Alina Narrando
Ao chegarmos em Uktena, cada guerreiro ferido seguiu para os curandeiros. Os demais foram aos seus postos. Eu corri para casa, tomei um banho quente e rápido, amarrei os cabelos ainda molhados e vesti algo simples, mas imponente. Precisava de presença.
Na sede, o caos me aguardava. Uma multidão de lobos jovens — e absurdamente agitados — se espremia na entrada, gritando, farejando o ar como se estivessem diante de um cio coletivo.
— O que está acontecendo aqui?! — minha voz alfa cortou o ar como um chicote.
Imediatamente, o silêncio caiu. Um dos jovens, corado e visivelmente nervoso, respondeu:
— Senhora... esses lobos... estão alegando que sentem o cheiro de suas companheiras. E estão certos de que... elas estão aqui dentro.
Arregalei os olhos, surpresa. Era cedo demais.
— Calma! — falei com firmeza. — Essas garotas passaram por horrores. Estão em choque. Deem tempo. Recuem. Se comportem.
Alguns resmungaram, mas recuaram com a cabeça baixa. Entrei.
Na sala principal, o clima era denso. Vinte e três meninas. Todas em silêncio. Algumas com hematomas visíveis, outras encolhidas, como se qualquer movimento pudesse significar dor.
Rebeca surgiu ao meu lado.
— Elas estão te esperando pra agradecer — disse com um sorriso tímido. — Conheci algumas no cativeiro. Falei de você. Elas confiam em mim.
— Obrigada, Rebeca. — Toquei sua mão de leve antes de me voltar às garotas. Respirei fundo.
— Meninas... — comecei, minha voz se suavizando — sei que vocês foram forçadas a viver um pesadelo. Mas agora... isso acabou. Vocês estão livres. Seguras. Se quiserem, podem permanecer aqui. Serão protegidas e acolhidas. Mas, se preferirem voltar às suas casas... eu mesma vou garantir que isso aconteça.
Elas me observavam. Cautelosas. Assustadas.
— Algumas de vocês são humanas. Outras, vampiras. — Algumas assentiram. — Vocês foram transformadas à força pelos sequestradores? — perguntei às vampiras, que abaixaram os olhos e confirmaram.
— E vocês, humanas... sabem sobre o mundo sobrenatural? — continuei.
— Sabemos... — disse uma loira, tímida, mas com um brilho esperançoso nos olhos. — Tínhamos medo, mas... conhecemos espécies boas também. Nem todos são monstros.
Sorri, emocionada.
— Isso é maravilhoso de ouvir... — Fiquei alguns segundos em silêncio, observando cada rosto. Jovens. Nenhuma devia ter mais que vinte e cinco. A idade perfeita. — Agora, me respondam com sinceridade... Desde que chegaram aqui, sentiram um cheiro bom? Uma sensação estranha, quase viciante?
Todas assentiram, nervosas. Cochichos preencheram o ar.
— Como imaginei... — disse num sussurro. — Acredito que encontraram o cheiro de seus companheiros.
Um burburinho eclodiu. Branca e Luna arregalaram os olhos. Eu continuei:
— Vocês foram sequestradas para nos enfraquecer. O laço entre companheiros é o que nos torna mais fortes. Sem ele, viramos bestas descontroladas. Zumbis. — Algumas meninas estremeceram. — Mas não precisam ter medo. Só quero saber se estão dispostas a conhecer esses rapazes.
Houve uma pausa. E então, a loira sorriu, os olhos marejados.
— Estamos dispostas, senhora. Queremos conhecê-los.
— Perfeito. — Sorri largo. — Branca, Luna... levem-nas para o hotel, chamem os médicos, preparem o salão de beleza. Quero essas meninas se sentindo poderosas. Elas vão arrasar essa noite.
Luna piscou para mim antes de levá-las pelos fundos. Rebeca e Branca permaneceram.
— Como você sabia? — Rebeca perguntou.
— Juntei as peças. E temo que estamos um passo atrás dos nossos inimigos... — Suspirei. — Mas agora não é hora de lamentar. Vinte e três casais se formarão hoje. Vamos celebrar esse milagre. Branca, organize o salão. Rebeca, fale com o buffet.
Ambas assentiram e saíram apressadas.
Do lado de fora, os lobos ainda estavam inquietos. Me aproximei da escadaria.
— Senhores... — chamei, firme — creio que alguns de vocês estão prestes a encontrar suas companheiras.
Um grito de comemoração, seguido por assovios e aplausos. Era como se a lua tivesse descido dos céus.
— Mas antes... — levantei a mão — elas estão se arrumando. Vocês deveriam fazer o mesmo. Um jantar especial será realizado às dez, no salão principal. Mesas para dois. Se apressem. Já são seis da tarde.
Alguns já corriam antes mesmo de eu terminar de falar.
Sorri, o coração aquecido. Uma noite de laços eternos estava para começar.
Voltei para a sede e comecei a revisar relatórios. Estava tão imersa nos papéis que quase não percebi a porta se abrindo.
— Alina... — Darius. Seu olhar era um poço de preocupação. Os cabelos ainda úmidos. O peito nu coberto por bandagens. E um cansaço melancólico que me partia o coração. — O que você tem na cabeça? — sua voz era grave. — Sempre que eu tento te proteger, você arruma uma forma de se arriscar. Meu peito queima só de pensar em perder você.
Uma lágrima solitária escorreu em seu rosto. Me aproximei e a enxuguei com os dedos.
— Darius... nós somos os Supremos. O risco vem com o título. Mas, se isso garantir a paz do nosso povo, eu corro. Sempre. — Meus olhos já marejavam. — E eu sinto tanto a sua falta quando estou longe. É como se algo em mim estivesse quebrado.
Ele me puxou para um abraço desesperado.
— Eu só... não suporto a ideia de te perder — sussurrou em meu pescoço.
— Você não vai. Não enquanto lutarmos juntos. — Levantei o rosto e o beijei com força, urgência, saudade. Seus lábios eram a casa da qual eu nunca queria sair.
— Eu te amo, Alina. — Seus olhos brilhavam.
— E eu te amo, Darius. Mais do que consigo suportar.
Ficamos nos acariciando até Fred bater à porta.
— Senhora... os rapazes estão prontos. As garotas estão quase finalizando. Tudo no salão está perfeito.
Voltamos para casa. Darius vestiu um smoking preto elegante, com detalhes prateados nos punhos. Eu escolhi um vestido verde esmeralda que abraçava meu corpo como se tivesse sido costurado por mãos divinas.
— Você está linda... — ele sussurrou, colando seu corpo ao meu, suas mãos passeando lentas pela minha cintura. — Vai fazer todos esquecerem que vieram por outra mulher.
— Mas eu só vim por você — retruquei com um sorriso provocante.
Ele riu, puxando meu lóbulo com os dentes antes de sussurrar:
— Vou me lembrar disso... depois da festa.
(...)
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Suprema
Hombres LoboUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
