Nas entranhas de um manicômio, o velho e amargo avô não grita mais por atenção ou ataca os enfermeiros como ele costumava fazer. A cinco dias Antony sequer abria a boca, tão pouco ele conseguia enxergar que o que se colocava ao seu redor eram paredes forradas com espuma e não uma grande cidade, com os maiores prédios que já tivesse visto. Duas mulheres estavam com ele. Bem-postas, e olhos escuros. Uma de lábios voluptuosos tão vermelhos quanto seu vestido. Outra de preto cinzento, quase verde musgo com um broche imponente da Hidra firme na lapela de seu terninho. Saltos estalavam no concreto sempre que andavam e cabeças continuavam erguidas, elas jamais encolhiam os ombros, jamais vacilavam... E jamais seriam um ser humano.
Se Antony tentasse naquele momento, ele jamais conseguiria dizer que o mundo ao seu redor não existia, na verdade, ele nem mesmo se lembrava do momento em que aceitou a tão conhecida "chave" longos e longos meses atrás. Quando não era mantido na solitária por mal comportamento e podia andar pelo pátio de grama verde nos intervalos de lazer. Suas roupas brancas eram claras demais ao Sol quente, mas ele não se importava com aquilo. Tudo o que tinha na cabeça por dez anos de internação era o verde distinto da grama além da cerca e o azul claro do céu.
Antony queria vingança. Então, na primeira oportunidade que encontrou de conseguir um grupo grande o suficiente para começar uma rebelião, ele mergulhou de cabeça na pequena comunidade religiosa demais para o seu gosto. O velhote era inteligente, ele ouvia com cuidado, sabia o que falar e como falar, levou quase um ano inteiro, mas conseguiu crescer para o círculo pessoal do líder. Um homem gentil por fora, maníaco por dentro.
E o tempo passou, Antony foi percebendo aos poucos que aquela fortaleza era um beco sem saída, ele tentou de tudo. Subornar os guardas, convencer os pacientes mais perturbados de que sua paranoia era verdadeira e eles precisavam lutar para se defender. Até deu um jeito de colocar fogo no estoque de medicamentos da sua ala, metade do manicômio perdeu suas doses e a rebelião quase obteve sucesso, mas ele foi tranquilizado na frente da grade e caiu ao chão, vendo o fruto tanto planejamento correr pela grama verde enquanto sua bochecha ardia no asfalto. O líder fugiu e ele ficou para trás, se tornando a cabeça mais alta do lado de dentro.
Solitária. Antony perdeu a noção do tempo, ficou acostumado com o escuro e se esforçou para não parecer tão louco quanto pensavam que ele era, mas aos poucos, sua mente já cansada da idade escorregava para fora de controle... Dois anos se passaram, Antony se tornou o mais religioso do lado de dentro e ganhou fama do lado de fora, porque com as visitas familiares – que ele nunca recebia – aquela estranha religião se expandiu para além dos muros e alcançou uma comunidade que ele adoraria conhecer.
A Estação Fazenda foi atacada, ou foi o que ele ouviu dizer dos seus companheiros através de buracos nas paredes e sussurros na ventilação. Dois dias depois daquilo, um estranho foi internado. Um garotinho pequeno com olhos claros em medo, ele viu tudo o que aconteceu e perdeu o pouco apego a realidade que lhe restava, mas Olly não era apenas o que os olhos podiam ver e com a mesma frieza calculada conseguiu se aproximar de Antony, ele reconhecia que o senhor tinha influência do lado de dentro e poderia ser um atalho para os seus objetivos.
E assim começou o pequeno circuito clandestino de unções, cada um dos religiosos recebeu sua bênção. Um estranho hexágono solvente com cor azulada e gosto ferroso que desaparecia sobre a língua como algodão doce e se espalhava mais rápido do que qualquer outro vírus pelo corpo, porque aquele não era simplesmente uma doença, era um hospedeiro que aguardava. Um inimigo que não se cansa, não desobedece, não falha.
Entre os grandes prédios de um mundo que não existe, Antony sorria ao lado de Alie e Aida, observando a maneira como a cidade ficava cada vez mais cheia, prosperava através de anos por debaixo dos panos.
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FINITUS
FanfictionTudo levou àquilo. As perdas, as derrotas, amarguras e feridas. Manhãs calmas se tornaram em caos no campo de batalha, o brilho das estrelas em fagulhas vindas de uma explosão. Um sorriso puro foi uma breve despedida, desde o primeiro nome escrito n...
