Capítulo 1 - Entre Sol e Sombra
Alina Narrando
Os primeiros raios de sol atravessam a cortina rendada do meu quarto e beijam meu rosto com insistência. Abro os olhos lentamente, sentindo a familiar preguiça pesar em meu corpo. Por alguns segundos, encaro o teto como se ele pudesse me oferecer uma justificativa plausível para continuar deitada. Mas ele continua mudo, como sempre. Suspiro fundo e me sento na cama, com os pés tocando o chão gelado. Uma espécie de ritual silencioso se inicia: juntar coragem, reconstruir a postura e preparar o espírito para mais um dia.
O banheiro me recebe com um espelho honesto. Olho para minha imagem enquanto lavo o rosto, e por um segundo, me permito ser apenas Alina, e não a herdeira da alcateia. A água gelada espanta o torpor da madrugada, mas não o peso das decisões que me aguardam.
Desço as escadas com passos leves, quase arrastados, e sou recebida por um silêncio raro e quase acolhedor. A casa está tranquila. Grande, fria e minha — como um trono solitário. Acendo a cafeteira e deixo o cheiro do café recém passado invadir o ambiente, como um abraço matinal. É o único luxo do qual não abro mão: sentar no sofá, caneca em mãos, e fingir que o mundo não exige nada de mim por alguns minutos. É nesse exato momento que minha tranquilidade é interrompida por uma notificação no celular.
Assunto: URGENTE.
Remetente: Gregório Anuska.
"Filha, preciso de você na sede. Sua opinião é crucial."
Reviro os olhos e solto um bufo quase teatral.
— Claro que precisa, pai... como sempre.
Levanto e caminho até o quarto. Visto minha roupa de treinamento: calça justa de couro reforçado, top preto, jaqueta com o brasão de nossa linhagem e botas que não hesitam em fazer barulho ao andar. Coloco o cabelo em um rabo de cavalo alto, respiro fundo e saio. Ao abrir o portão, sou recebida pelos olhares e cumprimentos matinais dos vizinhos.
— Bom dia, líder! — grita a senhora Maria, acenando da janela com o bolo de sempre nas mãos.
— Bom dia, Dona Maria, esse cheiro vai me fazer desviar do caminho, hein! — respondo, com um sorriso cansado.
Ser a "filha do chefe" tem seus privilégios e suas maldições. Todo gesto é analisado. Cada passo, uma representação. Ao longe, já vejo os guerreiros entrando no salão de reunião. Endireito a postura, escondo minhas emoções atrás do manto da liderança e entro com o semblante firme.
— Meu pai, já cheguei — anuncio, abrindo a porta pesada.
A conversa cessa de imediato. Todos se levantam. Gregório sorri, caminha até mim e me beija o rosto como se fôssemos apenas pai e filha, e não lenda e sucessora.
— Alina, preciso de você — diz ele com voz grave, e se senta à cabeceira da mesa, passando uma pasta grossa com ares sombrios.
— O que seria? — pergunto, folheando o conteúdo. Fotos borradas. Corpos dilacerados. Relatórios com descrições confusas e sangue demais.
— Mortes. Muitas. Todas em nosso território. Já são nove vítimas nos últimos trinta dias, e sem explicações coerentes.
— Ainda não descobriram nada? — questiono, franzindo o cenho.
— Nada concreto. Os poucos contatos fora da ilha recusaram ajuda. Já mandamos um pedido ao Supremo, mas ele...
— Ele quer algo em troca — murmuro, cética.
— Sim. Ele pediu um representante da nossa alcateia para visitar o território principal dele. E eu escolhi você — diz Gregório, fixando os olhos nos meus. — Pode ser uma boa oportunidade pra criar laços... mais íntimos com ele.
Pisco. Duas vezes. O que ele acabara de insinuar?
— Pai... o Supremo? Acha mesmo que um convite desses não tem um preço? — digo, tentando manter o tom controlado. — E por que eu?
— Porque confio em você — ele responde, com firmeza. — E porque já passou da hora de você mostrar ao mundo do que é feita.
— Tudo bem... — suspiro. — Que dia parto?
— Ainda não sabemos. O Supremo fará uma visita primeiro. E quero que seja você a recebê-lo.
— Não concordo. Você é o Alfa, deveria...
— Sua casa é maior. E você mora sozinha. Não há motivos para recusar.
Minha mandíbula trava. Meus punhos se cerram. Mas me calo. Por enquanto. Parte de mim grita. Outra parte sabe que discutir com Gregório é inútil.
Depois da reunião, minha cabeça lateja. Caminho até a arena de treinamento como quem procura alívio no caos.
A arena está viva. Uma brisa quente sopra entre as colunas. O som de espadas e gritos de guerra ecoa como música. Sou recebida por Trevor, o supervisor veterano, com sua postura sempre impecável.
— Líder — ele cumprimenta com uma reverência.
— Supervisor Trevor — respondo, estreitando os olhos. — Como está a nova turma?
— Maior do que o esperado. Pela primeira vez... temos mais mulheres que homens.
Arregalo os olhos, surpresa. Um sorriso quase infantil me escapa.
— Isso é... uma bênção! Mas espero que não estejam pensando em suavizar os treinos por causa disso.
— Nunca, líder. Pelo contrário. A elite não será poupada.
— Excelente. Pretendo acompanhar os treinos de perto. Eles terão o mesmo treinamento que eu tive. Ou melhor.
Me despeço com um aceno e sigo até a arena principal, onde centenas de novos Lycans me aguardam. A visão é impressionante: entre 500 a 600 recrutas, com ao menos 70% mulheres. Sinto meu coração bater com orgulho.
— Boa tarde, jovens Lycans! — minha voz ecoa firme. — Sou Alina Anuska, filha de Gregório e Valquíria, herdeira da liderança da alcateia Umeris. E a partir de hoje, sou responsável por guiar cada um de vocês.
Palmas. Gritos. Olhares ansiosos. Continuo:
— Este ano é histórico. Nunca tivemos uma turma tão grande, e jamais com tamanha força feminina. As deusas devem estar em festa! — risos ecoam. — Mas aqui, não há diferenciação. Todos passarão por um único caminho: o mais árduo. O mesmo que enfrentei. Quem se formar... será reconhecido como guerreiro de elite.
O silêncio domina. Então, explosões de palmas, aplausos, gritos. Pela primeira vez em dias, sinto... esperança.
(...)
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Suprema
Hombres LoboUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
