"Eu não sei mais quem sou sem ela ao meu lado, e isso me assusta mais do que qualquer outra coisa."
Tom Kaulitz
Acordo com a luz filtrando pela pequena janela da cela, o som abafado e irritante do rádio começando a tocar lá do outro lado do corredor. Não preciso nem olhar para saber que é ele, o maldito rádio velho, em algum lugar, esquecido pelos anos, tocando sempre a mesma música melancólica. Eu não preciso mais olhar para o relógio. Já conheço a maldita programação do lugar. Como se o rádio fosse uma parte do cenário, da rotina que me consome. Esse som maldito sempre é o mesmo, no mesmo horário, com a mesma maldita música.
Wicked Game. Toda manhã. A voz suave do Chris Isaak ecoa pelo corredor, e o som me atravessa como uma faca, direto no peito. Às vezes, quase me sinto como a música, sem saída, condenado a repetir os mesmos passos, dia após dia, como um condenado a um ciclo que nunca se quebra. Eu não sei o que é pior: o som da música ou a sensação de estar envelhecendo aqui dentro, preso em um lugar onde até o ar tem gosto de ferrugem. É como se o tempo se arrastasse de maneira torturante, me envelhecendo por dentro, mas, na verdade, só se passaram seis meses.
Eu me viro para o outro lado da cama, tentando me afastar do som. A prisão ainda está quieta, a luz matutina se arrastando pelo chão, e eu não posso deixar de pensar em como o maldito rádio parece envelhecer junto comigo, como se fosse uma metáfora da minha própria existência aqui. Cada nota da música parece corroer um pedaço de mim, um pedaço da pessoa que eu já fui.
Meu colega de cela, que é mais um inimigo do que qualquer outra coisa, ainda está roncando, jogado sobre a cama de metal. Ele nunca acorda cedo, nem mesmo com essa música infernal. O tempo aqui dentro tem essa maldita característica: ele engole todo mundo, mas ninguém percebe o quanto está sendo consumido até ser tarde demais.
Eu me sento na cama, passando as mãos pelo rosto, sentindo o peso de tudo o que aconteceu nos últimos meses. Não sei se o rádio toca a mesma música por ser um erro ou uma piada do destino, mas, por algum motivo, eu já não me importo mais. Esse lugar me encheu de algo... algo vazio e frio, como o som daquelas melodias que nunca mudam. Um ciclo de dor, como um castigo que parece não ter fim.
Com a sensação de estar perdendo o controle, respiro fundo, puxo o cigarro debaixo do colchão e acendo com o isqueiro que eu já sei de cor onde está. O fogo do isqueiro ilumina o ambiente por um momento, e depois a fumaça se mistura com a luz fraca que entra pela janela. Isso é tudo o que eu tenho agora: o peso do silêncio e o alívio temporário que o cigarro me dá.
O som de Wicked Game continua tocando. Eu respiro fundo, e solto a fumaça, tentando ignorar, mas não consigo. Cada dia aqui é como uma repetição, uma melodia insuportável que nunca acaba. Eu me levanto, me espreguiçando, tentando me livrar dessa sensação horrível de estar estagnado. Eu olho pela pequena janela, vendo o sol fraco e sem vida lá fora. Como se a luz do dia fosse uma piada, distante de tudo o que poderia ser um futuro real. Eu ainda estou preso aqui, e sei que a única coisa que posso fazer é esperar.
Mas eu não posso negar o que está consumindo meus pensamentos. Yolanda. Aquelas palavras que eu mandei para ela... Não sei o que esperar. Não sei se ela vai finalmente responder, se vai me deixar para trás de uma vez por todas. Eu só sei que cada dia sem notícias dela é um peso a mais sobre meus ombros. Eu estou começando a acreditar que ela nunca vai me responder.
Com o cigarro entre os dedos, sem nem perceber que estou segurando ele por tanto tempo sem fumar. As cinzas começam a cair, queimando minha mão quando se acumulam demais. A dor repentina me traz de volta à realidade, mas não é suficiente para afastar o que me consome. As cinzas, assim como os meus pensamentos, se espalham sem controle, marcando minha mão e minha alma.
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Inefável
Fiksi PenggemarYolanda, uma garota fria com intenções quentes, carrega a lembrança de Tony, seu protetor e amor de infância. Juntos, prometeram ficar juntos quando crescessem, mas Tony desapareceu sem deixar rastros. Anos depois, Yolanda se envolve com Tom Kaulitz...
