43º (Reescrito)

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Alina Narrando 

Assim que entramos em casa, o silêncio familiar me acolheu como um cobertor morno. Fui direto à cozinha, guiada tanto pela fome quanto pela curiosidade. A sopa fumegava em um caldeirão de barro, perfumada com hortelã e raiz de artemísia. Respirei fundo, ansiosa.

— Por favor, por favor, não me faça vomitar de novo... — murmurei, levando a primeira colher à boca.

Surpreendentemente, meu estômago se comportou. Elogiável, até.

— Isso é um milagre. — sussurrei, saboreando devagar. — Ou magia de Branca.

Darius apareceu atrás de mim, com uma taça escura nas mãos. O conteúdo rubro brilhou sob a luz suave do lampião.

— Aqui. — disse ele, estendendo-me o cálice com cuidado. — Sangue meu. Fresco. Seguro. Teu corpo precisa de força... e eu, de saber que você está se alimentando como deve.

Olhei para ele com ternura, sentindo o nó quente subir na garganta.

— Não precisava se cortar por isso, Darius... você já faz tanto por mim.

— Não fiz isso só por você. — ele se aproximou mais, curvando-se ao meu lado. — Fiz por nós. Pelo que cresce dentro de você. Pela criatura mais preciosa que o mundo já viu. E por mim também, porque saber que te dei algo que te fortalece... é o mínimo diante do que você me dá só com um olhar.

Peguei o cálice. Dei um gole hesitante. O sabor metálico e intenso me arrepiou por inteira, mas havia ali um calor... um sopro de vida. Era como beber o próprio vínculo entre nós.

— Deuses... — murmurei, ofegando. — É como se minhas veias estivessem despertando.

— Você está pálida, meu amor. Seus ombros caídos, seus olhos cansados... Não é fraqueza aceitar cuidado. — ele sussurrou, sentando-se ao meu lado.

— Só não quero que você passe noites em claro por minha causa. Já temos perigos o suficiente lá fora... e agora dentro de mim também. Uma vida nova exige mais do que eu imaginei.

— Escuta bem. — ele segurou meu rosto entre as mãos, os olhos cravados nos meus com intensidade. — Você é meu caos favorito. Minha tempestade particular. Eu sou feito pra aguentar você. Pra te amar quando você brilha... e quando você quebra. Com cada cicatriz, cada sombra, cada desabafo ou silêncio. E agora, com esse bebê crescendo dentro de você, eu... eu sinto que não poderia pedir nada mais divino.

As lágrimas já corriam pelo meu rosto quando ele terminou de falar. O toque de seus polegares secando meus olhos foi tão delicado quanto o primeiro beijo que trocamos meses atrás.

— Darius... você é o amor que eu esperei sem saber que esperava. — sussurrei. — Não há lua cheia que me tire de perto de você. Eu te amo... e vou te amar mesmo quando estivermos velhos, teimosos e discutindo sobre quem comeu o último pedaço de pão.

Ele riu, se inclinando até colar sua boca na minha em um beijo calmo, carregado de promessas silenciosas. Era doce, mas cheio de fome. Respeitoso, mas possessivo. Amor... e luxúria em estado cru.

— Você é meu lar, minha loba. — ele murmurou contra meus lábios. — E agora... é também o santuário do que há de mais puro em mim.

Abracei-o forte, como se o mundo lá fora não existisse. E talvez, naquele momento... realmente não existisse.

DARIUS NARRANDO

Acordei com o perfume dela me envolvendo, doce, terroso... instintivamente meus dedos estavam entrelaçados em seus cabelos desgrenhados. Alina dormia de lado, os lábios entreabertos, como se sorrisse para algum sonho bom. O lençol branco desenhava cada curva de seu corpo, e ali, bem abaixo de seu umbigo, meu filhote crescia.

Toquei sua barriga com carinho, a palma da mão estendida sobre o ventre quente, desejando ouvir um som, sentir um chute, qualquer sinal da vida que brotava ali. Ela se remexeu, soltando um suspiro arrastado antes de abrir os olhos, ainda sonolenta.

Bom dia, amor... — sua voz era suave, quase um ronronar preguiçoso.

Sorri. Acariciei sua cintura, me inclinando para um beijo leve, demorado, carregado de promessas e silêncio.

Bom dia, minha Luna...

Ela riu baixinho, esfregando os olhos enquanto a ponta dos dedos deslizava pela própria barriga.

— Você estava conversando com nosso filhote de novo, não é? Está viciado nesse diálogo mudo — zombou, com aquele olhar provocador.

— E você queria o quê? Ele tem a sua teimosia e, com sorte, meu senso de humor. Preciso começar esse treinamento o quanto antes.

— Engraçadinho... — ela sorriu. — Sonhei que era um menino.

— É? E como pensou em chamá-lo?

Dante, como o irmãozinho mais novo que eu sonhava ter... — disse, mordendo o lábio inferior.

Senti algo apertar no peito. Dante... o nome carregava um peso e uma ternura que eu não esperava.

— E se for uma menina? — perguntei, puxando-a para perto, colando nossos corpos.

Ela riu, deixando-se enroscar em mim como uma videira preguiçosa.

— Filipa. Sempre gostei desse nome... forte e doce ao mesmo tempo. Igual a ela será, se puxar você.

— Dante Anuska Burten... ou Filipa Anuska Burten... — murmurei. — Tem força. Tem história.

Ela ergueu a sobrancelha.

— Anuska em homenagem à sua avó. Mulher durona. Quase tão assustadora quanto você com fome.

Quase, Darius? Que ousadia! — ela riu e me empurrou com a mão no peito. Aproveitei a deixa para mordiscar seu pescoço.

— Só me atrevo porque sou seu Alpha. E porque sei que você gosta quando sou atrevido...

Ela mordeu o lábio, entre um riso e um suspiro, e se aconchegou no meu colo. Ficamos ali mais alguns minutos, como se o mundo pudesse parar só para a gente respirar juntos.

Mas o dever... sempre chega.

Me levantei e fui para o banho. Quando voltei, revigorado, a cama já estava arrumada — o que era impossível para uma grávida que não devia fazer esforço. Desci desconfiado e, como esperado, lá estava ela: de pé na cozinha, vestindo minha camiseta, com as mangas dobradas e um avental torto na cintura.

— Por que você levantou, mulher? — perguntei, me apoiando na bancada, os braços cruzados, olhos fixos em cada movimento seu.

— Porque não posso proteger a alcateia no momento, mas ainda posso cuidar do meu macho — respondeu, com um sorriso safado e um pingo de deboche, mexendo nas panelas com um ar de quem dominava aquele território.

Ela se virou com um prato impecável nas mãos — ovos, bacon, torradas douradas e um copo de suco.

— Café da manhã digno do Supremo. — piscou.

— Não podia querer nada melhor... bom, talvez você nua servindo isso, mas... — brinquei, e ela revirou os olhos.

Mas quando olhei para o fogão novamente, percebi algo estranho.

— E aquilo ali? — perguntei, apontando para uma panela com uma substância branca e sem graça.

— Ah... mingau de grão de bico. — fez uma careta. — Única coisa que meu estômago tem aceitado nos últimos dias.

Seu sorriso amarelo não me convenceu. Havia algo errado. Ela estava pálida, os olhos pesados, e mesmo com a força que sempre emanava... hoje ela parecia frágil. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Castro: reuniões adiadas. Prioridade: Alina.

— Você vai comigo até a casa de Afena. Vamos ver se conseguimos equilibrar sua alimentação com alguma intervenção mágica.

Ela não resistiu. Apenas assentiu, cansada.


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