13 º (Reescrito)

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Capítulo 13º - Quando o Lobo Encontra a Lua

Narrativa de Darius

Dizer que minha alma renasceu ao vê-la seria pouco. Alina havia voltado — e com ela, a luz que faltava no meu mundo. Quando apareceu de súbito na sede, inteira e sorridente, o ar pareceu menos pesado, o silêncio menos opressor. As preocupações evaporaram, e até os soldados relaxaram os ombros em alívio. Terminamos a reunião com mais ânimo do que havíamos começado. Mas, assim que foi encerrada, saí com pressa contida — havia uma saudade para matar que não me deixava respirar.

A encontrei na praça, sozinha. Sentada num banco de madeira gasta pelo tempo, os olhos fechados, o rosto voltado ao céu como se ele cantasse para ela. E, de certa forma, cantava. Ela murmurava uma melodia suave, daquelas que os anjos esqueceram no plano terreno. Seu corpo balançava devagar, como se flutuasse no próprio ritmo. A brisa dançava entre os fios do seu cabelo e os pássaros pareciam hipnotizados, acompanhando aquele momento com reverência.

Fiquei ali, parado, apenas observando. Meu corpo relaxou como se a guerra interna tivesse cessado.

— Darius? — ela abriu os olhos devagar e sorriu, me tirando do transe. — Vai ficar me secando de longe por quanto tempo?

A voz dela tinha aquela ironia doce que me desmontava por dentro. Ela se levantou e caminhou até mim, acariciando meu rosto com a ponta dos dedos.

— Você tá bem? — sussurrei, segurando sua mão.

— Agora estou — respondeu com aquele sorriso leve, mas com os olhos atentos. — Por que esse semblante de quem viu o fim do mundo?

— Porque achei que tinha perdido o meu — confessei, e ela parou por um segundo. — Encontramos corpos... demais. O pior nos passou pela cabeça.

Ela arqueou as sobrancelhas e, por um instante, um lampejo de pânico surgiu em seu rosto.

— As meninas! — ofegou, agarrando meu braço. — Darius, as garotas estavam comigo, eu... Preciso vê-las!

— Ei, calma — segurei seu rosto. — Elas estão bem. Sãs e salvas. Chegaram antes de você. Nem um arranhão.

Ela respirou fundo, aliviada, e se jogou nos meus braços. Ficamos ali, colados, em silêncio. Apenas sentindo. O cheiro dela, o calor, o ritmo da sua respiração — tudo em Alina era lar.

Ela beijou meu rosto com ternura, um gesto que carregava muito mais do que qualquer palavra. Caminhamos de volta para casa de mãos dadas, rindo de pequenas memórias e silêncios confortáveis. Alina sempre teve esse poder: transformar qualquer caos em calma.

— Preciso de um banho — ela anunciou ao entrar, encarando a própria roupa suja. — Esse cheiro de hospital tá me matando.

Subiu as escadas correndo, como uma adolescente animada, e pouco depois o som do chuveiro invadiu a casa. Fui até a cozinha, bebi um copo d'água e subi em seguida. Ao abrir a porta do quarto, me sentei na cama e deixei o corpo cair. Exausto. Meu lobo estava sobrecarregado e minha mente precisava de descanso.

A porta se abriu e, por instinto, levantei a cabeça. Alina entrou devagar, já vestida com um vestido preto simples, mas que grudava em cada curva como se tivesse sido desenhado em sua pele. O cabelo ainda úmido caía sobre os ombros.

— O que foi? — perguntei, curioso com aquele silêncio misterioso.

Ela não respondeu. Apenas subiu na cama, pegou um travesseiro, colocou no colo e deu dois tapinhas nele.

— Vem cá, Supremo. Tá com cara de quem precisa de colo.

Obedeci sem pensar duas vezes. Deitei com a cabeça em seu colo e senti seus dedos mergulharem nos meus cabelos, acariciando com leveza. A respiração dela, o calor da pele, a forma como os dedos roçavam minha nuca... tudo me fazia esquecer dos últimos dias. Dormi ali mesmo, enroscado nela.

Acordei e a cama estava vazia. Tentei farejar, mas o cheiro de Alina já se misturava ao da brisa matinal. Peguei o celular. Algumas mensagens de Pietro me lembravam que eu precisava voltar à capital em alguns dias. Suspirei. Aquilo precisava ser conversado com Alina. De novo.

Depois de um banho rápido, saí de casa e fui até a praça. Encontrei Luna e Branca — amigas mais próximas de Alina.

— Supremo — disseram, se curvando levemente.

— Onde ela está?

— Saiu pra correr faz pouco — disse Luna. — Foi naquela direção — apontou para o leste.

Me transformei ali mesmo, sem pensar. Meu lobo precisava vê-la. Corri, sentindo o cheiro dela ficando mais forte, mais doce, até que a encontrei. Ela estava em forma lupina, deitada numa clareira, tomando sol como uma deusa da floresta. Dormia profundamente.

Me aproximei e lambi suas orelhas, fazendo-a despertar.

Por que não me chamou pra vir com você, companheira? — meu lobo falou através de mim, num tom quase manhoso.

Não queria te acordar, meu bem... — respondeu, se esticando. — Você precisava descansar. Esses dias foram um inferno pra você.

Lambi seu focinho como resposta. Nos deitamos lado a lado e vimos o sol nascer juntos, em silêncio. Nossos lobos, mais livres que nossos corpos, se reconheceram como partes de um todo que existia muito antes dessa vida. Um amor ancestral. Um vínculo mais forte do que qualquer marca física.

Narrativa de Alina

Voltamos pra casa de mãos dadas. A sensação era leve, quase adolescente. Darius nunca foi o monstro que dizem. Sempre foi doce comigo, presente, cuidadoso. Isso me amedronta um pouco. O medo de me perder de novo em alguém. Já fui enganada uma vez, e as cicatrizes ainda sussurram.

— No que tanto pensa? — ele me perguntou.

— No caminho até aqui — respondi, sincera. — Foi tudo... difícil.

— Também me culpo por erros passados — murmurou, desviando o olhar.

— Ei... — toquei sua bochecha. — Se depender de mim, ninguém vai te ferir de novo. Nem mesmo você.

Ele sorriu fraco e bagunçou meu cabelo. Quando chegamos em casa, fui direto pro escritório. A papelada da alcateia me aguardava, e eu precisava pôr tudo em ordem.

— Trabalhando já? — Darius apareceu na porta com duas xícaras de chá.

— Preciso reorganizar a equipe Nuran e redesenhar os territórios.

— Não confia nos seus soldados?

— Confio. Mas não deixo tudo na mão deles. O sistema de rotação garante que todos conheçam todos os pontos. Cada área tem dois pelotões e um vigente que me dá um relatório diário.

— Isso é... genial — ele disse, impressionado.

— Obrigada. Mas dá trabalho. E olha só... — virei pro calendário. — Por todos os deuses! Faltam três dias pro cio!

Me levantei tão rápido que quase derrubei a cadeira. Darius arregalou os olhos.

— Aconteceu alguma coisa?!

— A lua, Darius! Preciso reunir todas as fêmeas. Vai começar o período! — beijei sua bochecha e saí correndo.

Fui até a sede. Murilo, o secretário, arregalou os olhos ao me ver entrando com fúria nos passos.

— Marque uma reunião com todas as fêmeas esta noite! E todos os machos devem ficar em casa.

Ele assentiu e saiu correndo.

Resolvi pendências, enfrentei um sermão do meu pai — que me mandou voltar pra cama — e não vi Darius pelo resto do dia. Provavelmente estava com meu pai.

Voltei pra casa à noite e fui direto me arrumar para a reunião. Cabelo preso, olhar firme. A lua se aproximava. E eu, mais do que nunca, precisava que as fêmeas da alcateia estivessem preparadas — não apenas para o cio, mas para tudo que viria com ele.

E, no fundo, sabia que nem mesmo eu estava pronta. Porque o que queimava dentro de mim... era muito mais do que apenas instinto.

Era ele.

E a noite só estava começando.

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