35º (Reescrito)

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Alina narrando

Saímos da escola, o caos já começava a se dissipar. O controle da situação estava praticamente restabelecido. Don Montmare estava ali, parado ao lado dos lobos que mantinham os transformados imobilizados, o ar tenso entre eles era quase palpável.

— Lorde — chamei, com a voz firme, mas carregada de uma leve inquietação.

Darius, sempre elegante e sereno, fez um leve aceno de cabeça em sinal de cumprimento.

— Luna — ele começou, e eu notei o peso da preocupação em sua voz — esses vampiros... não eram meros escravos ou soldados de baixo escalão. Eles eram de linhagem nobre, líderes daquela corte caótica. O que me deixa perplexo é o porquê de terem se tornado irracionais, selvagens... — passou o olhar sobre os transformados, como se tentasse enxergar além do físico.

— Sangue de demônio — respondi, como se fosse um sussurro carregado de um segredo — O sangue de demônio tem três níveis de concentração, mas os que fazem até os mais altos escalões perderem a razão são os de demônios puros. Já sabemos que a purificação depende do sangue, por isso trouxe o senhor aqui, Lorde.

Don Montmare permaneceu em silêncio, os olhos fixos nos transformados, como se lesse o que eles ainda tinham a dizer.

De repente, a atmosfera mudou. Uma voz cortante e cheia de autoridade soou do lado oposto.

— SAIA DAQUI, LORDE DEPOSTO! VOCÊ NÃO É MAIS NOSSO COMANDANTE! — Don Montmare, seu sorriso frio e desafiador.

Montmare não se intimidou. Seu sorriso se tornou uma expressão quase cruel.

— Não se preocupem — falou com uma calma assustadora — não serei mais o comandante. Agora sou o rei.

Observei a cena com um misto de fascínio e apreensão. Os olhos de Don Montmare brilhavam com uma intensidade sombria e perigosa, e aquele brilho fez meu estômago se contrair.

Darius se aproximou, a postura firme como sempre.

— Luna, gostaria de conversar com você e com o Supremo em particular — disse ele com uma voz baixa, quase um convite silencioso.

Assenti, consciente de que ainda havia muito a ser resolvido.

— Vamos terminar de dar o auxílio aqui e depois seguimos para meu escritório — Darius ordenou, com a suavidade de quem sabe que todos os olhos estavam voltados para ele.

Voltei meu olhar para Darius, e o calor da preocupação transbordava de seus olhos.

— Amor, irei para a sede — disse, minha voz trêmula, embora tentasse soar confiante — Os professores foram infectados. Estou preocupada com a recuperação deles.

Darius sorriu, o canto dos lábios carregado de uma ternura mordaz.

— Alina, ficar dando seu sangue assim pode ser perigoso — provocou, um brilho divertido nos olhos.

Sorri de volta, um pouco mais segura.

— Na verdade, hoje não iria dar meu sangue — disse, deixando no ar um mistério — descobri algo durante a luta.

Ele me fitou, a curiosidade gravada em seu rosto forte e lindo.

Sem mais delongas, saí em direção à sede, meu coração pulsando como tambor, a mente cheia de pensamentos confusos.

Pouco depois, Peter, Castro, Darius e Lord Montmare chegaram juntos ao setor médico.

— Alina, o que você pretende fazer? — Darius perguntou, a voz cheia de preocupação.

— Calma — soltei um riso nervoso, encarando-os um a um — Isso é medo de mim ou medo de que eu faça alguma burrice?

Eles permaneceram em silêncio, deixando o clima denso.

— Ok, então vou explicar — comecei, ganhando confiança — Quando estava procurando pelos alunos, encontrei um dos professores lutando contra aquele bando de transformados, enquanto as crianças, encolhidas e apavoradas, eram protegidas por dois outros mestres. Não pensei duas vezes e entrei no meio da briga. O professor estava praticamente à beira da morte. Quando senti Eris  e coloquei minha mão em seu ombro, seus ferimentos começaram a se fechar.

Peter se inclinou discretamente para falar algo no ouvido de Darius.

— Peter, compartilhe — pedi.

Ele ergueu a cabeça e falou com reverência.

— Senhora, provavelmente foi seu lado anjo agindo — disse, o respeito evidente.

Refleti um instante. Talvez fosse verdade.

— Estou começando a pensar isso também — murmurei — Mas até agora não senti ela se comunicar comigo.

— Provavelmente foi inconsciente — Darius sugeriu — o instinto de proteger seu povo quando eles estavam morrendo.

Mantive-me em silêncio, assimilando cada palavra.

— Vou tentar usar isso para ajudar os professores — anunciei com determinação — Eles foram extremamente corajosos. Infelizmente, perdemos quatro homens e duas mulheres, mas graças a Nix, nenhuma criança se feriu. Nossa próxima geração foi salva por esses verdadeiros heróis.

Todos concordaram com um silêncio carregado de respeito.

Entrei no setor médico, acompanhada pelo curandeiro-chefe, que me guiou até a área onde os professores estavam. Eles sofriam pelos efeitos do veneno dos transformados, alguns desacordados, outros ainda tentavam reverenciar.

— Por favor, não se esforcem — pedi com um sorriso gentil — Vim aqui para agradecer a vocês pela coragem de protegerem nossas crianças. Sei que a perda de seus colegas dói profundamente, mas nenhum deles morreu em vão. As crianças estão a salvo e bem.

Senti que suas expressões relaxaram um pouco, o peso nos ombros suavizado.

— Darius, venha cá — chamei, segurando a mão dele quando se aproximou — Eu não sei ao certo o que vou fazer, mas sinto que vai funcionar. Libere sua dominância, de forma suave, pense em cura, em proteção. Tenha pensamentos bons e feche os olhos.

Ele me fitou, cético.

— Como isso vai funcionar? — perguntou.

— Shh, apenas sinta — respondi, entrelaçando nossas mãos e fazendo uma prece suave e antiga:

"Bondosa Deusa
Que és Virgem, Mãe e Anciã,
Bendito seja o teu nome,
Ajuda-me a curar estes corajosos irmãos
Sobre a terra que é tua,
E dá-me a proteção e pureza que tu representas,
Guia-me pelo caminho que escolhi,
Acolhe aos que partiram e mostra o teu grande amor eterno,
Enquanto conforto os que ficaram,
E leve-os em segurança
Ao teu caldeirão do Renascimento,
Pois é o teu espírito que vive dentro de nossos corpos, e nos protege
Para todo o sempre.
Assim seja."

Uma onda de calor subiu de seu corpo, cruzando o contato entre nós. Senti aquela energia fluindo como um rio invisível que tocava a todos ao redor. Os ferimentos começaram a se fechar. A dor, o cansaço, tudo parecia se dissipar.

— Alina... você curou todos — Darius disse, admirado. E quando soltei sua mão, a escuridão me envolveu.

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