— Não vai me deixar entrar?
— São dez da manhã, você deveria ir pra casa. A essa altura meu pai já está desejando fazer picadinhos de você.
— Mas você me prometeu mostrar o seu lugar confortável no telhado lembra?
Quem é você pra me falar sobre promessas? — Quis falar.
— Eu costumo ir a noite. Não tenho biquíni.
— Biquíni?
— Com o sol que está fazendo lá fora, ir para o telhado seria um opção de bronzeamento.
— Tá legal, te vejo a noite.
— Espera, não disse que poderia vir.
— Tenha um ótimo dia senhorita Hughes.
— Ele disse ironicamente e com um sorriso gentil. Saindo da porta desceu as escadas de pressa, despediu do meu pai com acenos e partiu.
Vesti uma roupa mais descente e fui para cozinha comer alguma coisa.
— O que está havendo entre você e esse cara? vocês passaram tantos dias sem se ver, e agora, o que é isso?
— Isso o que? — Olhei de soslaio e perguntei de boca cheia.
— Estão tendo algo? — meu pai sentou em uma cadeira na minha frente. Eu estava na mesa comendo waffles.
— Não! lógico que não. — Eu disse rápido. — Somos só amigos, nem isso, aliás.
— Você dormiu com ele?
— Pai! — Repreendi. — Não!...Quer dizer, sim. Mas não, só dormimos.
— Está me deixando confuso.
— Eu estava bêbada no halloween ele me levou para o apartamento dele e...
— Quer dizer que não se lembra de nada? ele pode ter aproveitado de você, fique longe desse menino.
— Fiz uma careta. — Não diz um absurdo desses.
— Está defendendo ele?
— Não pai, eu não estou do lado de ninguém, nem contra ninguém, só vamos parar de falar nisso, ok?
— Me promete que vai parar de ver ele?
— Olha só, dá pra parar de se intrometer na minha vida? — Eu disse por impulso, colocando as duas mãos na mesa.
— Carrie, eu sou seu pai.
— Preferia que não fosse. — Falei baixo.
Ele escutou. Percebi pela expressão no rosto dele de um coração partido, eu conhecia muito bem o olhar de uma pessoa perdida.
Foi então que percebi que todos meus esforços para ser uma pessoa melhor foram em vão. Eu continuava amarga, e o veneno estava cada vez mais penetrando na minha alma.
— Eu sei Oliver. — Continuei enquanto ele permanecia em silêncio olhando para um ponto fixo na parede. — Lowis me contou do seu sistema de proteção, e quer saber? não ajudou em nada! — Falei mais alto. — Você me mandou pra porcaria daquele lugar sem se importar com que eu iria sentir longe de tudo que eu importava, e ainda proíbe ele de me ver, que nobre da sua parte! estou impressionada com seu amor paternal.
— Agora eu já chorava e ele estava assustado. Jenna veio da lavanderia e olhou para nós, como se quisesse impedir o que estava por vir.
— Eu te mandei para aquela droga porque eu me importo com você, porque você é minha filha e eu te amo. Eu já perdi a sua mãe, eu não pretendo perder você, eu só tentei ajudar. — Ele falou chorando.
— Quer mesmo ajudar? fique fora das minhas escolhas. — Eu falei por fim e saí.
Subi para o quarto e me joguei na cama. Afundei meu rosto no travesseiro e deixei que as lágrimas vinhessem.
Eu percebi que minha rotina continuava ridiculamente tosca. Àquela hora do dia, e eu já em prantos, era como se eu tivesse pagando por um pecado feito em outras dez vidas passadas.
Naquela manhã joguei tudo pro ar pela décima vez.
Que se dane nova Carrie, pensei.
Fiquei deitada ouvindo música até as duas da tarde. Eu não tinha conseguido comer no almoço mas já estava na hora de ver o Pieter, imaginei que entraria em alguma lanchonete nem que fosse para comprar uma água.
Peguei um taxi até um parque mais próximo do cemitério e continuei o caminho apé.
— Oi.
Me sentei na grama, passando mão de leve no túmulo. — Droga! esqueci suas rosas. — Dei uma risada, imaginado que ele iria rir.— Amanhã eu trago a mais.
Eu fazia um breve silêncio.
— Briguei com meu pai hoje, é horrível sabe? não ter nem o apoio das únicas pessoas que todo mundo conta, a família. Eu não sei mais o que é isso. Você me entende não é? eu prometo socar seus irmãos se um dia ver eles. Nunca deveriam ter abandonado você. Você é o tipo de pessoa que não merecia ser abandonado, nunca.
Peguei umas folhas na mão que voavam de um lado para o outro e comecei despedaçá-las. — Eu fui para uma festa ontem. De halloween. Minha maquiagem estava ótima, até eu beber e estragar tudo.
— Ri outra vez. — Por que eu sou assim, me diz? porque a minha capacidade de estragar tudo é tão forte assim?
— Respirei fundo. — Lowis estava lá com a Katy. Katy é a namorada dele. Ele ficou bravo quando me viu com uns caras e me arrastou de lá. Sinceramente, não entendo ele.
O que você acha, hã? eu estou tão confusa em relacão do que eu sinto Pieter.
— Imaginei ele dizendo uma resposta: Se você o ama, não perca sua vida negando isso.
—Tem razão. Mas não é tão fácil assim. sei lá, me sinto quebrada em milhares formas diferentes.
Me deitei no chão, aproveitando que algumas árvores fazia uma boa sombra, e o vento começava a deixar o clima fresco.
— Ás vezes me sinto como um túnel. Mas sem luz no fim. Só um vazio e escuridão.
Continuei deitada sem se importar com folhas no meu cabelo, e a grama incomodando meus braços.
— Você está bem? precisa de uma visita? andei pensando em ir te ver. Deixe a porta aberta, acho que não demoro a chegar.
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Minhas Marés
Romance[COMPLETO] Com uma vida fora dos trilhos, Carrie entra em depressão. A falta do carinho dos pais afeta sua rotina, mas quando conhece Lowis e se apaixona mais rápido do que imaginou, enxerga a felicidade perto. Contudo, quando a doença começa causa...
