Capítulo 41

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“No fim das contas, quem sou eu sem ele? Só uma sombra perdida.”

YOLANDA

O refeitório do colégio parecia um zoológico naquela hora: vozes altas, risadas esganiçadas e o cheiro misturado de comida barata e perfume adolescente. Eu, Megan e Ashley estávamos sentadas no canto de sempre, longe das mesas mais movimentadas, mas próximas o suficiente para ouvir um ou outro comentário aleatório dos alunos ao redor.

— Deve ser bizarro, né? — Ashley perguntou, dobrando a embalagem do suco até ficar do tamanho de um quadrado perfeito. — Tipo, morar com um pai que você acabou de conhecer. Parece coisa de novela, só que sem os fogos de artifício e a trilha sonora.

Soltei um suspiro cansado e brinquei com os farelos que sobraram da minha torrada.

— Estranho é pouco — Murmurei, olhando para as duas. — Imagina você passar anos acreditando que seu pai morreu, aí, do nada, ele aparece e, pronto, está lá na sua vida. Só que ele tem uma casa enorme, com uma madrasta que parece uma boneca de porcelana e uma irmã adolescente que atua como protagonista de filme de rebeldia.

Megan riu alto, fazendo algumas pessoas da mesa ao lado olharem para a gente.

— Sério, eu não sei se tenho mais curiosidade sobre o pai distante ou essa irmã rebelde. A descrição é boa! Ela faz o quê? Quebra copos no café da manhã e sai de jaqueta de couro dizendo que odeia o sistema? — Perguntou, se abanando teatralmente com um guardanapo.

— Megan, foca. A madrasta porcelana é mais interessante. Aposto que ela faz aquela cara neutra e resolve tudo com sorrisos, tipo uma rainha malvada que você não consegue odiar. — Ashley rolou os olhos e devolveu.

— Sim, exatamente! — Respondi, soltando uma risada. — Ela é tão calma que chega a dar raiva. A voz é doce, os olhos brilhantes, e ela diz coisas do tipo “Vai ficar tudo bem” com a mesma expressão de quem fala “O jantar está servido”. Tudo na base do sorriso.

— E ela te assusta? Me diz que você acha que ela vai te envenenar! Porque isso sim seria coisa de filme. — Megan inclinou o corpo sobre a mesa, os olhos brilhando de interesse.

— Assustar, não... — Fiz uma pausa, mordendo o lábio e buscando as palavras certas. — Mas me incomoda. É como se tudo fosse forçado demais. Como se ela já tivesse ensaiado cada palavra antes de abrir a boca.

— Isso tudo explica o tédio, mas... e você? Está aguentando? Porque eu teria uma crise. — Ashley me deu uma cotovelada leve no braço, estreitando os olhos.

Suspirei mais uma vez e deixei o corpo escorregar um pouco na cadeira.

— Acho que vou ter uma. Sério, se a gente não sair pra algum lugar logo, vou surtar! Lá é tão entediante... Minha irmã só me ignora, a madrasta sorri o tempo todo, e ele... Bom, o Otto.

— Otto? Quem é esse? — Megan perguntou, franzindo as sobrancelhas.

— Meu novo pai — Respondi com certa hesitação. — Quer dizer, é como eu o chamo. Não consigo chamá-lo de pai ainda. É estranho demais.

— Ah, faz sentido — Megan disse, empurrando uma batata no prato. — Mas então, o que vamos fazer final de semana?

— Vou falar com ele. Tenho certeza que, se pedir, ele vai deixar. Preciso de alguma coisa pra animar minha semana, porque... sério. Se eu ficar mais tempo entediada naquela casa, vou pirar de vez.

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