Capítulo 94

397 41 95
                                        

"No final, ela voltou para mim. Sempre foi minha, desde o começo, e sempre será, porque eu sou dela, e nós seremos um só até o fim."

TOM KAULITZ

Cada passo na lama é um inferno, meus músculos queimam, minha respiração está rasgando meu peito, e ela...

Ela está tremendo. De frio, de dor, de tudo.

- Eu... não estou aguentando mais... - A voz dela sai trêmula, falha. - Está doendo demais, Tom... Eu não vou conseguir...

Paro na mesma hora. Ela tá se segurando em mim, os olhos apertados de dor.

- Eu só vou atrasar você...

- Não fode. - Me abaixo e passo os braços ao redor dela. - Você nunca vai me atrasar. Nunca vou te deixar pra trás.

Levanto ela nos braços, ignorando o peso do cansaço. A dor dela importa mais. Ela esconde o rosto no meu pescoço, e então...

- AHHH!

O grito dela rasga a noite. Eu congelo.

- Baby, Dylan pode ouvir. Ele vai vir atrás da gente!

- Vai se foder, Tom! - Ela se contorce nos meus braços, a respiração irregular. - Você não está no meu lugar! Não sabe o que eu estou sentindo!

Ela tem razão.

- Desculpa, desculpa...

Ela grita de novo e, dessa vez, sinto os dentes dela afundarem no meu ombro. Forte. Meu corpo tensiona, mas não digo nada.

Foda-se.

Se morder meu ombro alivia 1% do que ela tá sentindo, então que me rasgue inteiro.

Os músculos das minhas pernas imploram por descanso, mas sigo em frente, segurando ela firme contra mim.

Foi quando eu vi.

A silhueta de um prédio no escuro. Antiga, gótica. Uma igreja.

- Quase lá, baby... Segura firme.

Agarro ela com mais força e começo a correr, ignorando a lama sugando meus pés, a chuva encharcando cada pedaço do meu corpo.

Quando chego, não penso duas vezes.

- Porra!

Chuto a porta. A madeira podre cede, e eu entro com ela nos braços.

O lugar fede a mofo, as goteiras pingam no chão, mas pelo menos aqui, Dylan não tem visão de nós.

Coloco ela no chão com cuidado, mas ela se solta e se arrasta até o altar, sujando o vestido branco com lama e sangue. Sangue que não parava de sair desde que sua bolsa estourou.

Ela encosta as costas na escada, a cabeça jogada pra trás, os olhos cheios de desespero.

Eu corro até os bancos e empurro alguns contra a porta. Não é grande coisa, mas vai atrasar quem tentar entrar.

Quando me viro, vejo ela tremendo, os braços ao redor da barriga.

- Eu... não vou conseguir chegar até a cidade.

Minha respiração trava. Eu sei disso. Mas ouvir dela me quebra.

- Nós vamos...

Ela chora.

- A gente ia morar na casa de praia... Longe daqui... Dessa cidade...

Me abaixo perto dela, sentindo o chão frio contra os joelhos.

Inefável Onde histórias criam vida. Descubra agora