Capítulo 79

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"Ele não precisa estar livre para me possuir, suas palavras são suficientes para me fazer sentir que sou dele, como se jamais tivesse deixado de ser."

YOLANDA

Constance colocou o envelope discretamente sobre a bancada da cozinha, seus olhos atentos enquanto me entregava. Eu segurei o papel com firmeza, tentando esconder a ansiedade que sentia em abrir aquilo.

— Constance, por favor, lembre-se: ninguém, exceto Cassandra, pode saber que estou recebendo essas cartas. — Minha voz saiu baixa, quase suplicante. — Principalmente Margareth. Ela não pode nem sonhar com isso.

Constance assentiu, seu olhar compreensivo e cúmplice fazendo com que eu me sentisse um pouco mais segura. Ela era a única pessoa além de Cassandra em quem eu podia confiar, mesmo com tantas restrições ao meu redor.

— Tudo bem, Yolanda — Ela disse, com um tom tranquilo. — Mas me diga uma coisa... Quem é esse príncipe encantado que manda essas cartas? Ele é assim tão maravilhoso? — Constance perguntou, o sorriso brincando nos lábios, mas com uma curiosidade genuína.

Eu não pude deixar de rir, mais pela ironia da situação do que qualquer outra coisa.

— Príncipe? — Balbuciei, quase rindo de desespero. — Ele é mais um príncipe trevoso do que qualquer outra coisa.

Constance riu baixo, o som suave quebrando a tensão que pairava entre nós.

— Ah, então ele deve ser um pequeno probleminha, hein? — Ela brincou, ainda com aquele sorriso cúmplice. — Mas, se Margareth não pode saber, ele deve ser... bem, vamos dizer, especial. Não que a senhora Margareth seja uma boa pessoa, mas enfim...

Eu balancei a cabeça, sentindo um peso no peito, e meu tom de voz ficou mais sério.

— Ele é as duas coisas, Constance. Um problema, e... especial. De um jeito que nem eu mesma consigo entender direito. Mas, a última coisa que eu quero é que Margareth saiba de algo. Ela faria qualquer coisa para me impedir de receber essas cartas.

Segurei a carta contra o peito e me preparei para subir. Mal dei dois passos em direção à escada quando Margareth surgiu no corredor, bloqueando meu caminho como uma sombra constante.

— Você está se alimentando direito? — Ela perguntou, cruzando os braços e me encarando com aquela expressão que só me fazia sentir ainda menor.

— Sim. — Minha resposta foi curta e direta.

— E as dores? Alguma coisa? — Ela estreitou os olhos, como se tentasse encontrar qualquer sinal de fraqueza em mim.

— Não. Estou bem. — Eu mantive o tom firme, evitando qualquer hesitação que ela pudesse usar contra mim.

Tentei passar por ela, mas sua voz me parou no mesmo instante.

— O que é isso?

— Convite da formatura — Menti, apertando o envelope ainda mais. — Mas não vou.

Antes que ela tivesse a chance de insistir em ver, saí rapidamente, subindo as escadas com passos apressados. Fechei a porta do quarto e tranquei-a. Meu coração estava acelerado, mas não era apenas pelo medo de Margareth.

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