44º (Reescrito)

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Darius Narrando 

Na sala, enquanto Alina se arrumava, Pietro apareceu com o cenho franzido.

— Supremo... problemas — avisou, seco.

— O que houve? — perguntei, já prevendo o caos.

— A alcateia dos Presas de Prata foi atacada. Quatro crianças... foram levadas por transformados.

Um rosnado escapou do meu peito.

— Mande reforço imediato. Rastreamento, resgate. Quero as crianças de volta, vivas.

Ele saiu correndo. Alina desceu logo depois, num vestido longo, cabelos presos em um coque trançado, e os olhos atentos.

— Ataque? — ela perguntou, já sentindo o cheiro do sangue no ar.

— Transformados. Crianças levadas. — meu tom era grave. — Mas já enviei ordem.

— E você ia me deixar aqui? — ela estreitou os olhos.

— Estou tentando manter você viva, mulher teimosa.

— E eu estou tentando ser útil. Vamos logo.

Na floresta, ao chegarmos à casa de Afena, ela desceu das árvores como um espírito antigo. Olhos escuros, aura intensa. Diferente da última vez que a vi. Mais... ancestral.

— Supremo. Luna. — saudou com reverência. — A visão da barriga confirma os rumores. Finalmente o primogênito de Darius e Alina... o herdeiro de Uktena.

— Afena! — Alina correu e a abraçou. — Quanta saudade. Pensei que estivesse isolada nos círculos do norte.

— Os ventos me trouxeram de volta. E agora entendo por quê.

Entramos. Alina se deitou no sofá. Afena a observava como se enxergasse além da carne.

— Está fraca. Não consegue manter comida?

— Só mingau de grão de bico. — eu respondi.

Afena não respondeu. Apenas tocou o ventre de Alina e começou a murmurar. O ar ficou denso. O chão tremeu sob nossos pés.

— Afena?! — rosnei, vendo símbolos se formarem no ar.

— Fique quieto. Estou tentando salvar a vida da sua mulher e do seu filho.

— O que ela tem?

— Envenenamento espiritual. Não por comida. Alguém atacou sua alma... e a criança era o alvo.

Arregalei os olhos.

— Mas como...

— Alina usou seu dom alfa para proteger o bebê. Absorveu a maldição.

Ela explicou os dois rituais possíveis. O primeiro, perigoso e instável. O segundo, físico e extremamente doloroso, mas mais seguro para o bebê.

Alina levantou o rosto, pálida, mas decidida.

— Quero o segundo. Se for pra proteger meu filhote, que seja com dor. Não aceito perdê-lo.

Meu coração quase se partiu em dois. Peguei sua mão e beijei seus dedos um por um.

— Nada vai acontecer com você. Eu prometo.

Horas depois, Afena me mandou sair da sala. O ritual começaria. Outras seis bruxas entraram, cercando Alina.

Fiquei do lado de fora, escutando os gritos.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!! — O som rasgou a casa.

Meu lobo enlouqueceu. As garras tomaram conta das minhas mãos. Senti como se adagas estivessem cravadas no meu peito.

— ESTÃO MACHUCANDO ELA! — rugi, mas Afena me impediu de entrar.

— Se você interromper, ela morre! — gritou uma das bruxas.

Me curvei, segurando o próprio peito, sentindo parte da dor dela. Era como se nossos corpos estivessem entrelaçados pela dor.

Então... senti.

O poder da Luna explodiu. Os uivos começaram do lado de fora. Centenas de lobos sentiam o chamado. Todos sabiam: a Luna estava lutando.

Os lobos de Uktena começaram a chegar. Alguns em forma bestial. Outros, ofegantes, suando, arfando de dor compartilhada.

— Supremo! — um jovem veio correndo. — O que está acontecendo com nossa Luna?

Expliquei. E todos ficaram em silêncio. Um silêncio sagrado. Um elo ancestral se formava.

Então... os gritos cessaram. E o ar ficou quieto.

A porta se abriu. Afena estava coberta de sangue. Atrás dela, Alina mal conseguia ficar em pé.

— Ela conseguiu. A Luna resistiu. A escuridão foi arrancada.

Corri até ela. Ela caiu nos meus braços, tremendo, a túnica ensopada.

— Nosso filhote está bem... — sussurrou. — Ele está bem...

Não consegui conter as lágrimas. Levei-a até a varanda. Os lobos se reuniram em silêncio. Alina se endireitou e, com o pouco de força que lhe restava, liberou sua dominância, dizendo:

— O primogênito está salvo... pela força, fé e coragem de cada um de vocês, meus irmãos...

E então caiu sobre mim, exausta.

Os lobos uivaram. Não por dor. Mas por vitória. Por reverência. Pela fêmea que salvou seu filhote com o próprio corpo.

Minha Luna. Minha guerreira. Minha Alina.

E, dentro dela, nosso futuro.

Alina Narrando

Depois daquele inferno emocional e físico que vivi, Afena me levou para dentro como se carregasse uma porcelana trincada. Cada passo parecia ecoar a dor de um milagre que quase me custou tudo. O toque dela era cuidadoso, como o de uma mãe tentando manter a filha viva com gestos simples. Me despia com paciência e me acomodava na banheira como se eu fosse uma relíquia prestes a desmoronar.

— Respire, Alina... — ela murmurava, deslizando os dedos entre meus cabelos encharcados. — O pior já passou. Seus irmãos estão lá fora, protegendo tudo com os dentes. Eles vieram ao primeiro uivo... e se não tivessem vindo...

— Eu sei. — sussurrei com um sorriso cansado. — Sinto o poder deles pulsando. Talvez... sem eles, eu não estivesse mais aqui.

Afena suspirou aliviada, e naquele momento a porta se abriu com pressa contida. As risadas nervosas e soluços abafados me fizeram virar a cabeça com dificuldade.

— Alina! — Rebeca correu até mim, ajoelhando-se ao lado da banheira como se minha presença ali fosse um milagre. — Eu... eu juro que achei que fosse te perder... — seus olhos marejados tremeram. Por trás dela, Branca e Luna estavam em estado semelhante, olhos arregalados e bochechas molhadas.

— O minhas meninas... — sussurrei com ternura, abrindo os braços de leve. — Já falei mil vezes: não é qualquer provação que me derruba. Eu sou loba, caramba. Uma que carrega o próximo Supremo no ventre. — dei um risinho debochado, tentando aliviar. — Agora parem de me olhar com cara de peixe morto e venham me ajudar com esse banho, estou fedendo a sangue seco e sofrimento.

As três riram em uníssono, como se aquele somespantasse o último vestígio de medo do ambiente. Vieram se juntar a Afena, meajudando a tirar os resquícios do ritual. Meus cabelos foram trançados, minhapele ungida com ervas e óleos, e por um instante eu me senti... sagrada

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