Capítulo 34

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"Você me quebra em pedaços e, ainda assim, me faz querer ser toda sua."

Eu e Tony voltávamos pela janela da sala, ofegantes, tentando conter as risadas enquanto nossos pés tocavam o chão de madeira. Meu coração estava acelerado, mas não por medo. Era mais pela adrenalina de fazer algo proibido. A sensação de liberdade era inebriante.

— Shh! — Tony colocou o dedo nos lábios, sorrindo para mim enquanto fechava a janela atrás de nós. — Viu? Tranquilo. Ninguém nos peg...

Mal ele terminou a frase, a luz da sala se acendeu, ofuscando nossos olhos por um momento. Eu congelei, meu coração despencando no peito. Lá estavam a tia Lenne, com os braços cruzados e uma expressão que misturava desgosto e indignação, e, ao lado dela, o pai de Tony, que parecia mais cansado do que bravo.

— Vocês acham que são espertos, não é? — Tia começou, com sua voz cortante como uma faca. — Eu sabia que esse moleque ia levar você para o mau caminho, Yolanda!

Olhei para Tony, que cruzou os braços e levantou o queixo, desafiador como sempre.

— Tia Lenne, não foi culpa dele. Eu...

— Não precisa defender ninguém, menina. Todo mundo sabe que você nunca sai de casa. Quem teve a brilhante ideia de pular a janela? Hein? — Ela se virou para Tony, apontando um dedo acusador. — Aposto que foi você!

Tony revirou os olhos, desprezando completamente o tom acusador.

— E daí? Ela queria sair, eu só ajudei.

— Ajuda! — Ela riu, mas não havia humor em seu riso. — Você só ajuda a enfiar ela em confusão.

— Ah, vá catar coquinho, sua vaca! — Tony disparou, a voz cheia de desprezo.

Minha boca caiu aberta. Eu sabia que ele não tinha papas na língua, mas aquilo era... ousado até para ele.

— O quê?! — Tia Lenne gritou, vermelha de raiva. Ela se virou para o pai de Tony, apontando para o garoto como se ele fosse uma aberração. — Você vai deixar ele falar assim comigo?

O pai de Tony suspirou, esfregando o rosto como se quisesse sumir dali.

— Ele é só uma criança, Lenne.

— Criança? Isso é um demônio de calças curtas! — Ela bufou, jogando as mãos para o alto. — Esse garoto tá levando a Yolanda pro mal caminho. Ela era tão inocente, mal saía do portão de casa.

Senti o peso do olhar dela sobre mim, como se cada palavra fosse uma acusação. Queria gritar que não era verdade, mas parecia que minha voz tinha sumido.

— E o que você quer que eu faça? — O pai de Tony perguntou, já sem paciência.

— Eu quero que você o controle! — Lenne gritou. — Ou pelo menos me apoie quando eu digo que ele não pode mais andar com essa menina.

O pai de Tony balançou a cabeça e suspirou novamente, parecendo indiferente.

— A condição para que eu possa sair é levar o garoto junto. Assim Charlotte não desconfia. — Ele diz com sua voz baixa, carregada de tédio. — Se você está achando ruim de um, imagina se eu trouxesse as duas cópias.

A tensão na sala era tão densa que parecia difícil respirar. Olhei para Tony, que me lançou um olhar que dizia: Não se preocupe. E, de alguma forma, isso foi suficiente para acalmar meu coração.

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