48º (Reescrito)

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Alina Narrando

Fui despertada não pelo sol, mas pelo vibrar insistente do meu celular. Era Rebeca. 

"Sobre o ritual" sua mensagem piscava na tela. "Podemos fazer juntas?" 

Um sorriso se formou em meus lábios. Adorei a ideia. Respondi que, para mim, sem problemas, mas que Don deveria conversar com Darius primeiro. Ela desligou, provavelmente para ligar para Montmare. Uma hora se passou, e meu celular vibrou novamente. Desta vez, a voz de Rebeca, do outro lado da linha, estava carregada de uma alegria contagiante. 

-Alina! Darius concordou! Ele disse que não vê problema! Estou a caminho com Branca e Luna para começarmos a olhar nossos vestidos!- Sua euforia era palpável, e eu me peguei rindo baixinho.

Desci para a cozinha, o cheiro de café já invadindo o ambiente. Darius ainda não tinha chegado ou mandado mensagem. Devia estar ocupado no trabalho, como sempre. Uma pontada de melancolia me atingiu, mas eu a afastei. Ele sempre estava ocupado. Senti a presença das meninas antes mesmo de vê-las. A porta se abriu com um estrondo, e Branca irrompeu, parecendo uma tempestade de bom humor e energia.

-Alina, temos muitas coisas para fazer!- ela exclamou, já colocando seu notebook sobre a mesa, seguido por uma pilha de revistas e catálogos. A mesa da cozinha, que antes abrigava apenas meus ingredientes para o café, agora parecia uma central de planejamento de eventos.

-Mas para que isso?- Rebeca perguntou, um pouco assustada com o frenesi de Branca. Branca a encarou, os olhos semicerrados em uma expressão de desafio dramático.

-Você está achando que eu vou deixar você e a Alina, as duas mulheres donas da porra toda, sem se arrumarem, Rebeca?- Branca disparou, as mãos na cintura. - Rebeca, você vai ser a rainha dos vampiros, tem ideia disso? E a Alina, nem preciso dizer, Suprema Luna! Isso é um evento que vai selar a união de dois reinos, não um piquenique no parque!- Suas palavras nos arrancaram gargalhadas. Era impossível não rir da sua intensidade.

-Enquanto nossa estilista olha vocês, estou por conta de olhar o local e a arrumação. Precisa ser magnífico, ter um toque de luxúria com elegância, misturar o poder dos Lycans com a majestade dos vampiros - Luna disse, com um olhar sonhador fixo no teto, gesticulando com as mãos como se estivesse pintando um quadro invisível. Eu e Rebeca nos entreolhamos, um misto de humor e desespero em nossos olhares. Não servíamos para essas coisas. A ideia de planejar um evento grandioso como esse era exaustiva só de pensar.

Branca e Luna começaram a separar algumas imagens de decorações e vestidos. No início, estávamos acanhadas para escolher, perdidas no mar de opções. Mas, aos poucos, fomos nos soltando. Depois de quatro horas ininterruptas folheando revistas e discutindo nuances de tecidos e arranjos florais, tínhamos decidido a decoração. Os vestidos, no entanto, estavam sendo bem mais complicados. Eu e Rebeca queríamos algo mais simples, algo que representasse nossa essência sem ser excessivamente opulento. Já Branca e Luna estavam quase nos batendo, insistindo que "não pode ser simples, é o dia da união de vocês!"

- Desisto - eu disse, irritada, depois de mais duas horas de discussão sobre vestidos. Já dava a hora do almoço, e meu estômago roncava em protesto. Rebeca, ao meu lado, parecia igualmente exausta. Fomos para a cozinha juntas e preparamos o almoço para nós. Nossos companheiros ainda não tinham ligado. Uma tristeza se instalou em meu peito. Eu estava triste que Darius não tinha ligado ainda, mas tentava me convencer de que ele estava apenas ocupado.

-Já sei!- Branca exclamou de repente, um brilho travesso em seus olhos. Ela pegou o celular e ligou para alguém que não identifiquei. Depois de uma hora, ouvi batidas na porta. Branca, com um sorriso vitorioso, trouxe um homem para dentro, um caderno na mão.

-Alina e Rebeca, este é Domenico. Um bruxo- ela apresentou com um floreio dramático. -Ele é um super estilista! Pelo destino, ele estava em sua casa aqui em Uktena!

-É um prazer conhecê-la, Suprema, e companheira do Original- ele reverenciou, seus olhos azuis examinando-nos com uma intensidade profissional. Ele exalava uma aura de elegância e criatividade.

-Sem formalidades, por favor - eu disse, com um sorriso. Fomos para a sala de jantar e nos sentamos.

-Chamei ele aqui porque não conseguíamos decidir sobre o vestido- Branca explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. -Então, pensei em fazer eles do zero, com o gosto de vocês, mas sem tirar a elegância.- Assenti com a ideia de Branca. Era a solução perfeita. 

Começamos a falar com Domenico sobre como queríamos nossos vestidos, e ele ia anotando tudo com uma dedicação quase artística. Ele fazia perguntas sobre nossos gostos pessoais, nossas personalidades, a forma como nos víamos no dia do ritual. Depois de mais ou menos três horas, terminamos. Ele então nos mostrou as projeções dos vestidos em uma tela mágica.

-Pela Deusa! Ficou magnífico!- eu exclamei, olhando para o vestido. Era um modelo sereia, com uma cauda gigantesca e uma modelagem tomara que caia, ricamente bordado com flores e pedras em tons dourados. Parecia ter sido feito para mim, uma extensão da minha alma.

-Meu Deus!- escutei Rebeca, e virei para ver o vestido dela. Era um estilo princesa, com mangas bordadas com flores delicadas, mas sem cauda, em um tom vermelho sangue profundo. Um contraste perfeito com o meu, mas igualmente deslumbrante.

-Eu disse que ele iria nos ajudar!- Branca cutucou Luna, que sorria vitoriosa. -Então, Domenico, precisamos desses vestidos para domingo. Consegue?- Branca perguntou, a voz carregada de expectativa.

-É claro! Será um prazer vestir nossas rainhas!- Domenico tirou uma fita métrica da bolsa e começou a medir meu corpo e o de Rebeca. Ficamos um bom tempo em pé, enquanto ele anotava tudo, até mesmo o tamanho do nosso sorriso. Ele conseguia ser mais pirado que a Branca para essas coisas, com sua atenção meticulosa aos detalhes e sua energia contagiante.

Olhei pela janela. O sol já se punha, pintando o céu com tons de laranja e roxo. Suspirei fundo, sentindo o peso do dia. Domenico guardava suas coisas.

-As medidas já foram feitas. Amanhã à tarde, espero por vocês em meu ateliê para fazermos os ajustes - ele disse com um sorriso gentil. Sorri em resposta, aliviada por ter essa parte resolvida. Despedi-me de Domenico e fui para a sala, sentar um pouco e relaxar a mente.

-Não quero ver mais nenhuma decoração na minha frente - Rebeca disse, sentando-se ao meu lado e massageando as têmporas.

-Digo o mesmo - sorri, sentindo a exaustão se instalar em meus ossos.

- Não vou falar mais nada, porque ficamos o dia todo escolhendo as coisas e também estou cansada - Branca declarou, seu tom agora mais sério. - Amanhã eu e a Luna vamos sair para comprar as coisas, e vocês duas estão proibidas de sair de casa.- Encarei Branca, surpresa. - Por segurança. Todos já sabem que irá acontecer o ritual, e provavelmente tem pessoas que não estão felizes com isso. - Vi Rebeca engolir seco. A ironia da situação não me escapou: a alegria da união trazia consigo a sombra da ameaça. A dúvida sobre a segurança de todos permeou o ar.

-Vou escutar você dessa vez- eu disse, reconhecendo a seriedade da situação. -Rebeca, vou chamar uma tropa para acompanhar você.- Ela assentiu. Uivei, um chamado que ecoou pelas paredes da casa, e guardas apareceram quase instantaneamente.

-Acompanhem Rebeca até em casa e fiquem de vigia para que ninguém tente contra a vida dela- eu ordenei.

- Sim, Suprema!- eles se curvaram e saíram, seguindo Rebeca. Entrei para a casa e fui direto para o banho. Minha cabeça estava doendo, meus músculos cansados. Me deitei e apaguei, sonhando com vestidos e futuros incertos.

(...)

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