Capítulo 61

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"No momento em que te vi, você deixou de ser livre."

TOM KAULITZ

A noite estava fria, mas a raiva que fervia em meu peito era suficiente para me manter aquecido. Eu estava ali, na sacada do quarto dela, escondido sob a máscara e a touca do moletom, esperando o momento certo. O relógio marcava quase meia-noite. Dia 16 de novembro. Nunca esqueci essa data. O aniversário dela.

Na minha mão, as rosas que escolhi com cuidado: negras e vermelhas, como um reflexo da minha própria confusão. Eu nunca fui de dar flores, mas hoje... Hoje era diferente. Talvez porque cada lágrima dela que vi cair pela maldita câmera instalada em seu quarto parecesse uma faca rasgando meu orgulho. Instalei aquilo um dia após nossa ida à praia. Depois daquele dia, depois de vê-la tão vulnerável e ao mesmo tempo tão distante, decidi que precisava monitorá-la. Precisava saber o que acontecia quando eu não estava por perto, o que ou quem poderia machucá-la. Era uma forma de protegê-la, de mantê-la perto de mim, mesmo que ela não soubesse.

Nos últimos dias, mal olhei para a câmera. O trabalho tem me consumido, mas cada vez que eu abria o aplicativo e via seu rosto cansado, algo dentro de mim se partia. Hoje, porém, quando finalmente tive tempo de assistir, encontrei uma Yolanda diferente. Não a garota decidida e cheia de sarcasmo que costumava me desafiar, mas alguém quebrada. Suas lágrimas eram incessantes, como se o mundo tivesse desmoronado sobre ela.

Ver aquilo foi um golpe. Saber que eu não estava lá para impedi-la de chorar, para segurá-la ou para eliminar quem quer que fosse responsável... Isso me corroía. Fiquei assistindo até que não suportei mais e vim até aqui. Não era só ciúme ou obsessão. Era algo mais profundo. Um instinto primitivo de protegê-la, de fazê-la entender que ninguém, além de mim, tem o direito de causar qualquer impacto na sua vida, muito menos um impacto que a faça sofrer.

Ela estava chorando mais do que o habitual. Eu sabia que algo estava errado, e o pensamento de que alguém pudesse ser a razão daquele sofrimento me consumia de ódio. Quem ousaria machucá-la assim? Quem ousaria tocar o que é meu?

Esperei até que o som do choro cessasse e seus olhos inchados finalmente se fechassem, entregando-se a um sono inquieto. Cada soluço dela parecia ecoar dentro de mim, como se estivesse sendo esculpido na minha alma. Quando a respiração dela se estabilizou, pulei para dentro do quarto com a familiaridade de quem já fez isso muitas vezes.

A luz fraca do abajur iluminava suavemente seu rosto, revelando cada detalhe que eu conhecia de cor. Coloquei o buquê de rosas negras e vermelhas sobre a mesa ao lado da cama, mas peguei uma das rosas. Passei os dedos pelas pétalas negras macias, sentindo a delicadeza que combinava tanto com ela, antes de deixá-la cuidadosamente ao lado de sua mão. O contraste da rosa contra sua pele pálida era quase poético, uma declaração silenciosa do quanto ela era minha, mesmo que não admitisse.

Com o mínimo de movimento, puxei a poltrona que ficava no canto e me sentei, observando-a dormir. Seu peito subia e descia em um ritmo calmo, mas ainda havia vestígios das lágrimas no brilho úmido de suas bochechas. Cada detalhe dela era uma lembrança vívida do quanto ela me pertencia. Desde o contorno delicado de seu rosto até a forma como seus cílios longos descansavam contra as bochechas rosadas, tudo nela gritava que era minha. Sempre foi.

Mas o que mais me irritava, o que fazia meu sangue ferver enquanto eu a observava, era saber que ela insistia em me afastar. Não era o mundo, não eram os outros. Era ela mesma. Como se pudesse negar o que éramos, como se tivesse o poder de apagar o que construímos juntos.

Eu não me importava com a resistência dela. Podia se contorcer, fugir, chorar ou até me odiar, mas no final, tudo isso era inútil. Ela era um pedaço de mim. Sempre foi e sempre seria.

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