Infernal - Prólogo

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Alina narrando

Dezessete anos se passaram como um sopro.

Mas não um sopro leve, e sim uma dessas rajadas intensas de vento que arrancam folhas, derrubam árvores e ainda assim, fazem as flores crescerem mais fortes.

Acordei com o mesmo instinto de todos os dias: proteger o que amo. Só que agora... havia muito mais para proteger.

Do terraço da nossa fortaleza — uma mistura de lar, quartel e santuário — eu observava a cena lá embaixo com um sorriso no rosto e o coração numa espécie de transe.

Darius e Dante estavam no campo de treino, cercados por pinheiros centenários que resistiam até mesmo ao hálito de dragões. Pai e filho. Alfa e futuro Supremo. Corpo a corpo, força bruta, precisão cirúrgica. Era como assistir a duas feras antigas dançando com a morte... e sorrindo.

Dante era uma cópia jovem e mais ousada do pai. Alto, ombros largos, o rosto ainda com traços de juventude, mas os olhos... os olhos eram de quem já tinha visto sangue, escuridão e sonho.

— Mãe... pai vai arrancar a clavícula dele de novo se ele tentar aquele golpe idiota. — A voz ao meu lado me tirou dos devaneios. Doce e sarcástica. Mística e letal.

Filipa.

Ela estava ao meu lado, sentada em cima do parapeito de pedra como se desafiando a gravidade, uma maçã meio comida na mão, os cabelos em uma trança grossa e desalinhada que descia pelas costas até quase a cintura.

Vestia uma legging preta colada e um top que realçava sua postura de guerreira. Mas o que mais chamava atenção... era a aura. Filipa não era só filha de alfas. Ela era algo mais. Algo além. E todos nós sabíamos disso.

— Ele precisa errar, amor. Só assim aprende. — respondi, observando o filho quase ser jogado três metros para trás. Darius riu em alto e bom som.

— DE NOVO, DANTE! DE NOVO! VOCÊ NÃO É MEU FILHO SE DESISTIR COM SÓ UMA COSTELA FORA DO LUGAR! — rugiu, enquanto nosso herdeiro se levantava cuspindo terra e deboche.

Filipa riu, mordeu a maçã e me lançou um olhar travesso.

— Esse tipo de motivação paterna daria cadeia em qualquer reino humano.

— Ainda bem que os Supremos respondem à própria lei. — Respondi com um sorrisinho provocador. — E cuidado com esse olhar, menina. Sei que está escondendo magia nas pontas dos dedos.

Ela apenas arqueou a sobrancelha, como quem diz "E se estiver?".

Filipa sempre foi assim. Brilhante. Perigosa. Cativante. Assustadora.

— Então, como está a princesa do apocalipse no dia que antecede sua grande festa? — perguntou Branca, minha Beta e melhor amiga, surgindo do nada como uma sombra com perfume de jasmim e deboche. — Já escolheu o vestido, ou vai enfrentar os convidados nua com labaredas nas mãos?

Filipa sorriu, jogando a maçã para o alto e fazendo-a desaparecer antes de tocar o chão. Magia pura.

— Nua seria uma forma prática de espantar pretendentes. Ou atrair os errados. Mas o vestido está separado. Preto. Longo. Com um corte que faria até demônio babar. Literalmente.

Branca riu.

— E a mãe dela aprova?

— Desde que ela não mate ninguém no salão principal, sim. — Retruquei com um arquejo dramático.

Descemos juntas para o refeitório principal, onde parte da nossa família já se reunia. Luna, minha irmã de alma guardiã dos rituais lunares, preparava poções com as cozinheiras. Pietro e Castro, tios corujas, decoravam os arranjos com plantas encantadas. Tudo pronto para a noite seguinte: o aniversário de 18 anos de Filipa. E com ele... o início da profecia.

Uma antiga vidente, antes mesmo de Filipa nascer, havia deixado escapar em um transe:

"A filha da luz e da noite, gerada por sangue e lobo, será reclamada por Sete Irmãos Infernais... e escolherá entre amor... ou ruína."

Não precisávamos de mais detalhes. Era o suficiente para que toda a corte demoníaca e celestial mantivesse os olhos sobre nossa filha.

— E se eles vierem amanhã? — perguntei baixinho para Darius, quando ele entrou na cozinha com Dante rindo ao lado.

— Que venham. — ele respondeu com o tom que usava quando era mais fera do que homem. — Mas se um deles encostar um dedo nela sem permissão... eu desmonto o Inferno com as minhas próprias garras.

Filipa ouviu. E revirou os olhos.

— Podem parar. Vocês parecem dois urubus em cima de uma donzela indefesa. Eu luto. E se algum desses príncipes do inferno realmente aparecer... vamos ver se são tudo isso mesmo. — cruzou os braços, a aura mágica tremulando em azul profundo. — Ou se não passam de garotões entediados brincando de malvadinhos.

— Filipa... — comecei.

— Eu sei, mãe. "É perigoso." "Eles são sedutores." "A profecia pode nos destruir." Mas... talvez... talvez eles não sejam o problema. Talvez eu seja. — ela abaixou os olhos, e por um segundo, o ar se calou.

Foi Darius quem quebrou o silêncio.

— Não importa o que a profecia diz. Você é nossa filha. Feita de amor, guerra e luar. E não importa se os Sete Príncipes do Inferno quiserem você. A única escolha que importa é a sua.

Filipa o encarou. E pela primeira vez em semanas, seus olhos marejaram.

— Vocês vão me proteger mesmo se eu... me apaixonar por um deles?

Dante foi quem respondeu primeiro.

— Eu arranco o coração de qualquer um que te machuque. Mas se um deles for idiota o suficiente pra merecer você... aí... bom, eu quebro só a perna. Por enquanto.

Risos nervosos tomaram conta da sala.

Filipa correu e o abraçou. Eu os abracei também. Darius veio logo depois. Era assim. Nossa família. Imperfeita. Feroz. E unida por fios que nenhum destino quebraria.

Do lado de fora, as primeiras sombras da noite começaram a cair.

Amanhã, os portais se abririam. A corte estaria presente. E... talvez os Sete também.

Mas naquela noite... éramos só nós.

Uma família à beira da lenda.

E Filipa... a loba da profecia, a filha do Supremo e da Sacerdotisa... estava prestes a conhecer o mundo que desejava seu coração.

Ou sua alma.

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