69º (Reescrito)

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Darius Narrando

A dor de quase ter perdido meus filhotes... minha mulher... por uma maldita negligência, ainda me corrói como ácido na alma. Fui arrogante, tolo ao não prever como o Inferno afetaria Alina... como se qualquer um pudesse prever o que o próprio inferno faria com a luz da minha vida.

A porta se abre com um rangido sutil.

— Supremo — Pietro entra apressado, olhos arregalados, coração pulsando no olhar — como está a Suprema?

Seus olhos entregam o mesmo desespero que com certeza reina nos corações de todos os outros lobos. Eles sentiram. Todos sentiram. A dor de Alina se espalhou como fogo em palha seca, queimando qualquer equilíbrio que ainda restava.

— Estão vivos, Pietro. Mas foi por pouco... muito pouco. — Minha voz sai baixa, mas firme, e não consigo evitar o tom de culpa. — Eles só precisam de descanso. Um deslize... um maldito deslize e quase perdi tudo. — Anonatos ruge dentro de mim, tomando as rédeas. — A segurança será reformulada. Nenhuma brecha. Nenhuma distração. Nenhum lobo se afastará da Suprema. Até o último segundo dessa gestação, minha companheira não ficará sozinha nem por um instante.

Pietro abaixa a cabeça respeitosamente, como se sentisse o peso do meu desespero. Não diz uma palavra, apenas sai em silêncio.

Viro-me de volta para Alina. Minha guerreira parecia... partida. Sua pele, antes quente e vibrante, agora pálida, seus lábios azulados, os olhos tão fundos que parecia carregar mil guerras... e talvez carregasse mesmo. Me sento na poltrona ao lado da cama, e meus olhos não desgrudam dela.

"Suprema!" — a voz de Lais ainda ecoa em minha mente como um raio ensurdecedor.

Eu corri. Corri como nunca antes. E encontrei Alina em meio a gemidos baixos e sangue escorrendo por entre suas coxas.

Por favor, não... por favor! — eu mal conseguia falar. — Não deixe nada acontecer com nossos filhotes!

Mas seus olhos estavam tomados pela loba. Eritia estava fora de controle.

SAI DAQUI! — ela rugiu, sua voz ecoou como trovão e me atingiu no peito com uma dor maior do que qualquer ferida de guerra.

SAAAAAAAIIII!

Lais me puxou pelos ombros, desesperada, afastando-me como se minha presença fosse veneno.

— Senhor, a Senhora Suprema está em colapso. Precisamos de espaço para contê-la. Por favor, confie em nós!

Eu... paralisei. Eu, o Supremo, o Alfa dos Alfas... impotente. Um mero espectador da queda da mulher que eu deveria proteger.

Revivo cada segundo, cada lágrima não derramada. Meus olhos marejam. A culpa ainda pulsa com violência dentro do meu peito.

— Darius... — ouço seu sussurro fraco, e é como se a Lua sorrisse para mim.

Me aproximo de imediato, tomado pela emoção. — Meu amor... estou aqui. Com você. — Seguro suas mãos, tão frias, tão frágeis.

— Acordei com frio... vem cá... deita comigo... — sua voz é baixa, quase infantil.

— Enfermeira! — chamo, e logo trazem mais cobertores. Arranco minha blusa sem cerimônia. Quero aquecê-la com meu corpo, com minha alma, se for preciso. Me deito com cuidado, abraçando-a de leve. Ela se aninha em meu peito, protegendo a barriga com as mãos. Coloco meu braço por cima, acariciando aquele ventre precioso.

Um leve movimento. Um chute. Um sinal.

Ela sorri.

E então dorme novamente.

Eu a observo em silêncio, gravando cada traço, cada suspiro. Ali, naquele instante, havia tudo que eu precisava em todas as vidas que já vivi.

A porta se abre com um rangido quase imperceptível.

— Supremo — Castro e Pietro surgem, mas congelam ao nos ver juntos na maca. — Perdão, senhor. Informamos apenas que as ordens foram cumpridas.

— Quero uma equipe médica de prontidão ao nosso lado o tempo inteiro. E dupliquem a guarda. Ninguém se aproxima dela sem minha permissão.

Eles assentem e partem sem mais uma palavra.

Volto meu rosto para Alina. Meu coração finalmente desacelera ao vê-la em paz. A envolvo nos braços, sussurro promessas silenciosas em sua testa... e adormeço.

 Alina Narrando

Acordei com Eritia inquieta, faminta. Faz dias que ela não fala comigo... Mas agora? Agora ela queria caçar. Ela estava faminta. E eu também.

Mas o que mais me despertou não foi a fome. Foi o calor morno e o perfume almiscarado no meu travesseiro: Darius.

Meus olhos encontraram os dele, ainda sonolentos, e aquele sorrisinho torto, que só ele sabia dar, fez meu coração se derreter.

— Bom dia, minha loba. — Ele me beija a testa como quem sela um pacto de eternidade. — Dormiu bem?

— Dormi... como um filhote ao lado da mãe. — Sorri. — Nossos filhotes também. E Eritia tá querendo invadir o mato... com fúria.

Ele ri. Um riso abafado, profundo, que me faz arrepiar.

— Então vamos caçar. — Ele se levanta da maca e eu fico observando cada músculo se mover. Pela Lua, ele era o próprio pecado esculpido.

Tento levantar, mas sinto o corpo ainda frágil. Dois Alfas crescendo dentro de mim... que delícia de problema.

Darius percebe e corre até mim.

— Calma, loba teimosa. Deixa que eu ajudo.

— Ainda consigo tirar minhas roupas, amor... — brinco, com um sorriso debochado.

Ele ergue uma sobrancelha, aquela maldita sobrancelha...

— Eu jurei, Alina... jurei diante da Lua, do sangue e dos deuses antigos que cuidaria de você e dos nossos filhos. Até da forma mais simples. Me deixa cumprir isso. — Ele me beija de novo. Terno. Devoto.

A enfermeira entra e me ajuda com o banho. O corpo ainda dói, mas o calor da água e o toque gentil de Darius me trazem de volta à vida. Me visto com cuidado, protegendo minha barriga, e encaro o espelho.

Meu rosto ainda carrega as marcas da guerra. Círculos escuros nos olhos, palidez... os traços da dor.

— Nem ouse pensar que está feia. — Darius surge na porta como um raio. — Você é a mulher mais linda e irresistível que já conheci. Mesmo exausta, é meu furacão. Minha loba. A dona dos meus instintos e dos meus dias.

— Darius...

— E além de linda, é gostosa pra caralho. — Ele sorri, debochado. — E minha.

Corro até ele, minhas lágrimas caem antes que eu perceba. Me jogo em seus braços e ele me segura com a força de quem carrega o mundo e o protege com unhas e dentes.

— Eu te amo. — sussurro.

— Eu amo você, minha Luna. Em todas as vidas que existirem.

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