O sol brilhava forte naquele domingo, e o jardim estava coberto de cores. Balões em formato de coração, uma mesa enorme cheia de doces, brinquedos espalhados e uma musiquinha infantil tocando ao fundo. Era o aniversário de dois anos da minha filha, e eu queria que fosse um dia perfeito. - o tipo de lembrança que ela guardaria nas fotos e nos sorrisos.
Os meus pais estavam animadíssimos, o Fer tirava fotos de tudo e eu, claro, não conseguia desgrudar o olhar dela: Letícia correndo com o vestidinho rosa claro, os cachinhos balançando, o sorriso que iluminava qualquer lugar.
Mas é claro que teria que acontecer alguma coisa para estragar.
Ouvi murmúrios perto do portão, e quando olhei, vi Maria - a mãe biologica de Letícial -arada ali.
O ar pareceu sumir por um segundo. Ela não tinha sido convidada - e com razão. Eu sabia que a presença dela poderia causar confusão, e foi exatamente o que aconteceu.
Ela entrou sem permissão, com um sorriso falso nos lábios.
- Nossa, que linda a festa da minha filha. - É a primeira coisa que Maria diz quando me ver.
As pessoas em volta se entreolharam. Eu respirei fundo e caminhei até ela, tentando manter a calma.
- O que você está fazendo aqui? Eu deixei bem claro que não era pra aparecer. - digo e ela cruzou os braços, com um olhar provocador.
- Eu tenho o direito de ver a minha filha. Você não pode me impedir, Pedro.
- Direito? Depois de tudo o que fez? Depois de abandoná-la sem olhar pra trás? - Me estresso enquanto falo.
- Eu tinha meus motivos! E você não é ninguém pra me julgar. Tá achando que porque tem dinheiro e fama pode ser pai e mãe ao mesmo tempo? - Aquilo me acertou em cheio, mas não deixei transparecer.
- Não se trata de dinheiro. Se trata de amor, de presença. Coisas que você nunca deu pra ela. - Ela riu, um riso seco e irritante.
- Você quer me pintar como a vilã, mas no fundo sabe que ela é minha filha. Você pode fingir o quanto quiser, mas o sangue dela é o meu.
- Sangue não cria, entende isso de uma vez! - meu tom subiu sem querer eu percebesse. - Quem acorda de madrugada quando ela tem pesadelo? Quem leva ela ao médico? quem canta pra ela dormir? Sou eu! Eu sou o pai dela, e você... você perdeu esse direito há muito tempo.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar endurecido, antes de dar um passo pra trás.
- Você vai se arrepender de me tirar da vida dela.
- Não. Eu me arrependeria se deixasse você estragar o que construímos.
Antes que dissesse mais alguma coisa, fiz sinal para que a segurança a acompanhasse até o portão. Ela ainda lançou um último olhar de raiva antes de desaparecer.
Quando me virei, vi Letícia parada, segurando um balão, com os olhinhos marejados. Ajoelhei-me imediatamente.
- Ei, meu amor... nada de chorar, tá? O papai tá aqui."
- A moça tava brigando com você? - Ela diz fungando.
- Não se preocupa com isso, princesa. O importante é que o papai te ama, e nada vai mudar isso.
Ela me abraçou com força, e naquele instante o mundo inteiro ficou em silêncio.
Mais tarde, já com a festa tranquila, sentamos no chão pra abrir os presentes.
Letícia rasgava o papel com empolgação, mostrando cada brinquedo pra mim.
- Olha, papai! Um ursinho!
- Que lindo, meu amor. Olha, ele parece com você. - Coloco o urso do lado de seu rosto.
Ela riu, me abraçou e encostou a cabecinha no meu ombro.
E foi ali, entre fitas, papéis coloridos e aquele cheirinho doce de bolo, que eu percebi que o amor verdadeiro não precisa de laços de sangue. Letícia era minha filha. E nada - nem ninguém - poderia mudar isso. ____________________________________________
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