64° (Reescrito)

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Dias se passaram.

A escuridão estava encurralada, seus líderes dizimados. As tentativas de fuga pelo mar foram impedidas — os grifos e os feiticeiros das tempestades afundaram navios sombrios antes que cruzassem os arrecifes.

Ainda assim, a neblina se adensava na Floresta Negra. Algo... algo espreitava.

Alina permaneceu firme, sustentando a barreira mágica por dias seguidos, recusando-se a dormir.

— Alina... descanse um pouco. — Darius sussurrou atrás dela, sua voz baixa, preocupada, amorosa.

Ela rosnou baixinho, sem sequer se virar. — Se eu sair, Peter ataca. Ele está me esperando cair. Eu sinto.

Ele se aproximou, devagar, e a abraçou pelas costas. — Eu também sinto. Mas você não está sozinha.

Ela inspirou profundamente, sentindo o cheiro dele. Quente, familiar. Doce e masculino. Mas se afastou, determinada. — Preciso do Don.

Alina atravessou o acampamento em meio ao respeito e reverência de sua matilha. Todos se ajoelhavam conforme ela passava. Quando ela parou no alto do monte, soltou um suspiro e liberou toda a sua dominância. O poder que emanou dali silenciou até os pássaros. Ela estava convocando Peter. E ele sabia.

Don apareceu ao seu lado. — Está na hora, Luna. Vamos acabar com isso.

Eles marcharam até o front.

Corpos em decomposição, sangue seco, e um cheiro que embrulhava o estômago cercavam o caminho. Darius ia logo atrás, os olhos flamejando de tensão.

— PETER! — Alina gritou. Sua voz foi ecoada pelos ventos. — VAMOS RESOLVER COMO DA PRIMEIRA VEZ!

O silêncio pairou, tenso.

Até que risos zombeteiros e aplausos ecoaram no vale como espectros.

— Pensei que nunca iria me chamar, minha querida cadelinha... — Peter surgiu da névoa, desfigurado, os olhos ardiam em vermelho. — Que saudade dos velhos tempos. Lembra quando morremos juntos?

Darius avançou com um rosnado, mas Alina o impediu com uma mão. — Não. Ainda não.

Ela olhou para Peter com desprezo. — Já sabe por que estou aqui. Chega de rodeios. Isso termina hoje.

Don avançou, os olhos faiscando em energia mágica.

— Isso... — murmurou Peter, sorrindo de forma grotesca — ...isso vai ser divertido.

Agora, o destino do mundo repousava entre os dedos de três criaturas que já haviam morrido uma vez... e estavam dispostas a matar de novo.

— Que os deuses estejam com vocês... — sussurrou Darius, de longe, com o coração apertado ao ver sua fêmea se preparar para enfrentar o pesadelo que assombrava seus dias e noites.

E assim, o campo ficou em silêncio.

Até que a guerra recomeçasse.

O vento cessou.

As árvores pararam de respirar. O tempo pareceu segurar o fôlego.

Peter avançou, seus pés não tocavam o chão — ele flutuava, como uma sombra viva, corrompido além da sanidade. A pele rasgada revelava músculos escurecidos, ossos carbonizados, e no peito, um buraco onde antes existira um coração.

Você não mudou nada, Alina... ainda tão linda. E ainda tão... estúpida. ele sorriu, cuspindo sangue escuro.  Mas agora... agora eu sou um deus.

Don deu um passo à frente, o manto esvoaçando ao redor do corpo alto e magro. Seus olhos eram duas chamas azuis, frias e letais.
— Deuses morrem todos os dias. Você é só mais um erro esperando ser corrigido.

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