31 º (Reescrito)

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Alina Narrando 

O calor no meu corpo finalmente começava a ceder com a distância de Don Montmare. A tensão, no entanto, ainda vibrava no ar, espessa como névoa antes da batalha. Eu me sentia drenada, tanto física quanto emocionalmente, mas havia coisas demais acontecendo para me dar ao luxo de descansar.

Termino de revisar as patrulhas e o mapeamento das rotas quando ouço passos decididos se aproximando. O som inconfundível de botas no assoalho polido ecoa pelo corredor. A porta do escritório se abre com um rangido, e os olhos âmbar de Darius entram primeiro. Atrás dele, quatro figuras se aproximam: os betas.

Ronan, o beta mais velho e respeitado, com os cabelos prateados e postura imponente. Pietro, sempre com um sorriso irônico dançando nos lábios e os olhos atentos. Castro, o mais impulsivo, já com os punhos cerrados como se estivesse pronto para uma luta. E por último, mas não menos feroz, Filipe, que parecia medir cada centímetro de Darius com desconfiança protetora.

— Os betas chegaram — Darius anuncia com um aceno de cabeça.

Me levanto, mesmo ainda um pouco tonta, e caminho até a varanda lateral da casa, onde o sol filtrava-se pelas folhas, dourando o campo de treinamento. Ao fundo, o cheiro dos dois vampiros se aproximando era inconfundível — intenso, gélido, milenar.

— Eles não são uma ameaça — digo antes que qualquer um dos meus betas pudesse rosnar. — Mas merecem ser tratados com cautela. E respeito.

Darius os conduz até mim, onde me posiciono com o que restava de dignidade. Estava de novo vestida, com os cabelos ainda úmidos, mas com os olhos firmes. Don Montmare, em seu porte aristocrático, se inclina brevemente diante de mim.

— Alina, Luna Suprema... — sua voz era firme e encantadora, com um sotaque refinado que lembrava séculos de civilização. — Apresento-me a ti e a tua alcateia. Sou Don Montmare Garos, último Patriarca da linhagem do Trono de Prata dos Vampiros. Ao meu lado, meu guardião leal, Evren. Viemos não como invasores, mas como aliados, em tempos onde até o sangue treme diante do que está por vir.

O silêncio pesa. Até Ronan, sempre o mais cético, não consegue esconder o leve arqueamento de sobrancelha diante da imponência do vampiro.

— Devo admitir — Pietro comenta num sussurro debochado, olhando para Don — que os vampiros andam bem mais... apetitosos do que nos tempos antigos.

Castro solta um riso nasal, mas se cala ao ver meu olhar.

— Se sua intenção é realmente de aliança, terá minha proteção enquanto estiver aqui — declaro com firmeza. — Mas qualquer sinal de traição, mesmo um sussurro, e juro que seu sangue alimentará as raízes da floresta. Estamos entendidos?

Don sorri, inclinando a cabeça com graça.

— Perfeitamente, Luna. Seria uma honra servi-la e proteger o que sua linhagem representa. E, talvez, redimir a minha.

Antes que pudesse responder, um grito rasga o ar. Um grito agudo, gutural. Algo que não era lobo... nem humano.

— O que foi isso? — Filipe já puxa a adaga de prata de seu cinturão.

Um uivo distorcido ecoa entre as árvores. Do leste, vindo do limite da floresta, o som de galhos quebrando se aproxima rapidamente. Corremos juntos até o campo de patrulha. E então a vejo.

Uma mulher. Ou o que sobrou de uma. Os olhos vermelhos dilatados, os cabelos emaranhados como serpentes negras, a pele pálida coberta de veias negras pulsantes. Os dentes longos e afiados, a boca aberta em um rosnado frenético. Era uma vampira... descontrolada. Transformada. Corrompida.

— Inferis... — Evren diz com o maxilar tenso. — Não... ela ainda não está totalmente perdida. Ela ainda sente dor.

— Quem é ela? — pergunto, sentindo Eris se agitar em meu interior.

— Layra... uma das minhas protegidas. Ela sumiu há semanas. Eu temi o pior. Mas não assim...

O olhar de Don se torna sombrio, amargurado.

A criatura avança, mas antes que qualquer um de nós pudesse agir, Castro pula em forma de lobo, tentando imobilizá-la. É jogado com facilidade contra uma árvore. Um estalo seco ecoa quando ele cai no chão.

— NÃO! — grito.

Em um impulso, corro até ele, enquanto Darius e Pietro já se colocam entre a criatura e os demais. Don se aproxima lentamente da vampira com os braços erguidos.

— Layra... escute minha voz... você me conhece...

Mas os olhos dela se voltam para mim, famintos, como se minha energia fosse o mais saboroso néctar da terra. Eris rosna, e num segundo, estou na forma de Glabro, os olhos dourados flamejando. A energia da lua explode dentro de mim como lava viva.

Ela salta.

Eu também.

No meio do ar, ela tenta me atingir com as garras, mas uso o antebraço para bloquear e giro no ar, cravando a adaga que Don havia me dado bem no abdômen dela. O grito que ecoa congela o mundo. Um lamento desesperado, como se mil almas gritassem juntas.

Ela cai. Mas seus olhos... por um segundo, seus olhos voltam ao normal. Um brilho de humanidade ali. E então... se apagam.

Don cai de joelhos ao lado do corpo.

— Eu falhei com ela — murmura. — Maldição sobre nós, maldição sobre mim...

Silêncio. Apenas o vento e o lamento contido em nossas respirações.

Coloco a mão em seu ombro, hesitante. O contato gera outro choque de calor em mim, mas não me afasto.

— Vamos enterrar Layra. Com honra. E depois... começamos a guerra.

Ele me olha, e naquele instante, vejo a vulnerabilidade por trás da armadura nobre. O fardo que carrega é tão pesado quanto o meu.

Darius se aproxima, seu olhar possessivo e protetor cravado em mim. Passa o braço pela minha cintura, como se lembrasse que eu ainda era dele — e que estava ali.

Mas Don também me observa. E nesse jogo de olhares, sinto a tensão se intensificar. Havia algo ali... algo que eu ainda não compreendia. Mas que me atraía como uma corrente silenciosa.

E no fundo, Eris sussurra:

— Algo está vindo. E não estamos prontos.

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