Capítulo 43

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"Ele me fazia sentir como se minha alma fosse dele, como se eu fosse apenas uma extensão do corpo dele, e tudo o que eu sentia não era mais meu — era dele."

YOLANDA

Dei um longo suspiro antes de virar para a porta de entrada da casa. Meu coração já batia forte. Pisar o pé dentro daquele lugar sempre era como entrar em um campo minado. Assim que coloquei o primeiro pé para dentro, a voz grave e controlada do meu pai, Otto, me paralisou.

— Poderia ter avisado que não iria estar no colégio, querida.

Minha cabeça girou na direção dele, e lá estava ele, em pé no meio da sala. O terno impecável e a gravata frouxa denunciavam o longo dia que tinha tido, mas nada disso suavizava o olhar intenso que ele lançou para mim. Tentei pensar rápido, minhas mãos nervosas segurando a alça da bolsa como se fosse uma âncora.

— O motorista foi te buscar, mas você não estava. — Ele continuou, o tom calmo, mas carregado daquele tipo de autoridade que era mais sufocante do que gritos.

Eu sabia que não adiantava mentir. Ele sempre parecia saber mais do que eu queria contar. Ainda assim, busquei pelas palavras certas.

— Fui para a casa da Charlotte, minha antiga vizinha. — Minha voz soou mais baixa do que eu gostaria. — E pedi ao filho dela que me trouxesse de volta, porque o próximo ônibus era muito tarde.

Otto ergueu uma sobrancelha, seus olhos estreitando ligeiramente.

— Charlotte... claro. — Ele pausou, como se analisasse a validade da minha desculpa. Então, acrescentou: — Ainda assim, da próxima vez, avise. Não vou tolerar descuidos desse tipo. A maioria dos empresários com quem faço negócios já sabe que tenho uma filha. No sábado, haverá um evento importante, e quero que todos conheçam você. É hora de aparecer ao meu lado, como a filha do CEO das empresas Hoffman deve fazer.

Senti meu estômago revirar. Ele era meticuloso até nesse tipo de coisa. "A filha do CEO." Era assim que ele sempre me via — como uma extensão do nome dele, do poder dele, nunca como apenas Yolanda. Meu corpo ficou tenso enquanto ele continuava.

— Só que... — Ele deu um passo mais próximo, os olhos avaliadores deslizando em direção à porta pela qual eu havia acabado de entrar. — Não é apropriado que a filha de alguém como eu seja vista em público com um garoto como aquele.

Engoli seco. "Um garoto como aquele." A escolha das palavras foi certeira, cada sílaba carregada de desprezo. Ele não precisava dizer diretamente, mas era óbvio que estava se referindo a Tom.

— Um marginal, Yolanda. É isso que ele parece. E, para deixar claro, pessoas como ele não são boas para a imagem de alguém com seu sobrenome. Um dia, espero que entenda que você precisa estar ao lado de alguém importante, alguém que acrescente ao nome que carrega, não que o manche.

As palavras dele se queimaram como uma faca. Apertei ainda mais a alça da bolsa, os dedos ficando brancos. Tentei me controlar, mantendo os ombros eretos e o rosto neutro, mesmo que o sangue estivesse fervendo dentro de mim.

— Claro, pai. — Foi tudo o que consegui dizer, a voz quase tremendo.

— Ótimo. Agora, vá descansar. Temos muito a fazer nos próximos dias. Quero que esteja impecável para o evento. — Ele virou de costas, indo em direção ao escritório, mas não antes de lançar um último olhar que parecia cortar mais do que qualquer fala.

— Pai é o caralho, otário de merda — Murmurei entre os dentes enquanto subia as escadas, a frase ecoando amarga contra o silêncio da casa. Segurei o corrimão com força, tentando despejar ali o incômodo que pesava no meu peito. Cada palavra dele ainda queimava. “Marginal.” O jeito que ele falou de Tom.

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