6 º (Reescrito)

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Capítulo 6º - Sob a Lua, Entre Uivos e Promessas

Narrativa de Alina

O jantar correu melhor do que eu imaginava, ainda que minha cabeça estivesse a mil. Depois da nossa conversa, Darius pareceu mais receptivo. Menos carrancudo, o que era quase um milagre digno de ser registrado nos pergaminhos lunares. Mas... apesar disso, eu não consegui relaxar. Nem por um segundo. Algo dentro de mim ainda queimava com ansiedade — uma inquietação sombria, talvez medo do que viria.

— Ai... — levei a mão à têmpora. A dor de cabeça estava pior. O remédio que tomei não fez nem cócegas.

Darius foi o primeiro a perceber. Seus passos largos cruzaram o salão até mim com uma rapidez quase sobrenatural.

— O que houve? — perguntou, a voz grave e suave ao mesmo tempo, envolta em um tom de preocupação sincera. — Alina, o que está sentindo?

Ele me segurou pelos ombros, o calor do seu toque tentando acalmar minha tempestade interna. Seus olhos vermelhos me analisavam como se cada pequeno gesto meu fosse um sinal de alerta.

— Só... a minha cabeça. Tá doendo como o inferno. Já tomei remédio, mas é como se não tivesse feito efeito. — fechei os olhos com força. Minha loba dentro de mim rosnava, impaciente. — Preciso correr.

E não esperei resposta. Me afastei de Darius, deixando o calor do seu corpo e a proteção dos seus braços. Corri em direção à floresta, e com um salto me permiti libertar a fera que rugia dentro de mim.

A transformação foi quase um alívio. Minha loba rasgou a superfície da pele com um grito silencioso e tomou o controle. A dor de cabeça começou a esvair-se como fumaça. Sentir o vento cortando meu pelo, o cheiro da noite preenchendo minhas narinas, o solo sob minhas patas... era liberdade.

Subi a colina com fúria. Quando alcancei o topo, parei sobre uma pedra e uivei. Era um chamado instintivo à lua, à vida, à força que corria em nossas veias. Logo, outros uivos responderam — mas um em especial fez meu peito vibrar. Eu conhecia aquele som. Aquela presença. Meu coração deu um salto.

Quando escutei o farfalhar atrás de mim, girei o corpo num rosnado defensivo. Mas me acalmei assim que vi a silhueta imponente do enorme lobo negro de olhos vermelhos. Ele me analisava com uma intensidade que fazia minha loba se arrepiar.

Aproximei-me dele em sinal de respeito, abaixando as orelhas. Em resposta, ele me lambia o focinho com carinho bruto. Meu peito se aqueceu.

— Por que veio atrás de mim? — perguntei, mentalmente, já me sentindo tola por perguntar.

— Você fugiu no meio da noite. Minha loba está inquieta sem a sua presença. E... eu também. — sua voz mental tinha um tom que oscilava entre autoritário e carinhoso.

Soltei um rosnado divertido. A postura dele era rígida demais, sério demais... minha loba queria brincar, desestabilizá-lo.

Saltei sobre ele e mordi sua orelha. Um rosnado baixo escapou dele, mais surpreso do que ameaçador. Saí correndo, rindo mentalmente, e logo o senti atrás de mim, seus passos tão potentes quanto os meus.

Corremos juntos por um bom tempo, atravessando a floresta até os limites do meu território. Paramos numa pequena clareira com uma cachoeira cristalina. A água reluzia prateada sob a lua. Sem pensar, mergulhei. Era revigorante.

Voltei à forma humana dentro da água e emergi com um suspiro. Meus cabelos longos colaram-se à pele, o vestido desaparecido com a transformação. Senti o olhar dele em mim. Intenso. Queimando. E pela primeira vez em muito tempo, meu corpo não se retraiu — não havia vergonha em mim. Não entre lobos.

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