58° (Reescrito)

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DARIUS NARRANDO

A escuridão o devorou como uma besta faminta — Peter não existia mais. Só restava uma casca, um receptáculo.
— Ele... ele se foi. — A voz de Alina soou firme, carregada de uma certeza gelada. — O que está ali... não é mais o Peter.
Assenti. Não com palavras, mas com o instinto primitivo que rugia dentro de mim. Lancei-me sobre aquela sombra do que um dia foi um lobo honrado, mas Alina me seguiu de perto, em forma lupina, e com um movimento feroz, afundou os dentes em seu braço. Um estalo seco, depois o grito.

— CÃES SARNENTOS! VOCÊS NÃO VÃO ME PRENDER DE NOVO! — o monstro bradou, ajoelhado, sangue negro jorrando do toco onde havia um braço.

Ofegantes, nos afastamos. O ar cheirava a enxofre e açoite. Vi sua guarda baixa... e ataquei.

— DARIUS, NÃO! — Alina gritou, e antes que eu pudesse entender, ela estava diante de mim, protegendo meu corpo com o dela.

Tudo aconteceu rápido demais.

Peter... ou o que restava dele... atravessou o corpo dela com a mão deformada. O sangue escorreu quente. Um rugido me escapou.

— ALINA!!! — Ela me empurrou para longe com o resto de força que tinha, e caiu de joelhos. Nos olhos dela havia dor, mas também algo que me rasgou a alma: despedida.

— ALINAAAAAAAA! — gritei, desesperado, tentando chegar até ela. Mas Peter desapareceu na névoa. Como um veneno sorrateiro, sumiu.
Procurei por ela, tropeçando, cego, até ouvir o chamado de Anonatos:

— Darius! A ligação... concentra-te! Consegue senti-la?

Fechei os olhos. Inspiração profunda. O vínculo... estava fraco, mas ainda pulsava. Corri como um louco em sua direção.

E então a vi.

Alina, completamente transformada em Hispo, o pelo empapado de sangue, os olhos injetados de fúria e perda. Ela pulou em Peter com um uivo dilacerante, cravou os dentes em sua garganta e arrancou um pedaço grotesco de carne. O grito dele foi abissal. Mas logo, uma horda de demônios se lançou sobre ela, a jogando contra uma árvore.

— ALINA! — disparei até ela, ignorando tudo ao redor. Peter aproveitou para fugir, covarde.

Ela se levantou cambaleante, a respiração pesada, e liberou uma onda de dominância que reverberou por todo o campo de batalha. As sombras da escuridão começaram a se contorcer, a gritar, a derreter. E nossos companheiros finalizaram o resto.
Mas ela...
Ela parecia estar em transe.
— ALINA! — chamei, mas ela não respondeu.
Até que finalmente seus olhos me encontraram... e ela soltou um uivo. Um lamento. Um choro primal que cortou a alma de todos os presentes.
Eu soube, naquele instante.

Nossa filha... se foi.

Caí de joelhos, sem forças para sustentar o próprio corpo. A segurei com delicadeza, seus ferimentos jorrando memórias, não só sangue.

A levei para a sede. Onde os líderes aguardavam. Onde a esperança morria lentamente.

— Alina! Alina, minha menina! — Afena surgiu, as lágrimas já escorrendo. — Ela se sacrificou... ela... se foi.

Afena chorava como se sua alma tivesse sido rasgada.
— Eu a sinto... sinto seu adeus, sinto a dor... minha irmã...

Deitei Alina na mesa de reuniões. Luminus, Aine e Dione se aproximaram, criando um círculo de energia curativa ao redor dela. As feridas fecharam-se lentamente, mas... a ausência continuava ali. Palpável. Um silêncio gelado pairava.

— Eu não sinto mais nossa pequena Alfa... — Afena sussurrou, me olhando. — Darius...

— Não... — murmurei, minha voz rasgando no ar. — Eu prometi protegê-la... prometi...

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