Capítulo 42

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"Cada vez que ela está por perto, eu sinto que perco o controle. E isso me irrita."

Cheguei em casa tarde, depois de mais uma consulta com a Dra. Kristina. A idiota vivia repetindo as mesmas coisas de sempre: "Controle seu comportamento, você precisa ser mais gentil..." Besteira. Não ouvia metade do que ela falava. Só pensava que, naquele dia, meu pai ficaria ocupado na oficina e não iria atrás da Lenne. O jantar teria que ser na nossa mesa, com ele presente pela primeira vez em semanas. Isso deveria me fazer feliz. Mas não fazia.

Meu humor estava pior do que o costume. Tudo porque não iria ver Yolanda. Eu sempre a via quando ele encontrava Lenne, mentindo para a mamãe que estaria ocupado na oficina. E Yolanda estava lá, e isso fazia tudo valer a pena. Mas agora, com ele atolado no trabalho, eu estava preso aqui, sem nada que me animasse.

Lembrei da última vez que estivemos juntos. Estávamos tomando sorvete, e ela comentou, com aquele jeitinho hesitante dela, que fazia tempo que não comia nada doce porque a tia vivia proibindo.
Era um absurdo. Um crime. Ninguém deveria viver assim, sem pelo menos um docinho.

Foi aí que decidi: naquela noite, eu sairia para encontrar Yolanda e levaria algo doce para ela. Só precisava de dinheiro para isso. Não seria um problema. Já sabia exatamente onde pegar.

Esperei minha mãe ir para a cozinha antes de me levantar da cama e caminhar até o quarto dela. Entrei devagar, o chão rangendo levemente sob os meus pés. A bolsa estava no lugar de sempre, sobre a cadeira ao lado da penteadeira. Abri o zíper, os dedos ágeis, e puxei algumas notas que meu pai deixava ali. Não era a primeira vez que fazia isso, e, com certeza, não seria a última. Fechei a bolsa e voltei para o meu quarto, tão silencioso quanto vim.

Deitei e esperei a casa mergulhar na escuridão. Quando todas as luzes se apagaram e o silêncio absoluto tomou conta, eu soube que era o momento. Peguei meu casaco, destranquei a porta e saí.

As ruas estavam desertas, o vento frio batendo no meu rosto enquanto caminhava até o lugar que vendia churros. Era longe, mas não liguei. Peguei alguns e levei no saco de papel. O cheiro doce era quase irresistível, mas não toquei neles. Eram para ela.

O quarteirão onde Yolanda morava parecia assustador àquela hora da noite, mas não me importei. Subi na janela do quarto dela, que estava coberta apenas por aquela cortina fina, dançando com o vento. Entrei com cuidado, deixando o saco de churros sobre a escrivaninha antes de me sentar na cadeira.

Lá estava ela, dormindo profundamente, com a cabeça enterrada no travesseiro. O cabelo dela estava bagunçado, caindo sobre o rosto, e a tranquilidade na sua expressão me irritava. Como alguém podia dormir tão calmamente enquanto eu passava por tanto esforço por causa dela?

Peguei uma das pelúcias no chão e joguei nela. Acertou de leve o ombro. Ela resmungou, se mexeu e abriu os olhos devagar. Quando me viu, arregalou os olhos e abriu um sorriso grande.

- Tony! O que você está fazendo aqui?

- Trouxe uma coisa pra você - Respondi, levantando o saco de churros.

Ela se sentou na cama, olhando para o saco como se fosse algo perigoso.

- Não posso comer isso... Minha tia vai surtar. Ela diz que dá cárie.

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