39° (Reescrito)

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Alina Narrando

A chaleira apitava, o vapor subia como um suspiro tenso que imitava o meu próprio. A cozinha estava mergulhada em um silêncio incômodo, quebrado apenas pelo som ritmado da faca cortando ervas, e pelo coração acelerado que ainda tentava digerir tudo o que acontecera na floresta.

Rebeca e Montmare.

Meu olhar se ergueu para a janela embaçada, observando os lobos patrulhando o perímetro. Ainda sentia o cheiro de sangue na pele, mesmo após o banho apressado. Mas era o perfume peculiar de Montmare que parecia ainda estar impregnado no ar — e agora, como um carma inesperado, no destino de Rebeca.

Suspirei. Peguei a caneca e despejei o chá calmante dentro. Camomila, lavanda e uma pitada de mel. Algo simples. Algo que me lembrava que havia esperança, mesmo no meio do caos.

Voz feminina suave atrás de mim:
— Você sempre cuida de todo mundo... menos de si mesma.

Virei e encontrei Rebeca encostada na porta, vestindo uma camisa de algodão clara que provavelmente era de alguma das guerreiras. Estava pálida, mas viva. Os olhos intensos — e agora... estranhamente vibrantes — a observavam com um misto de confusão e emoção crua.

— Você deveria estar deitada — falei, colocando a caneca na bancada e indo em direção a ela. — Sua regeneração ainda está instável.

— Você acha mesmo que consigo dormir depois de descobrir que... meu "salvador" é um vampiro com olhos de mar profundo e sotaque de um romance gótico do século XVIII?

— Ah, então você notou o sotaque... — disse com um sorriso debochado, entregando-lhe a caneca.

Ela sorriu de volta, ainda sem graça. Seus dedos tremeram levemente ao tocar a cerâmica quente.

— Alina, ele me olhou como se já me conhecesse. Como se... me esperasse.

Dei um passo à frente, tocando o rosto dela.

— Ele te esperava, Rebeca. Ele te sentiu antes mesmo de ver seu rosto. E você... já sonhava com ele, mesmo sem saber.

Ela arregalou os olhos, assustada.

— Como você sabe?

— A mesma coisa aconteceu comigo com o Darius. Um instinto que não se explica, só se sente. Como se cada parte do seu corpo reconhecesse o outro, mesmo que a mente tente negar.

Rebeca, suspirando e sorrindo em dúvida:
— E se ele for só mais um canalha imortal que quer brincar com a alma de uma loba selvagem?

— Então você arranca o coração dele... e dá risada depois — pisquei, fazendo-a rir.

Mas antes que pudesse aproveitar o momento leve, escutei passos pesados e seguros. E o cheiro... o perfume amadeirado e gelado que agora também parecia pulsar em Rebeca.

Montmare surgiu na porta.

Os olhos dele se cravaram nela como uma flecha certeira. Rebeca estremeceu, mas não recuou. E quando ele cruzou a soleira e caminhou até ela, eu recuei instintivamente.

— Rebeca — a voz dele era baixa, mas carregada de um poder ancestral — você deveria estar descansando.

Ela levantou o queixo, desafiadora.

— E você deveria estar sugando veneno em outra sala, mas cá estamos.

Montmare sorriu, encantado com a ousadia. Tocou o rosto dela com dedos frios, mas o gesto era tão terno que me retirei silenciosamente da cozinha, deixando-os com sua tormenta recém-nascida.

No corredor, Darius me esperava. Braços cruzados, expressão austera. Mas os olhos... os olhos denunciavam. Ele estava com ciúmes. E não só por causa de Montmare e Rebeca, mas pelo tempo que passei longe dele.

— Você some, volta ensanguentada, alimenta a alcateia e ainda prepara chá como se não fosse a loba mais desejada deste prédio?

— O que está acontecendo, Darius? — me aproximei, encostando os dedos em seu peito. — Está com ciúmes da chaleira ou de Montmare?

Ele rosnou baixo, puxando minha cintura e me colando contra ele.

— Estou com ciúmes de qualquer coisa que te distraia de mim.

A voz dele era grave, animalesca, e o calor entre nós aumentou perigosamente.

— E se eu dissesse que vou te distrair agora mesmo? — sussurrei em seu ouvido.

— Eu diria que os inimigos estão se armando, a guerra está às portas... e ainda assim, Alina, você é o único campo de batalha onde eu me rendo com prazer.

Beijei-o com urgência, e nos perdemos por alguns minutos naquele corredor até ouvirmos o chamado de um dos betas.

— Temos movimentação a leste da floresta. Um grupo de transformados e algo... diferente. Eles estão se organizando — disse Pietro

— Estão criando células, como se fossem soldados de uma mente maior — completou Montmare, que agora estava lado a lado com Rebeca, de braços dados. A união deles parecia ter acelerado algo ancestral.

— Eles estão obedecendo ordens... — murmurei, olhando o mapa projetado em 3D. — Isso não é só uma infestação. Isso é uma guerra pensada.

Darius assentiu, já assumindo o controle.

— Quero todos em prontidão. Betas em alerta total, e as fêmeas organizando o abrigo dos filhotes. Os anciões devem ser protegidos.

— E os vampiros estão ao nosso lado — acrescentou Montmare, com um olhar orgulhoso. — Fomos divididos por séculos por causa da maldição da guerra santa, mas isso termina agora.

— Então a história será reescrita com sangue... mas também com esperança — murmurei.

Rebeca apertou o braço de Montmare. E, num gesto inesperado, ele levou a mão dela aos lábios e beijou sua pele como se fosse um juramento.

— Ela é o meu elo com a Terra — sussurrou ele. — E eu sou o escudo dela contra a escuridão.

Meu coração se apertou ao vê-los. Era assustador se entregar. Mas quando se encontrava o destino... a entrega se tornava inevitável.

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