S E G U I R E M F R E N T E

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New York nunca esteve tão fria. Eu sentia meus lábios congelarem. O inverno sempre fora minha estação favorita, mas agora já estava a ponto de fazer uma fogueira alí mesmo.

— Mais alguma coisa?
— Não, Obrigada.  — Segurei com uma mão a enorme xícara e dei um leve gole.

A atendente da cafeteria virou-se as costas e eu voltei a atenção ao livro.

Já se faziam duas semanas desde o enterro. Exatamente quinze dias encarando o fato de nunca mais poder tocá-lo. Teria sido mais difícil se não houvesse a carta, se eu ainda me sentisse culpada, contudo, me sentia bem. O café tinha o mesmo gosto e os livros continuavam interessantes.

Eu não podia ficar dentro do meu quarto pra sempre, me odiando e desejando que tudo fosse diferente, se aconteceu eu tinha que encarar isso, e tinha que ser forte, seguir em frente pois estava escrito, era o que ele queria.

Eu sentia falta dele todos os dias, isso não tinha como negar, mas era uma saudade diferente, ele parecia estar comigo a todo instante, eu podia sentir. Às vezes, no telhado até falava com ele, e imaginava a resposta.

Eu não voltei a escola depois do baile. Eu não estava afim, e, seria demais pra mim. Pretendi não voltar, eu decidi que já sabia o suficiente. Não queria milhões de adolescentes me olhando e eu tendo que aturar o casal do ano a manhã toda.

Terminei o café, deixei o dinheiro em cima da mesa e saí. Andei pelas frias ruas de Manhattan, apertando a jaqueta para que vento algum pudesse entrar. Imaginei o quão útil seria aqueles jaleco que eu via em outras mulheres que passavam por mim.

Eu olhava a neve caindo, com tanta paixão. Qualquer um que me visse naquele instante apostaria que era minha primeira vez no país. Meus pensamentos sobre Pieter se distanciaram e eu comecei pensar no Lowis.

Eu sabia que não podia, sabia que a essa altura eu deveria odiá-lo e nem cogitar ficar pensando em nós, mas era inevitável. Os pensamentos sobre o que tínhamos sido e agora não poderíamos ser, ainda me machucava, eu só não podia alimentar essa dor.

***

Cheguei em casa e não havia ninguém. Lembrei que meu pai provavelmente ainda estaria no trabalho, e Jenna, com certeza no shopping gastando atoa.

Foi questão de minutos depois que me joguei no sofá, a campainha tocou.

— Você? — Abri a porta e vi Lowis parado à minha frente. Parecia uma miragem mas era real demais pra isso.

Por um segundo pensei que talvez ele estivesse me seguindo mas seu semblante estava estranho demais. Notei até seus olhos vermelhos.

— Oi, Carrie, posso entrar?
—  Não. — Falei sem expressão.

Acha que esse joguinho de aparecer na porta da ex chorando funciona comigo?
— Pensei, mas achei melhor não dizer.

— Eu tenho que falar com você.
— Pelo contrário. Não temos nada pra conversar.
– Está muito frio aqui, posso entrar por favor? — Ele deu um passo para dentro de casa.
— Já entrou.

Acompanhei ele até o sofá.

— O que foi?
— É a minha mãe.

Ele segurou o choro, porque eu sabia exatamente que se fosse meses atrás eu o abraçaria e ele iria chorar feito criança.

— Como ela está?
— Nada bem, ela quer ver você.
— Eu? — Levei o dedo indicador até o meu peito e perguntei incrédula. — Por que eu?
— Eu não sei. Estávamos todos nos despedindo, o médico disse que...
— Ele respirou fundo depois continuou: —Que ela tem poucas horas.
— Meu Deus.
— Ela não pode morrer Carrie. — Ele levou as duas mãos no rosto e desabou.

Eu não sabia o que dizer, até mesmo o que fazer. Eu o odiava por tudo, mas ver ele naquela situação encheu meu coração de dó, afinal, ninguém merece a dor da perda.

— Você é forte. — Foi só o que eu consegui dizer.

Depois de uns minutos ele limpou o rosto e pediu que eu o acompanhasse.

— Obrigada, eu pego um táxi.
— Não é hora pra orgulho, minha mãe está morrendo droga, será que você não vê que suas marras precisam de uma pausa em algumas ocasiões?

Minha garganta deu um nó. Todos os xingamentos do mundo passou pela minha cabeça, mas eu manti o silêncio e respeitei a tristeza e todo o dia ruim que ele estava tendo.

Entrei no lado do carona, notei que dessa vez ele não estava com nenhum motorista, e entrando no carro também, se direcionou para sua casa. Eu sempre soube cada rua até o Empire, então, era só aceitar o fato de que ele morava lá.

A enorme porta da garagem se abriu por um segurança de terno, e agora sem óculos escuros, devido o clima, e o carro andou mais uns metros até o elevador.

— Obrigado por vir, vai significar muito pra ela. Pra mim também.

Assenti e entramos.

A velocidade do elevador me deixou desconfortável. Eu e ele em um lugar tão pequeno, tão perto depois de tanto tempo, tanta briga, tanta coisa vivida. Ele alí, cheio de magoas e uma certeza de despedida e eu quase na mesma, carregando uma enorme saudade e tentativas de seguir em frente. Apesar de saber essas coisas, nós dois quietos, olhando de um lado para outro, nunca nos olhos do outro, estávamos mais pra dois desconhecidos.

Minhas MarésOnde histórias criam vida. Descubra agora