" e botou um batidão de novo, como se nada tivesse acontecido.
Tentei relaxar, mas meu peito apertou de novo. No meio da multidão, do lado oposto da quadra... vi alguém. Uma mulher. Cabelo preso, olhar sério, e ao lado dela... o marido dela.
Minha mãe.
Fingi que não vi. Travei. Olhei pro chão, respirei fundo. Meu mundo parou por um segundo. Era como se tudo tivesse sumido, só eu ali, parada, com o coração acelerado.
Bruna percebeu.
— Qual foi?
— Minha mãe... — sussurrei.
— Tá de sacanagem...
— Tô falando sério.
Olhei de novo, ela ainda tava lá. Me encarando de longe. Mas fingiu que não me viu também.
Vi Beatriz, minha irmã mais nova, do lado dela. E a Analu, amiga dela, segurando uma bebê no colo.
— Que isso... — falei, me aproximando — Elas trouxeram a Laurinha?
— Tu é doida, Beatriz? — Bruna gritou. — Isso aqui não é lugar pra criança!
— Qual foi, Bruna! A gente só desceu rapidinho, não tinha com quem deixar. Já vamo subir!
—Vocês são malucas né, pprt —eu falei.
Analu ficou em silêncio. Beatriz se desculpou e saiu rápido com a bebê no colo.
O clima já tinha mudado pra mim. Bateu a bad. O olhar da minha mãe me acompanhando ali me desestruturou. Gabriel notou e segurou minha mão.
— Quer ir embora?
Assenti.
— Vamo, já deu. Pegamos a Maria e subimos, jae?
— Tá.
E ali, com o som explodindo no fundo, e meu coração apertado, percebi que mesmo longe da minha mãe, da casa onde cresci, das lembranças ruins... ainda tinha ferida aberta demais dentro de mim.
Mas com minha filha nos braços, e o Gabriel do meu lado... pelo menos eu não tava sozinha.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
