Capítulo 11º - Enquanto Houver Uivo
Narrativa de Darius
O silêncio me esmagava. A ausência dela me dilacerava por dentro.
Alina.
Era como se o mundo estivesse em suspenso desde o momento em que perdi o contato. Meu lobo já se debatia dentro de mim, uivando em desespero como uma alma perdida. Eu tentava me manter inteiro, racional, mas cada segundo longe dela era uma tortura. Anonatos também não a sentia mais. Aquilo me arranhava como garras invisíveis.
Voltamos o mais rápido que conseguimos para a alcateia, a esperança ainda viva dentro de mim: talvez ela tivesse voltado. Talvez estivesse nos esperando com aquele sorriso debochado que desafiava até a morte. Mas não. O território estava em alvoroço.
— Supremo! — Leo veio correndo, a respiração acelerada e os olhos arregalados — Um grupo enorme de transformados foi visto na floresta, estavam vindo do sul... ou do leste... ninguém sabe ao certo!
Meu coração congelou.
— Feche todas as entradas — ordenei com a voz trêmula de raiva — Mande todos para os abrigos de segurança. Guerreiros em duplas, espalhem-se pelo território.
— E você? — Pietro segurou meu braço com força — O povo precisa do senhor aqui. Você é a última coisa que resta entre eles e o caos.
Eu estava no limite. Meus punhos cerrados, meu peito arfando. Com um rugido de dor e raiva, desfiro um soco numa árvore próxima. O tronco grosso parte ao meio como se fosse papel molhado.
— Deusa... — murmurei entre os dentes — Por tudo que é sagrado, proteja minha luna. Não permita que ela morra.
Os lobos começaram a se organizar rapidamente. Eu os observava com olhos vidrados, mas o som distante de gritos e rosnados me puxou de volta. O leste.
O perigo estava lá.
Me concentrei, sentindo vibrações no chão. Um grupo se aproximava do norte, rapidamente. Corri, já com a adrenalina consumindo tudo.
Eram humanas. Feridas. Sujas de sangue e barro. Uma delas, uma ruiva de olhos assombrados, caiu de joelhos ao me ver.
— Esperem! — ela gritou, ofegante — Alina... Ela nos salvou... Ela...
Meu coração bateu tão forte que doeu.
— O QUE TEM ELA?! — rugi, me ajoelhando na frente da ruiva — O que aconteceu?
— Ela nos disse pra fugir... disse que vampiros estavam atrás de nós. Ela ficou pra trás, lutando... Disse que éramos protegidas dela. Ela... nos salvou duas vezes já. Contra lobos desgarrados e agora... isso...
Ela soluçava, o corpo tremendo.
Eu não respondi. Me transformei no ato e corri como um raio. Um uivo saiu das profundezas do meu peito, convocando a matilha. Precisava encontrar minha mulher. A única coisa que me mantinha vivo.
Chegamos à clareira.
Era um campo de batalha.
Sangue, corpos despedaçados, o cheiro putrefato da morte e da violência. O vento soprava lamentos invisíveis e a visão do massacre embrulhava o estômago de qualquer um.
Theo farejava, com a expressão sombria.
— Isso tudo... foi ela?
— Contagem. Agora. — ordenei com a voz baixa, mas carregada de fúria contida.
— Trinta e sete corpos aqui em cima. Vinte e dois nas pedras abaixo — Castro respondeu, se aproximando — Ela lutou até o limite. E venceu. Mas... parece que foi caçada até o penhasco.
Rosnei. A garganta queimando com o medo.
— Graças à Deusa, não encontramos o corpo dela — Hugo disse, tentando manter a esperança viva — Isso significa que Alina está viva. Ela deve ter usado o penhasco como distração. Deixou um rastro de fuga. Tem garras nas árvores. Marcas. Eles foram atrás dela.
Mas então, o gelo me cobriu.
Como uma sombra rastejando pelas veias. O elo.
Sumiu.
Minhas pernas falharam. Cai de joelhos.
— Supremo?! — todos vieram em minha direção, as vozes pareciam distantes.
— Eu... não consigo mais sentir ela... — minha voz saiu num fio rouco e assustado — Ela se foi...
— Ela está viva! — Pietro se recusava a aceitar — Vamos encontrar o rastro. Agora!
Começamos a correr, como fantasmas assombrados pela ausência dela. Seguimos até o penhasco. Um uivo de dor escapou do meu peito. Nada. Nenhum sinal.
— A queda é muito alta... — alguém sussurrou.
Meu lobo rugiu. A dor era insuportável. Um pedaço de mim morreu naquele momento.
— Eu quero esses desgraçados exterminados! — minha voz foi um trovão — NENHUM deles deve sobreviver! Eles levaram minha luna!
O uivo que ecoou logo depois não era apenas de dor. Era de guerra.
Narrativa de Alina
Acordei com o sol queimando minha pele. Cada osso doía como se tivesse sido esmagado por rochas. E, pensando bem... foi.
Tentei me mover e quase desmaiei de novo. O grito escapou antes que eu pudesse segurá-lo. Uma dor aguda atravessou meu peito.
— Droga... — sussurrei com a voz rouca.
Minhas costelas estavam quebradas. A mordida do vampiro ainda latejava na minha carne. Pior: havia mais de uma. Era como se tivessem me devorado em pedaços e me cuspido do penhasco.
Com esforço sobre-humano, alinhei os ossos e iniciei o processo de cura. As lágrimas escorriam sem vergonha. A dor era indescritível. Só depois de alguns minutos consegui respirar sem gritar.
Fiquei ali, deitada, olhando o céu.
Pensando em Darius.
Meu lobo ainda não respondia. Estava adormecida. Mas, dentro de mim, o vínculo queimava de leve... como se estivesse tentando sobreviver, mesmo fraco.
— Preciso voltar... Eles devem estar achando que morri.
Comecei a andar, mancando. Vi alguns ramos comestíveis e quase chorei de alívio. Devorei tudo como uma selvagem. Precisava recuperar forças.
Horas depois, ainda com o corpo latejando, encontrei uma velha cabana. Lenhadores. Estava abandonada e empoeirada, mas havia roupas velhas. Vesti uma camisa larga e continuei minha caminhada.
Até que...
O cheiro.
Meu território. Algo estava errado.
Comecei a correr, ignorando a dor. Quando cheguei, algo estranho aconteceu: silêncio. Todos da alcateia estavam ajoelhados, olhos fechados, como se estivessem em luto.
Meu coração quase parou.
— Graças a Deusa... — murmurei.
Mas então vi.
Darius.
Ajoelhado, cabeça baixa, as mãos apertando os joelhos como se estivesse tentando segurar o mundo. O lobo mais forte que conheci... em pedaços.
— Ainda bem... que estão salvos... — consegui dizer com um sorriso fraco, antes de cair no chão.
— ALINA! — gritou ele.
A última coisa que vi foi seu rosto desesperado. Seus braços me puxando contra o peito. Sua voz quebrando.
E depois, escuridão.
(...)
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Suprema
Hombres LoboUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
