Capítulo 40

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"Se ele me perder de vista, sei que virá atrás de mim."

Estávamos sentados no chão do meu quarto, brincando com a casinha de bonecas. Tony odiava aquilo, eu sabia. Odiava bonecas, odiava brinquedos “de menina”, odiava até ficar no meu quarto, cercado por coisas que ele considerava inúteis. Mesmo assim, ele estava ali, mãos desajeitadas e cenho franzido, forçando-se a alinhar os móveis minúsculos da casinha como eu havia mandado. Tony nunca fazia nada por ninguém — ele desprezava o mundo inteiro sem disfarçar. Resmungava, respondia torto, olhava as pessoas como se fossem insignificantes. Mas comigo... comigo ele era diferente. Não resistia a mim, por mais que tentasse, e acabava fazendo tudo o que eu pedisse, quase como se eu tivesse um controle invisível sobre ele. Talvez, no fundo, ele soubesse que eu era a única que ainda o tratava como alguém importante.

Olhei para ele tentando, com dificuldade, encaixar a cabeça de uma boneca na cama da casinha. Sua expressão era de pura concentração carrancuda, o que acabou me fazendo sorrir sem perceber. Mesmo odiando cada segundo, ele fazia aquilo por mim. Era o tipo de coisa que me fazia sentir especial — como se eu fosse a única pessoa no mundo capaz de suavizar aquela dureza que ele carregava.

— Tony, você tá bem? — perguntei, quebrando o silêncio. — Parece meio triste... Você quer conversar? Quando eu fico triste, fico com essa carinha também.

Ele hesitou, como sempre fazia quando alguém tentava entrar naquela muralha dele. Seus olhos estavam ligeiramente brilhando, mas ele abaixou a cabeça, desviando o olhar como quem queria esconder tudo de mim. Depois de um tempo, ele respirou fundo e, sem me olhar diretamente, disse:

— Eu ouvi meus pais brigando. Eles falaram que eu sou um problema. — Sua voz era quase um sussurro, pesada como uma nuvem prestes a desabar. — Meu pai disse que eu vou acabar afetando meu irmão. Que eu sou... uma criança diabólica.

As palavras dele vieram acompanhadas de um tremor na voz que me partiu em pedaços. Eu nunca tinha visto Tony assim. Seus olhos estavam vermelhos, marejados, segurando o que parecia ser uma tempestade que ele não deixava sair.

Senti o peito apertar. Não entendi completamente o peso que ele carregava, mas sabia de uma coisa: eles estavam errados. Totalmente errados.

— Isso não é verdade, Tony. Você não é nada disso. Eu não acho isso. — Fiz uma pausa, esperando que ele olhasse para mim, mas ele não levantou os olhos. — Você é a melhor pessoa do mundo. E se eu não acho que você é um problema, isso é o que importa, não é?

Ele ficou em silêncio. Fez um leve movimento com a cabeça, como se reconhecesse o que eu estava dizendo, mas não acreditasse totalmente. Seus olhos se voltaram para a boneca na cama, mas não vi mais concentração ou esforço em montá-la. Apenas um vazio, como se aquilo tudo não significasse mais nada.

— Posso... ficar um pouco abraçado contigo? Só um pouco...

A voz dele foi tão baixa, tão hesitante, que o coração apertou ainda mais. Era como se Tony estivesse tirando o peso do mundo de cima de si por apenas alguns segundos. Eu assenti, sem pensar duas vezes. E, sem hesitar, ele se aproximou devagar, como se quebrado, até apoiar a cabeça no meu ombro e envolver meus braços no corpo dele.

Senti o tremor contido em seu peito, o calor de sua respiração misturada com o som leve, abafado, do seu choro.

Mesmo desconfortável no chão, eu não movo um músculo. O abraço de Tony parece mais frágil e pesado do que nunca. As mãos dele tremem enquanto seguram levemente meus ombros, como se ele temesse que até eu pudesse quebrar. Sinto uma gota quente no meu pescoço, ele está chorando, baixinho, como nunca vi. Aquele menino duro, que sempre exalava força até nos momentos mais difíceis, agora parece só um garoto perdido que precisava de um abraço.

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