54° (Reescrito)

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Alina Narrando

Acordei sob o manto da noite. A lua estava alta, prateada, como se vigiasse o mundo com uma certa compaixão silenciosa. Meu corpo ainda pesava, mas a mente já gritava por movimento. Pisquei algumas vezes, tentando entender por que a casa estava tão quieta... e por que parecia que eu tinha dormido por décadas.

Levantei cambaleando, caminhei até o banheiro e lavei o rosto. A água fria me trouxe de volta à realidade. Ao retornar para o quarto, meu celular vibrou na cômoda. Quando desbloqueei a tela, quase tive um ataque cardíaco: 36 ligações não atendidas.

— Pela Deusa! — murmurei, jogando o celular na cama e me apoiando na beira da escrivaninha. — Amanhã é o dia da cerimônia...

Revirei os olhos, xingando mentalmente a mim mesma. Vesti a primeira roupa confortável que vi — uma camiseta do Darius que ainda carregava o cheiro dele — e desci para a sala. A ausência da presença marcante dele no ambiente me fez sentir um vazio irritante. Darius, com certeza, estava na sede resolvendo os convites das raças.

Espero que todas venham... pensei, meio nervosa, enquanto descia as escadas.

Um dos guardas se aproximou da porta, rígido como sempre.

— Luna, o Supremo ordenou que ficássemos de vigia. Ele também pediu que a senhora repousasse. — Ele falava como se eu fosse feita de cristal.

Sorri gentilmente.

— Obrigada, soldado. Pode ficar tranquilo, não vou fugir da minha própria casa. — Ele assentiu e se retirou com eficiência.

Caminhei até a cozinha. Fiz algo simples — ovos mexidos e um chá quente — e fui para a sala. Liguei a TV, mas não prestei atenção em nada. Apenas deixei o ruído preencher o silêncio da casa. O sono veio de novo, sorrateiro. Afundei no sofá, a mão inconscientemente na barriga, e adormeci ali mesmo.

Darius Narrando

Enquanto Alina descansava, eu me enterrava até o pescoço em logística, papéis e decisões. A sede estava movimentada. Os betas corriam como formigas obedientes, distribuindo os convites cerimoniais para cada raça aliada.

Até agora, confirmaram presença: as ninfas, as fadas, os elfos e os anões. Os duendes, bruxas e feiticeiros ainda não responderam, mas eu mantinha uma esperança irritantemente otimista. Alina está mudando o rumo de tudo. Até eu, que sempre fui considerado um lobo arrogante, percebo as pequenas transformações em mim. Ela me suaviza... e me tira do sério ao mesmo tempo.

— Supremo — Pietro entrou apressado — os soldados informaram que a Luna acordou.

Soltei um suspiro aliviado. Peguei o celular e disquei.

— Dormiu bem, amor? — minha voz saiu mais suave do que eu esperava.

— Darius! Devia ter me acordado! As meninas estão me amaldiçoando no grupo! Amanhã é a cerimônia! Pela Deusa, eu tô uma pilha de nervos! — Ela disparou tudo de uma vez, e quase consegui vê-la correndo em círculos pela sala.

— Calma, minha loba. Eu avisei as meninas que você ia dormir depois da reunião emergencial. Nada de pânico. Amanhã de manhã elas vão até aí, vocês vão se arrumar juntas. Eu fico na sede e me viro por aqui.

— Então a gente só vai se ver amanhã? — a voz dela caiu um tom, triste.

— Também não gosto disso, minha lua. Mas é por uma boa causa. — Tentei sorrir enquanto falava.

— Eu sei... mas a saudade não liga pra causa nenhuma. Eu queria passar o dia inteiro com você... na cama... — disse, com aquela voz manhosa que me desmontava inteiro.

— Também queria. Passar o dia inteiro... dentro de você. — Respondi com pura malícia, só pra provocá-la.

Credo, Darius! — Ela deu um gritinho indignado — Eu tentando ser fofa e você aí, um cachorro no cio!

— Mas um cachorro muito apaixonado. — Ri alto — Já comeu?

— Ainda não... e você?

— Também não.

— Então trate de comer! Não quero você desmaiando no meio da cerimônia. — O tom mandão dela me fez sorrir.

— Sim, senhora. — Brinquei.

De repente ouvi um som agudo pelo telefone.

Ah, merda! — Alina resmungou.

— O que foi?

— Deixei um prato cair. Pronto, mais azar pra coleção.

— Cuidado pra não se cortar, mulher. — Falei, tentando manter a calma.

— Vou desligar, preciso limpar isso antes que pise em um caco e sangre até a cerimônia. Te amo, lobo.

— Também te amo, minha luz.

Desliguei e me forcei a voltar aos papéis. Ainda havia muito a revisar: os hotéis dos convidados, o cardápio personalizado de cada raça, o sistema de segurança. Ia ser uma noite longa.

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