ALINA – NARRANDO
Eu não sei como consegui reunir forças pra levantar da cama. O meu corpo doía... mas era a alma que estava em pedaços. Ainda que Vitti e Eris tivessem reacendido uma centelha de esperança dentro de mim, eu não sentia mais a presença da minha filha. Era como se uma parte de mim tivesse sido arrancada de forma brutal e silenciosa.
Minhas pernas vacilam e mais uma vez minhas lágrimas caem, pesadas, salgadas, como se lavassem não só meu rosto, mas a memória do que acabou. Enxugo-as com raiva e desespero. Um cheiro familiar invade meu olfato e sinto Darius se aproximando com passos contidos, como se cada um deles fosse carregado de dor e respeito. Não está sozinho. Há mais duas presenças com ele.
— Alina... — a voz é baixa, doce, cheia de um carinho antigo e ancestral.
Quando levanto os olhos, vejo meus pais parados na porta do quarto. O mundo parece desacelerar.
— Mãe... pai... — a voz não sai. Engasga. Tropeça no choro que transborda de mim como um rio rompido.
Caio de joelhos no chão, rendida. Minha mãe não diz uma única palavra. Apenas caminha até mim e me envolve com os braços. Nos fundimos num abraço silencioso e doloroso. Ela me acompanha no choro como se as lágrimas dela também fossem parte do meu luto. Meu pai, o lobo sério e dominante, o Alfa que raramente abaixa a guarda, libera sua aura de proteção sobre mim. Não é uma fala. É um gesto. Um apoio silencioso. Um grito de amor contido.
— Obrigada... — sussurro entre soluços, dando um sorriso fraco enquanto Darius me ajuda a levantar. Caminhamos para fora do hospital. Ele me ampara com os braços firmes, como se estivesse segurando o que restou de mim.
Lá fora, o vilarejo parecia ter parado. O céu nublado, as árvores imóveis, e os olhares... todos os olhares estavam sobre mim. Lobos e moradores me observavam em silêncio. Alguns com lágrimas nos olhos, outros com reverência. A dor era coletiva. A empatia pulsava no ar como se todos sentissem a perda de Filipa, e entendessem, finalmente, que ser Supremo... era carregar o mundo nas costas e perdê-lo nos braços.
— Quer comer algo, querida? — Darius pergunta com um carinho que quase me quebra.
— Não... — faço que não com a cabeça, esboçando um sorriso quase imperceptível. — Me leva pra floresta.
Ele não retruca. Não questiona. Só assente com os olhos e dirige até os limites da cidade. Quando estaciona, saio em silêncio e fecho os olhos por um instante. Deixo que Eris venha. A loba em mim ainda respirava, mesmo que ferida. Mas algo havia mudado. A força física que nos fazia guerreiras parecia esvair-se. Em contrapartida... algo maior despertava: um poder ancestral e espiritual que queimava sob a pele.
Caminho devagar pela mata. Ouço os passos de Darius e outros lobos me acompanhando. Sinto a presença deles, protetores, reverentes, mas silenciosos. Minha energia se expande. Um vento sutil dança com meus cabelos. Meus pelos se eriçam. A conexão com a Deusa Mãe pulsa viva sob minha pele.
Chego à clareira. O monte sagrado. As pedras que guardavam os votos dos antigos. Me sento ali, nua em minha dor, e deixo que o mundo me veja como estou: quebrada, mas viva. Humana, Lycan e divina.
Ao meu redor, os lobos vão se sentando. Cabeças baixas. Uivos contidos na garganta. Sinto o coração apertar ao colocar a mão sobre o ventre vazio. E então... rezo:
— Ó Deusa, mãe de todas as almas...
Da mesma forma que me concedeste este presente divino,
eu o devolvo com amor, com dor, e com a esperança de reencontro.
Uma parte de mim vai com ela...
Mas sei que a senhora jamais abandona seus filhos.
Cuida da minha pequena Filipa, minha estrela, minha filha...
E, minha mãe, por favor...
Faz meu coração parar de sangrar.
Não quero que meus irmãos sofram.
Cuida de nós...
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Suprema
WerewolfUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
