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• Filha. Pt2. • Pablo Martins Gavira. •Leticia_jp25 ____________________________________________
PABLO GAVI.
Já fazia uma semana desde que Letícia apareceu na minha porta. Uma semana desde que descobri que tinha uma filha.
E, pra ser sincero, ainda parecia um sonho confuso, desses que te deixam entre a culpa e a vontade de recomeçar.
Ela estava dormindo no quarto de hóspedes, que agora já era o quarto dela. Tinha colocado umas fotos, uns livros, e até um pôster enorme na parede. Uns que eu até gostei.
Eu ficava parado na porta, só observando, tentando entender como alguém que eu não conhecia podia carregar tanto de mim.
Na primeira manhã juntos, o silêncio reinava. Eu fazia café, e ela mexia no celular.
- Você gosta de panqueca? Eu posso tentar fazer. - Digo tentando quebrar o gelo.
- Tentar? - Ela diz com um meio sorriso.
- É... faz tempo que não cozinho pra alguém.
Ela riu. A primeira risada dela comigo. E naquele instante, soube que aquele som seria um dos meus preferidos.
Começamos a conversar aos poucos. Ela me contou que gostava de música, que desenhava nas horas vagas, e que morava com um amigo da mãe - O mesmo que a trouxe aqui. - desde que... desde que tudo aconteceu.
Ouvir isso doeu. Doeu por eu não estar lá. Por não ter visto ela crescer, nem ter sido o ombro que ela precisava.
Mas ela não parecia guardar raiva. Só uma curiosidade, como quem tenta montar um quebra-cabeça do passado.
-Você gostava da minha mãe? - perguntou um dia, baixinho.
Eu respirei fundo antes de responder: - Eu amava ela. Ela foi... a pessoa que me ensinou o que era amor de verdade. Mas acabou que o nosso relacionamento não foi pra frente.
Letícia sorriu, com os olhos marejados. - Marcos falou pra mim, que ela vivia falando de você. Disse que, mesmo separados, vocês não se largavam.
[...]
Nos dias seguintes, fomos nos aproximando. Levei ela para conhecer meu pai e agora estou levando ela pra conhecer o centro de treinamento.
Os olhos dela brilhavam vendo o campo.
- Então é aqui que você passa o dia todo? - Ela disse com um sorriso enorme.
- É. Mas, quando quiser, posso te trazer aqui mais vezes.
- Sério? - Não sei como, mas o sorriso no rosto conseguiu ficar maior ainda. Me fazendo perceber o mesmo sorriso que a mãe dela tinha.
- Claro. Agora eu tenho a melhor razão do mundo pra querer voltar logo pra casa.
[...]
E naquela noite, quando ela adormeceu no sofá assistindo filme, eu olhei pra ela e pensei que, talvez, a vida tivesse me dado uma segunda chance.
Não pra apagar o passado, mas pra começar um capítulo novo. - com ela, minha filha, meu pedaço de amor perdido que o destino decidiu me devolver.
[...]
Já fazia um mês desde que Letícia apareceu na minha vida - e, honestamente, já não conseguia imaginar meus dias sem ela.
A casa, antes silenciosa, agora era cheia de barulhos: o som do secador de cabelo, risadas aleatórias e, às vezes, o grito dela porque eu "quase queimei o almoço" - sendo que era só um ovo.
Ela já estava morando comigo oficialmente. O quarto dela estava todo decorado: luzes piscando, desenhos colados na parede e um urso de pelúcia que ela jurava que "era da infância" - mesmo parecendo novo em folha.
Hoje vou levar Letícia pra conhecer o meus amigos.
No caminho até o CT ela mexia nas unhas, nervosa.
- E se eles não gostarem de mim?
- Letícia, por favor. Você é impossível de não gostar. - Ela solta um risada, meio sem graça.
- Você fala isso porque é meu pai.
- Exatamente. E, por isso mesmo, eu tô sempre certo.
Quando chegamos, o pessoal ficou em choque.
"Mano... você tem uma filha?" Foi a frase que eu mais escutei nesse hoje.
Logo todos começaram a conversar com ela. Ferran elogiou o cabelo, De Jong perguntou se ela gostava de futebol, e até o técnico veio dar boas-vindas.
Ela, no começo tímida, acabou conquistando todo mundo com o jeitinho dela.
Quando fomos embora, ela me olhou com aquele sorriso que já tava começando a desmontar qualquer defesa minha.
- Eles são legais. Eu gostei deles.
- E eu falei que eles iam gostar de você.
No carro, o rádio tocava uma música suave, e ela encostou a cabeça no banco.
- Sabe, pai... às vezes eu penso em como seria se eu tivesse te conhecido antes.
- Eu também, mas, de um jeito estranho, acho que o tempo esperou a hora certa."
Talvez o destino tivesse demorado, mas agora... eu estava ali. Pra tudo. Pra risadas, conselhos, choros e abraços.
Quando chegamos em casa, ela olhou pra mim e disse:
- Pai, posso te perguntar uma coisa?
- Pode.
- Você ainda sabe fazer panquecas? - Eu ri.
- Depende. Quer testar minhas habilidades amanhã?
- Só se eu puder ajudar.
E, pela primeira vez, percebi que não era mais só sobre descobrir que eu tinha uma filha. Era sobre aprender a ser pai, e entender que às vezes, o amor mais forte nasce exatamente das histórias que quase não aconteceram. ____________________________________________
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