38° (Reescrito)

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Darius Narrando

Alina sempre consegue me desconcertar. Mesmo depois da madrugada intensa que compartilhamos, onde nossos corpos e almas se entrelaçaram como nunca antes, ela parecia... diferente. Mais leve. Mais aberta. Mais ousada. Como se tivesse, finalmente, aceitado quem ela era — e quem éramos juntos.

Estamos na sala principal da sede, cercados pelos nossos betas. Ela senta-se ao meu lado como se nada tivesse acontecido, mas as provocações são contínuas. Alina esfrega suas pernas nas minhas discretamente, seus olhos ardem de malícia, e aquele sorrisinho vitorioso no canto da boca me faz querer arrastá-la para qualquer canto escuro daquele prédio. Meu lobo está à beira da loucura.

Eu tento manter a postura, falo sobre a vigilância reforçada e o apoio do clã dos vampiros. Mas minha voz está grave demais. Tensa demais.

— Então vocês já estão avisados — concluo, olhando diretamente para Alina, que cruza as pernas devagar, num gesto provocante — Inicialmente, a vigilância será feita com o apoio direto do patriarca vampiro.

— Supremos — os betas se levantam em uníssono, respeitosos, e saem.

Restamos apenas eu, ela... e o cheiro agridoce da provocação no ar.

Ela se levanta, ajeitando a blusa que deixava o colo à mostra, e diz com uma naturalidade irritante:

— Já que tudo está sob controle aqui, vou participar da reunião das fêmeas. Temos coisas importantes para discutir.

Ela começa a sair. Mas se pensa que vai embora depois de tudo o que fez naquela sala, está redondamente enganada.

Levanto de um salto, a alcanço no corredor e, sem dar chances para protestos, agarro sua cintura e a levo até o elevador.

— Darius! O que você está fazendo?! — ela me encara, assustada, mas há algo nos olhos dela que não é medo. É desejo.

— Você realmente achou que ia escapar depois do que fez naquela sala? — rosno baixo, colando meu corpo ao dela. — Está testando meu controle, Alina.

Ela morde o lábio, mas não responde. Perigoso demais.

Assim que a porta da minha sala se abre, a tranco por dentro e a empurro de costas contra o sofá. Ela cai de joelhos, ainda sorrindo debochadamente.

— Aqui não, Darius — diz, tentando se erguer.

— Aqui sim. Meu lobo precisa de você. E você sabe que quer também.

Sem esperar resposta, me aproximo. Nossos corpos se chocam como se o mundo ao redor deixasse de existir. Ela se entrega, e tudo em mim grita que ela é minha.

[...]

Depois de uma hora, Alina dorme em meu peito. O ar ainda carrega o cheiro dela. Minha mão acaricia seus cabelos como se quisesse eternizar aquele instante. Mas a paz dura pouco.

— Darius! — Ela acorda num pulo. — A gente... a gente fez isso na sua sala!

Ela tampa a boca com as mãos, escandalizada.

— Não se preocupe, já trouxe outras mulheres aqui e...

Merda. Falei. O que NÃO devia ter falado.

Ela se afasta como se eu tivesse jogado ácido em seu peito. Seus olhos perdem o brilho, e o sorriso desaparece.

— Amor... eu... — tento me aproximar, mas ela já se veste e sai da sala sem sequer me olhar nos olhos.

Alina Narrando

Idiota. Eu devia saber. Era bom demais pra ser verdade. Saio da empresa antes que as lágrimas venham, o peito apertado. A floresta me chama como sempre fez. Caminho até a clareira e deixo o sol aquecer minha pele. Respiro fundo tentando não ceder à raiva, à dor. O vento carrega o cheiro da liberdade. Até que escuto passos.

Montmare.

— Alina — sua voz é como gelo derretendo no meu nome. Ele se aproxima com sua típica elegância e beija minha mão. — Finalmente conseguimos conversar.

— Tivemos muitas interrupções antes — sorrio, tentando parecer leve. — O que tanto deseja me dizer?

Ele fica sério.

— Você já sabe da guerra santa, do que nossos ancestrais selaram com sangue e dor. O equilíbrio é frágil, Alina. Muito mais do que aparenta. E no fim, um de nós precisa se sacrificar para manter a barreira.

— Sacrificar? — sinto um arrepio nas costas. — Deve haver outra forma. Precisamos encontrar um meio de nutrir a barreira... sem nos perdermos nela.

— É por isso que estou aqui. Podemos achar uma alternativa. Mas teremos que confiar um no outro.

Conversamos por longos minutos, talvez horas. Montmare explica sobre a hierarquia vampírica, sobre as alianças possíveis. Sua frieza começa a derreter, revelando uma alma marcada como a minha.

— Tudo é possível com perseverança — ele conclui, olhando para o céu.

Estamos voltando quando um estrondo ensurdecedor vem da mata. Nossos corpos se movem antes mesmo da razão alcançar.

Uma horda de transformados. Meu coração dispara.

— Alina, chame seus lobos. Vamos segurá-los. — Montmare diz, já em posição de ataque.

Eu uivo. O som ecoa como uma lâmina no ar, e os transformados avançam com ferocidade. Montmare arranca o coração de um com precisão cirúrgica. Eu, na forma Glabro, me lanço em cima de outro, jogando-os uns contra os outros.

A terra treme.

Nossos soldados chegam. Uma carnificina de garras, presas e gritos. Montmare e eu recuamos enquanto os irmãos finalizam os transformados.

Capturamos alguns. Montmare pede para levá-los às masmorras.

— Posso tentar curá-los, tirar a corrupção. Mas precisam aceitar o caminho — diz.

Então escuto um nome.

— Alina! — Darius vem correndo até mim. Está sujo de sangue, olhos dilacerados de culpa.

— Já pedi desculpas — ele diz, arfando. — Foi idiota da minha parte. Mas com você... eu me sinto à vontade. Você é a última mulher que vai entrar naquela sala. Só você.

— Conversamos depois. A batalha vem primeiro.

Ele assente, respeitando minha decisão. Voltamos à luta, organizando a busca. Mas algo me chama.

Cheiro de sangue. Rebeca.

Corro. Meus lobos vêm atrás. Encontro Rebeca sendo atacada por um transformado. Eris, despedaça o monstro com fúria ancestral. Eu me transformo e corro até ela.

— Rebeca! — pego seu corpo ferido. O ombro está coberto de dentes e garras do inimigo.

— Alina... — sua voz falha.

Darius e Montmare se aproximam. Montmare para subitamente, olhando fixamente para Rebeca.

— O que foi? — pergunto.

— Ela... — ele respira fundo. — Ela é minha alma.

Eu congelo. Darius também.

— O destino adora brincar com a gente — respiro fundo. — Então vá, Don. Cuide da sua companheira.

Montmare se ajoelha ao lado de Rebeca, acariciando seu rosto. Levo Darius comigo, dando-lhes privacidade.

Algum tempo depois, Montmare aparece na porta. Os olhos vermelhos, a boca manchada de sangue.

— O gosto dela... é surreal.

— Que romântico — digo, fazendo uma careta. Ele ri. Darius também. E, por fim, eu.

— Vou chamar as meninas para cuidarmos dela. Querido, cuide do restante?

— Pode deixar, amor. E se alimente também. Seu cheiro está fraco.

Assinto. Don resolve seguir Darius. Entro na cozinha. Abro os armários. Faço algo nutritivo para Rebeca.

Enquanto corto os legumes, penso. Em Darius. Em Montmare. Na guerra. No destino.

No quanto tudo está prestes a mudar.

E eu? Eu estou pronta.

Ou pelo menos, fingindo bem.

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