Ter uma filha brasileira de três anos parecia algo simples... até ela abrir a boca pela primeira vez e eu perceber que o português é mais difícil do que qualquer treino que eu já fiz na vida.
Desde o dia em que ela chegou pra morar comigo, a casa nunca mais foi a mesma. Antes era silenciosa, organizada e chata
Agora, tenho brinquedos em todos os cantos, desenhos colados na parede e uma criaturinha de cabelo cacheado e voz fininha gritando meu nome o tempo todo. E pra piorar, em português.
Eu nao entendo metade do que ela fala, e olha que ela fala muito. Eu deve entender uns 30% de tudo que ela fala.
- Papaiii, cadê meu suquinho de uvaaa? - Escuto ela gritando e descendo as escadas.
"Suquinho." Essa palavra me persegue. No começo, eu achava que era algum apelido carinhoso ou um nome de alguma boneca dela. Até que ela apareceu com uma caixinha de suco na mão e explicou como se estivesse dando aula:
- Olha, papai, suquinho é aquela garrafinha do suco roxo, entendeu? - Eu balancei a cabeça fingindo que sim... mas não entendi nada.
Tipo, eu já entendi que tudo que ela fala com "inho" é alguma coisa pequena.
Ela fala português tão rápido que parece um trovão colorido. E quando tento responder, misturo português com inglês e até tento um espanhol pra ver se melhora. Sem contar os gestos de desespero que eu faço, parecendo que eu tô brincando de mímica.
Outro dia, tentei preparar o almoço pra nós dois. Ela pediu "arroz com feijão". Simples, certo? Errado. Eu entendi que "feijão" fosse um tipo de pão. Então fiz um sanduíche e coloquei arroz do lado, mesmo achando isso estranho.
Sei lá, né. Vai que é isso que comem no Brasil.
Ela olhou o prato, fez aquela carinha de quem nao está entendo nada, e disse com um tom dramático:
- Papai... o que é isso? - Ela diz mechendo na comida.
- Comida, filha. Arroz e o pão que vc pediu. - Digo como se fosse óbvio..
- Pão? Não, papai. Eu pedi feijão, aquele pretinho que a mamãe faz!
E lá fui eu assistir a um vídeo no YouTube pra aprender o que é feijão.
À noite, quando tento redimir meus erros, ela sempre pede:
- Conta a história do porquinho, papai! - Eu achei uma missão super fácil, e fui lá pegar o livro.
- Beleza, a do sapo, né? - Digo já com o livro na mão.
- Nããão! Eu quero o dos três porquinhos, pai. - Ela diz e começa a rir de mim.
E eu fico ali, olhando pra ela e pensando que eu preciso aprender português urgente, por que eu não entendi nada do que ela falou agora.
Pra tentar acompanhar, comecei a estudar português escondido. Tenho um caderninho com as palavras que ela mais usa."Suquinho", "bagunça", "papai", "bobo" - essa ela usa bastante comigo.
Às vezes, vejo desenhos infantis pra aprender mais.
Já sei cantar metade das músicas do "Mundo Bita" e da "Galinha Pintadinha".
Esses dias mesmo a gente tava dançando e cantando essas músicas.
- Papai, você é muito engraçado. - Ela diz rindo horrores, só por que eu tava cantando meio atrapalhado.
- Engraçado é bom? - perguntei.
- É sim! Quer dizer que você é legal.
Agora eu entendo.
No fundo, mesmo com todos os tropeços no idioma, a gente se entende no que importa. Quando ela me abraça, quando me chama pra brincar, ou quando sussurra baixinho antes de dormir:
- Boa noite, papai. - E eu, com meu português ainda torto, respondo:
- Boa noite também, Brasileirinha.
E ela ri, porque diz que eu falo tudo errado. Mas, pelo menos, ela acha engraçado e eu consigo tirar um risada dela. ____________________________________________
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