Narrando
A travessia de volta a Uktena foi menos triunfal do que Darius esperava. Se por um lado os objetivos da viagem haviam sido alcançados, por outro, o estado de Alina se tornava a cada dia mais delicado.
Ela estava mais silenciosa que o habitual, enjoada com qualquer movimento brusco do carro e incapaz de comer qualquer coisa que não tivesse um leve gosto de frutas cítricas — e nem mesmo isso ficava no estômago por muito tempo.
— Se você oferecer maçã de novo, Darius, eu juro que vomito nos seus pés. — Alina rosnou, apertando o lenço contra o rosto, pálida.
Darius soltou uma risada debochada, ajeitando-se na cela ao lado dela.
— E se eu disser que trouxe manga?
— Aí eu vomito antes de você abrir a boca.
Ele gargalhou, inclinando-se levemente na sela para alcançá-la e lhe dar um beijo na bochecha. Alina o empurrou com a mão fraca, mas seus olhos brilharam com ternura.
— Não sorri, seu idiota. Eu estou morrendo. Minha coluna está em frangalhos, minha bexiga está sendo pisoteada por nossos filhotes e eu tenho certeza que essa estrada foi projetada por demônios.
— Eles têm bom gosto, então. — Ele piscou. — Quer parar para descansar? Posso montar uma tenda aqui mesmo.
Ela suspirou profundamente, recostando-se um pouco mais em seu lobo de sombras, que andava ao lado da comitiva protegendo sua rainha.
— Eu só quero que eles nasçam logo. Ou que eu entre em coma até o parto. Qualquer coisa que envolva não viver mais uma viagem dessas.
— Eu posso providenciar o coma — ele sussurrou em seu ouvido, a voz carregada de humor negro e desejo contido.
Ela lhe lançou um olhar cínico e exausto.
— Se você fizer qualquer gracinha comigo, com esse corpo cheio de hormônios e dores, eu arranco seu fígado pelos olhos.
— Que romântico. — Ele sorriu, e mesmo cansada, Alina não conseguiu evitar o riso abafado que lhe escapou pelos lábios.
Os meses seguintes foram uma dança delicada entre paciência, ansiedade, desejo e transformação.
Uktena se preparava para receber as crianças como quem se preparava para uma nova era. As anciãs vigiavam as florestas, as fêmeas da alcateia costuravam roupas lunares com peles especiais, e Rebeca, já com uma barriga graciosa despontando sob os vestidos, visitava Alina, trazendo bolos, chás e conselhos que variavam entre o sábio e o hilariamente impraticável.
— Coma tâmaras — ela dizia, certa vez — dizem que ajudam o bebê a escorregar mais fácil.
— Você já viu o tamanho da minha barriga? Nada nesse universo vai "escorregar" fácil. — Alina respondeu, com uma careta enquanto aceitava a fruta mesmo assim.
Don, por sua vez, acompanhava Darius em todas as estratégias de segurança do território, mas também se mostrava inusitadamente protetor com a futura cria.
— Ela está sensível ao cheiro de sangue. — Don avisava antes das caçadas. — E se mais um macho trouxer carne crua pra dentro da casa, juro que mordo a jugular.
— Relaxa, irmãozinho. — Darius zombava. — Ela prefere arrancar as jugulares ela mesma.
E de fato, preferia.
Alina Narrando
Acordei com o sol entrando pela janela, tocando meu rosto com uma suavidade que em nada combinava com o peso que eu carregava. Tentei me virar, mas um grunhido abafado escapou dos meus lábios.
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Suprema
Hombres LoboUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
