Eu continuei sem ir pra escola na semana seguinte. Meu pai tentava me manter sempre alegre, eu não podia passar por ele na sala vendo tv ou na cozinha fazendo panquecas, que já tentava mudar meu humor, e sim, sempre falhava.
Eu ainda estava triste e com a mesma expressão de sempre, ódio e rancor.
Por minha sorte ele e Jenna não tocaram no assunto "suicidar-se", eles provavelmente consultaram alguns médicos especialistas na área mas não chegaram a me dizer nada sobre. Ele felizmente estava respeitando o meu pedido de deixar eu fazer minhas escolhas e só, mas o lado exaustivo disso era que me tratavam como uma criança insegura.
Deixava dinheiro no meu criado mudo, fazia gelatina e escrevia no potinho "Carrie" pra ninguém pegar, porque era MEU.
Mas isso não me deixava feliz, pelo contrário, me fazia entender que eles agiam assim por obrigação, e eu não me importava mais.
É claro que se isso fosse há anos atrás ficaria realizada, mas depois de toda desordem querer jogar a bagunça debaixo do tapete só deixa pior.
Uma semana depois da confusão no bar, eu desculpei Clair por ter ido falar com Lowis e agir daquela maneira, mas nossas conversas eram poucas, até porque ela vinha na minha casa e ficava vendo Netflix com meu irmão, até enjoarem e depois irem passear sei lá pra onde.
Quanto ao Lowis, eu ainda pensava nele, isso era óbvio, mas fazia dias que não nos víamos e isso era mais confortável pra mim.
Até que uma bela noite, eu fui ver o Pieter, e Lowis estava no túmulo da sua mãe, chorando.
Não sei porque dizem que homem não chora porque de longe, ele me parecia a pessoa mais sensível que já conheci.
Como de costume, fazia cinco graus em NY. Eu coloquei as mãos no bolso no meu moletom, e fui até um banco, ainda com as rosas nas mãos, e sem falar com Pieter. Eu só fiquei observando Lowis, e me perguntando se ele já teria me visto.
Até no momento não, mas minutos depois seu olhar me alcançou. Ele secou as lágrimas, arrumou o cabelo com a mão direita e veio até mim.
— Você por aqui, a essa hora. — Ele sentou do meu lado, dando pra parecer que ele estava meio sem saber se me cumprimentava com aperto de mão ou só permanecia da mesma maneira.
— É, gosto de vim a noite, o cemitério fica quase vazio.
— E você não tem medo?
— Medo? não. Inveja. — Eu sorri.
— Ele balançou a cabeça com negação. — Às vezes eu tenho.
— Inveja?
— Claro que não. — Ele fez um careta. — Medo.
— Ah.
— São lindas. — Ele apontou para o buquê em minhas mãos.
— São as flores preferidas de Pieter, rosas vermelhas.
— Pieter, hein?
— É.
— Você gostava mesmo dele, está sempre aqui.
— Sim, ele era... diferente.
— Como assim, diferente?
— Eu não sei, eu gostava de estar com ele.
— Tá legal, agora estou com ciúmes. — Lowis passou uma mão na outra se aquecendo do frio.
— Não teria ciúmes se soubesse o que ele disse pra mim, sobre você, sobre nós.
— Oh, ele disse algo sobre mim? sobre... eu e você?
— Disse. Ele queria que eu te perdoasse.
— Lowis ficou em silêncio por uns longos segundos. — E você acha que ele está certo? — Disse por fim.
— Não sei.
— O que mais ele disse?
— Coisas boas. E gentis.
— Então ele era meio que, seu ponto de paz. — Lowis afirmou com semblante triste.
— Creio que ainda seja.
— Mas foram só, uns dias que ficaram juntos. — Ele analisou.
— Parece pouco pra você que seguia sua vida aqui fora, normalmente.
— Desculpa. Você tem razão.
Fizemos um longo silêncio até que eu o quebrei:
— Lowis?
— Oi? — Ele se virou pra mim, olhando dentro dos meus olhos, concentrado no que eu ia dizer.
— Eu também não queria que as coisas terminassem assim. — Desviei meu olhar.
— Ele pegou na minha mão. — O fim será só quando eu desistir de você.
— E você acha que tem forças o suficiente pra me convencer de que temos um futuro juntos, depois de tudo isso que fizemos um ao outro?
— Talvez. Na verdade não sei exatamente, mas eu vou lutar pra que você acredite em nós, no nosso amor verdadeiro.
— Amor verdadeiro? — Suspirei. — Você acredita mesmo nisso?
— Olhando pra você agora, nunca tive tanta certeza.
Eu fiquei um pouco tímida, mas feliz. Era uma mistura de raiva com amor, era um sentimento inexplicável. Eu não sabia se mandava ele sumir da minha frente, depois de ter causado aquela baixaria no bar, não só no bar mas em toda mais vida, e ainda e querer mandar em mim, ou se beijava ele por ser o cara que eu ainda permanecia completamente apaixonada.
— Ok. — Foi só o que consegui dizer.
— Ok?
— O que?
— Eu digo que vou lutar por nós, e que eu tenho certeza de que eu te amo e você diz só ok?
— O que você quer que eu diga?
— Que também pensa em mim, que estava torcendo pra eu lutasse por você e que não consegue mais viver tão distante assim.
— Ah.
— Ah Carrie? ah? Ok já entendi. — Ele se levantou.
— Eu não consigo dizer mais nada. — Me levantei também.
— Não precisa, seu silêncio já fala demais.
— Ele saiu em passos rápidos. E eu permaneci em pé, vendo ele mais uma vez se distanciar, e sem saber se ele voltaria a me procurar, o meu me deixou ressentida.
Quis gritar pra ele esperar e correr até ele, mas não consegui. Observei a escuridão e caminhei até o túmulo do Pieter, com o coração acelerado.
Cheirei as rosas e a depositei no local.
— Oi. Acho que você escutou tudo né? você viu como ele é complicado? — Respirei um pouco mais devagar. — Tá legal, talvez eu seja mais complicada ainda, mas tudo isso me deixa perdida. Eu o amo, disso eu tenho certeza, mas eu não consigo aceitar que o amor pode me deixar tão vulnerável assim.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Minhas Marés
Romance[COMPLETO] Com uma vida fora dos trilhos, Carrie entra em depressão. A falta do carinho dos pais afeta sua rotina, mas quando conhece Lowis e se apaixona mais rápido do que imaginou, enxerga a felicidade perto. Contudo, quando a doença começa causa...
