65° (Reescrito)

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ALINA NARRANDO

Acordei sentindo o gosto amargo do metal na boca e o cheiro forte de ervas queimadas. Meus olhos piscavam devagar, pesados, e a luz alaranjada das lamparinas tremulava nas bordas da minha visão. A primeira coisa que vi foi o rosto preocupado de Rebeca, os olhos vermelhos de choro e a expressão entre o alívio e o pavor.

Alina! — a voz da minha mãe ecoou desesperada enquanto ela apertava minhas mãos com força. — Filha, graças à Deusa!

— Estou bem, mamãe... — murmurei, mas minha voz saiu rouca, falha, como um sussurro arrastado. Forcei um sorriso que mais parecia um pedido de desculpas do que qualquer outra coisa. — Só um pouco... destruída. Acho que exagerei um pouquinho... no poder.

O corpo inteiro doía. Sentia como se mil agulhas espetassem cada junta, como se meu sangue estivesse fervendo sob a pele. Meu peito ardia, minha cabeça latejava como se estivesse prestes a explodir.

— Sempre a heroína, sempre querendo salvar todo mundo sozinha... — minha mãe me repreendeu, mas sua voz tinha aquele tom doce, abafado pelas lágrimas de alívio. Seu sorriso me quebrou. Ela me conhecia demais. — Você podia ter morrido, Alina.

Virei o rosto e vi as Lunas. Todas. Chorando. O peso do que tinha acontecido caiu sobre mim como uma rocha.

— Sentimos Filipa... — minha mãe falou, baixinho.

Arqueei as sobrancelhas, confusa.

— Quando Peter quebrou o cristal... nós sentimos a energia dela. Ela está viva, Alina. Está esperando por você.

Meu coração saltou no peito. Era como se algo me puxasse para fora da maca. Me ergui de repente, arfando, o corpo reclamando com dores lancinantes. Um gemido escapou sem que eu pudesse impedir.

Calma! — minha mãe tentou me conter, me segurando pelos ombros. — Você ainda está muito fraca!

Mas eu não conseguia parar. Não agora. Fechei os olhos, buscando na memória o que Vitt me dissera. Nix. A Deusa. Ela tinha prometido que, na hora certa, me ajudaria.

— Eu preciso ver Darius — murmurei, determinada, mesmo com o corpo desfalecendo. Fui amparada pelas Lunas e, cambaleante, saí da tenda médica.

O reflexo no espelho me assustou. Minha pele estava cinza, quase translúcida, os olhos sem brilho, como se a alma estivesse desbotando. Mas eu não tinha tempo para vaidade. Minha filha estava viva. E eu precisava dela de volta.

DARIUS! — gritei, minha voz atravessando o acampamento.

Ele surgiu como um raio, me amparando segundos antes de eu despencar.

— Alina! Você está... — seus olhos varreram meu rosto com um desespero silencioso, e eu vi o medo ali, nu, latente.

— É Filipa, Darius. Tem um jeito. Eu... preciso de todos os Alfas. Preciso da força da Matilha. Da ligação com as Lunas. Eu... não sei exatamente o que fazer, mas sei que preciso tentar!

Ele me olhou sério, e o silêncio que caiu foi cheio de tensão. Todos os alfas nos cercaram. Meus joelhos cederam e caí no chão, exausta, lágrimas escorrendo quentes pelo rosto.

— Por favor... me ajudem a trazer minha filha de volta...

Meu pai se aproximou, ajoelhando-se ao meu lado. Segurou meu queixo com delicadeza e ergueu meu rosto.

— Estamos com você, filha. Até o fim.

Os alfas assentiram. Uma comunhão silenciosa, poderosa.

— Façam uma roda. Liberem a dominância. Lunas, fiquem atrás deles. Não deixem a energia escapar. Darius... você, chame os lobos. Use sua essência. Use tudo.

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