A chuva batia na janela como um lembrete irritante de que eu não queria sair de casa hoje. Todo dia assim, eu ficava nessa de "treino ou não treino"
Eu andava de um lado pro outro segurando minha xícara de café vazia - nem percebi que já tinha bebido tudo. Antonella - minha menina - estava no sofá, encolhidinha no cobertor rosa que já devia ter uns bons anos de uso.
Toda vez que ela abraçava aquele cobertor era sinal de que estava manhosa. E isso sempre me desmonta.
- Pai... - A voz dela saiu baixa, me fazendo virar para olha-lá.
- O que foi, minha princesa?
A expressão dela me matava. Aqueles olhos grandes, cheios de medo do que podia acontecer comigo. Antonella era assim, sempre que era dia de chuva e eu tinha que treinar, ela ficava preocupada.
- Você vai mesmo hoje? Com chuva? - Ela perguntou, segurando o cobertor como se ele fosse proteger ela do mundo.
- Tenho que ir, meu amor. Mas volto antes de escurecer. Prometo. - Eu me ajoelhei ao lado do sofá e passei a mão no cabelo dela, tirando uma mecha do rosto.
Ela fez bico. O bico que sempre me dá vontade de dizer "tá bom, não vou". Mas eu também preciso manter a rotina. E quero que ela cresça vendo que responsabilidade importa. Mesmo assim... quando ela faz aquele bico, tudo dentro de mim desmonta.
- Mas e se você escorregar? Se ficar doente? E se... - Antes que ela começasse a imaginar tragédias, puxei ela para o meu colo.
- Ei, olha pra mim. - pedi, levantando o queixo dela com o dedo. Quando ela me olha, eu esqueço de tudo. Problemas, treino, chuva... o mundo some.
- Nada vai acontecer comigo, amor. E sabe por quê? - Ela piscou, esperando - Porque eu preciso voltar pra cuidar da menina mais importante da minha vida.
O jeito que ela me abraçou depois disso... É nesses momentos que eu penso que ser pai é o melhor e o pior sentimento do mundo.
Melhor, porque eu a amo mais do que tudo. Pior, porque eu nunca quero decepcioná-la.
Eu a levantei um pouco mais e fiz ela rir um pouco, só pra tirar aquela preocupação do rosto.
- nossa, como você tá grande. Já dá pra usar de peso no treino. - Faço uma graça.
- Paraa. - Ela ri. Quando a ouvi rir, meu peito aliviou. Sempre alivia.
Antes de sair, tirei o colar do bolso.
Eu tinha comprado fazia semanas, mas ainda não tinha encontrado o momento certo. Hoje parecia o dia perfeito.
- É pra você, filha. Pra lembrar de mim quando eu estiver fora. - Coloquei devagar no pescoço dela e ajeitei o pingente de estrela.
Beijei a cabeça dela e fiquei mais alguns segundos com os lábios ali, respirando fundo.
- Te amo, princesa. - Ela segurou minha mão.
- É pra voltar rápido, papai. - Eu sorri. Eu sempre volto. Sempre.
Porque não existe nenhum lugar no mundo onde eu queira estar mais do que ao lado dela. ____________________________________________
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.