Darius Narrando
Acordei com uma dor de cabeça miserável, daquelas que fazem o crânio pulsar como se tivesse sido pisado por um bando de bisões. O quarto branco e o som constante do monitor cardíaco me deram a confirmação que eu temia: hospital. Estava deitado, conectado a fios, e tudo cheirava a antisséptico e fracasso.
Lentamente, as lembranças voltaram. O campo de treinamento... o rugido... a dor. E, acima de tudo, a imagem de Alina me derrubando.
Suspirei fundo, torcendo pra que fosse delírio.
— Anonatos... eu tô delirando, né?
A voz do meu lobo interior veio como uma chicotada:
— Não, Darius. E você sabe disso. A parte anjo da Alina é mais forte que a de demônio. E você... você perdeu. — Ele deu um risinho malicioso. — E foi pra sua fêmea. Que vergonha, hein?
Gemi e levei a mão à testa, como se o gesto fosse capaz de apagar a memória.
— Aaaaaah — gritei, frustrado, envergonhado, irritado comigo mesmo. — Como é que ela conseguiu ser o meu ponto mais forte e o mais fraco ao mesmo tempo?
A porta se abriu com um estalo.
— Supremo! — Pietro e Filipe entraram às pressas.
— Supremo é o caralho — murmurei, ainda indignado. — Alina não me derrotou, ok? Foi... foi um acidente diplomático.
Os dois se entreolharam. Pietro deu de ombros.
— Ela negou o título de Suprema Alfa. Disse apenas que seria a "guerreira da era". Palavras dela.
Cocei a cabeça, tentando não rir. Aquela mulher...
— Ela não tem jeito mesmo...
— Então... não tá zangado? — Filipe perguntou com cautela, como quem anda sobre cacos de vidro.
— Fiz merda. E esse foi o troco. — Dei um sorriso sem graça. — Onde ela tá agora?
— Menos mal que levou numa boa — disse Pietro, respirando aliviado. — Depois do ocorrido, a deixamos em casa. Ela precisava descansar.
Filipe lançou um olhar discreto para Pietro. Eu não deixei passar.
— "Depois do ocorrido"? Que caralho de ocorrido?
— Bocudo — rosnou Pietro, cruzando os braços.
— Ela foi atacada — Filipe disparou antes que Pietro o impedisse. — Ontem à noite. Quando voltou da reunião com os betas alfas. Mas nós conseguimos resgatá-la. Está bem. Em segurança.
Minha aura explodiu. A raiva subiu como lava em erupção.
— E VOCÊS ESTÃO AQUI TRANQUILOS?! — Minha voz saiu como um trovão, fazendo até o monitor cardíaco disparar.
— Calma! — Pietro ergueu as mãos. — Ela está bem. A situação foi controlada. Ninguém saiu ferido... além dos invasores.
Respirei fundo, tentando segurar meu lobo. Ele queria sangue. O de quem ousou tocá-la.
— Certo. Estou indo até ela. Tenho coisas a resolver.
Pietro pigarreou, hesitante.
— Hã... sobre isso... Ela já resolveu. Tudo.
— Como assim "já resolveu"? — Franzi o cenho.
— O problema da invasão. As brigas internas. Os comerciantes reclamando. As patrulhas... — Ele hesitou — Ela está em reunião agora com os líderes de ronda. Disse que vai reorganizar algumas estruturas...
Arregalei os olhos.
— Alina... você vai me pagar.
Levantei da cama como um raio. Ignorando os protestos dos médicos, saí do hospital e fui direto para a sede. O elevador parecia lento demais pro meu gosto. Cada andar que passava aumentava meu estado de combustão interna. Eu estava pronto pra explodir.
Mas então...
A porta do meu escritório se entreabriu, e escutei a voz dela.
— ...eu sei, pai. Tô tentando me redimir com o Darius. Eu exagerei, tá? Mas eu juro que estou tentando manter tudo em ordem. Ele precisa de um tempo pra descansar. — Um suspiro. — Como assim? Pai, nem vem. Você também achou ele rabugento... — Ela soltou uma risada leve. — Eu tô fazendo o que você me ensinou. Manda um beijo pra mamãe... Eu também amo vocês.
A ligação se encerrou, e por um momento o silêncio preencheu o cômodo. Ela se apoiou na mesa e soltou o ar, exausta.
A raiva que queimava em mim se apagou.
Entrei. Ela se virou rápido ao me ver.
— Da... Darius? — A voz saiu pequena. Ela caminhou até mim com a cabeça levemente baixa. — Me desculpa por tudo o que eu fiz. Sei que não devia ter me intrometido... Bem, você também mereceu — murmurou a última parte.
Ergui uma sobrancelha, tentando conter o sorriso.
— Você só me dá dor de cabeça.
O olhar dela caiu, e me arrependi do tom. Mas completei com sinceridade:
— Mas... foi a melhor dor de cabeça que eu já tive.
Ela me deu um tapa no braço.
— Idiota. Devia estar no hospital. Os médicos te liberaram?
— Alina... eu ainda sou o Supremo. Não preciso de permissão pra sair ou entrar em lugar nenhum.
Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços com um sorriso malicioso.
— Tem que pedir pra mim. Afinal, sou sua mulher... E, diga-se de passagem, mais forte que você.
Se aproximou e me deu um selinho demorado. Meu lobo uivou de prazer. Agarrei sua cintura, querendo mais. Mas ela se afastou com aquele charme irritante que me enlouquecia.
— Já sabe que eu fiz algumas mudanças, né?
Assenti com um resmungo.
— Imaginei que não gostou.
Assenti de novo, rosnando baixo.
— Lembra das minhas rondas? Aquelas que você achou "interessantes"? Resolvi implementar aqui. — Ela pegou o mapa e estendeu na mesa, espalhando papéis com anotações impecáveis. — Dividi o território em zonas de cinco quilômetros com patrulhas de quarenta guerreiros, dois rastreadores por grupo, sessenta e oito equipes no total. Fiz um sistema rotativo, um teste por uma semana. Se funcionar, mantemos. Se não, voltamos ao antigo. Ah, também pensei em instalar câmeras discretas na borda da floresta.
Analisei os mapas em silêncio. Tudo fazia sentido. E ainda por cima... estava perfeitamente documentado.
— Você pensou em tudo... — murmurei, impressionado.
Ela sorriu, satisfeita.
— Estou tentando ajudar. Já dei muito trabalho, agora quero resolver as coisas. Quero cuidar do que é seu... do que é nosso.
Ela se virou, pronta pra sair. Eu a segurei pelo pulso.
— Onde pensa que vai?
— Ainda tenho duas reuniões. E você, vai pra casa e vai descansar. Está precisando. — Ela piscou, se soltando com graça e desaparecendo porta afora.
Fiquei ali, plantado.
— Por que será que me sinto tão largado? — resmunguei e me joguei no sofá, rindo de mim mesmo.
(...)
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Suprema
LobisomemUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
