O relógio marcava 03:17 da manhã. Eu já não lembrava a última vez que tinha dormido mais de duas horas seguidas, mas ali estava eu... em pé no meio do quarto, com a Letícia no colo, andando de um lado pro outro como se fosse um ritual sagrado.
- Shhh... shhh... tá tudo bem, meu amor... - eu sussurrava, mesmo sabendo que ela não entendia nada. Mas eu falava. Porque falar com ela me acalmava.
A Letícia tava vermelhinha, com o rostinho todo contraído, chorando daquele jeitinho que parte o coração. Ele tava com cólica. De novo.
Eu encostei a testa na dela por um segundo, fechando os olhos.
- Calma, princesa... já vai passar. - falei baixinho.
Ela se mexeu nos meus braços, chorando mais forte, e eu senti o peito apertar. Nunca imaginei que fosse doer tanto ver alguém tão pequeno sofrer.
Ajeitei ela com cuidado, barriga com barriga, como a médica tinha ensinado, e comecei a andar pela casa devagar, balançando de leve.
- Papai tá aqui... - murmurei - não vou sair, prometo...
A casa tava em silêncio. Luz baixa. Todo mundo dormindo. Menos eu e ela. E, sinceramente? Eu nem ligava de ter que ficar acordado.
Eu passava a mãozinha dela pelo meu dedo, e ela segurava com aquela força minúscula, como se dependesse disso pra viver.
Ela deu um chorinho mais manhoso, e eu automaticamente colei ela mais no peito.
- Eu sei, eu sei... tá doendo... - falei, quase em súplica - aguenta só mais um pouquinho, tá? Papai tá aqui...
Andei até a janela, olhando a cidade lá embaixo, tudo quieto, tudo escuro... e eu ali, com a minha maior vitória no colo.
- Você sabe que eu nunca fui bom com isso... - confessei baixinho - futebol eu sei... agora ser pai... eu tô aprendendo com você.
Ela se mexeu, chorando mais baixo, e eu senti um alívio instantâneo.
Beijei a cabecinha dela com cuidado, sentindo aquele cheirinho de bebê que dá vontade de chorar.
- Eu prometo que vou te proteger... - minha voz falhou - de tudo... de todo mundo... até de mim, se precisar...
Ela abriu a boquinha, fez um biquinho e chorou fraquinho, quase como um resmungo. Eu sorri cansado.
- É... eu sei... a vida já começou difícil, né? - murmurei - mas eu tô aqui, filha... sempre vou estar...
Sentei no sofá, ainda balançando ela, e comecei a cantar bem baixinho, mesmo desafinado:
- Tá... isso tá horrível, mas você finge que é bonito, tá?
Ela finalmente começou a se acalmar, os olhinhos fechando devagar, a respiração ficando mais tranquila. Eu quase não me mexi. Nem respirei direito.
Quando percebi que ela tinha pegado no sono, senti os olhos arderem. Porque era cansativo. Era difícil. Era assustador.
Mas era a coisa mais linda que já tinha acontecido comigo.
Apertei ela de leve contra o peito e fechei os olhos por um segundo.
- Eu te amo, minha pequena... - falei baixinho - Mais do que qualquer gol... mais do que qualquer título... mais do que tudo...
E ali, com ela dormindo no meu colo, cólica esquecida por alguns minutos... eu tive certeza de uma coisa: eu podia até não ser perfeito, mas como pai... eu ia dar tudo de mim. ____________________________________________
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.