Alina Narrando
Nos sentamos na sala e o papo foi instantâneo. Eles contaram como estava o Inferno, as missões, os demônios esquisitos que conheceram, e tudo que sabiam que eu estava morrendo de curiosidade. Era tanta informação, tanta risada, tanto amor... Me senti viva de novo.
— Vamos fazer o almoço! — anunciei, me levantando com certa dificuldade.
— Você senta! — Branca ergueu o dedo. — Eu e Luna cuidamos disso. Você está literalmente chocando duas criaturas divinas.
Bufei, mas obedeci. Peguei um copo de água, levantei... e então senti. O calor escorrendo pelas minhas pernas. Um líquido inconfundível.
— Darius! — gritei.
— O que foi?! — ele correu até mim.
— Cuidado, Alina deixou cair água. — comentou Theo, confuso.
— A BOLSA! A BOLSA ESTOUROU! — Luna gritou.
O caos se instalou. Darius paralisou, Theo e Leo corriam em círculos, Branca desligava o fogão, Luna segurava minha mão.
— GENTE! — gritei. — Luna, Branca, me ajudem com uma roupa. Theo, Leo, liguem pro hospital e o carro. Darius, sobe e pega as bolsas AGORA!
Todos começaram a correr como formigas no açúcar. As contrações vieram rápidas. Darius voltou descabelado, com as bolsas. Leo correu na frente com elas, e logo estávamos todos no carro.
— Respira, Lina. Inspira. Expira. — Branca repetia como um mantra, tentando me manter consciente.
Chegamos ao hospital. Me colocaram numa maca, quase desmaiei de dor.
— Alguém vai acompanhar? — perguntou o médico.
— EU! — Darius entrou como uma avalanche.
Na sala de parto, suada e tremendo, segurei a mão dele com força.
— Vamos, meus filhos... me ajudem... — sussurrei.
— Já vejo a cabeça! Força! — disse o médico.
Fechei os olhos, senti Eritia pulsar dentro de mim. Gritei. Rosnei.
E então... o choro. Tão alto, tão puro. Darius ficou pálido, depois completamente abobado.
— Nosso alfa... — murmurou a enfermeira, colocando Dante no meu peito.
— Darius... olha nosso menino... — sussurrei, entregando-o para ele. Seus olhos brilhavam. Dante parou de chorar quando sentiu o cheiro do pai.
— Ele... ele tem seus olhos. — Darius disse, com lágrimas escorrendo.
Mas não deu tempo para romance.
Outra contração veio como uma lâmina. Gritei alto.
— A bolsa do segundo! Tem sangramento! — enfermeiras correram.
— Não! Meus bebês! — olhei para Darius, desesperada.
— Vai dar tudo certo, meu amor. — Ele segurava minha mão com força. — Tô aqui. Por você. Por eles.
Fiz força. Toda a minha alma na ponta daquele momento.
— AAAAAARGH! — E então... o choro. Suave. Firme. Uma sinfonia de vida.
— Uma menina! — disseram. Filipa. Minha pequena.
Ela foi colocada sobre meu peito. Seus olhos esmeraldas me encararam, curiosos, intensos.
— Minha menina... — sussurrei.
E então, o mundo escureceu.
DARIUS NARRANDO
– Luna! Luna! – a voz tensa do médico me arranca do transe enquanto admirava nossos filhotes, ainda banhados em luz ancestral.
Me viro bruscamente e o mundo parece desmoronar ao ver Alina desacordada sobre a maca, pálida, com os lábios entreabertos como se o último suspiro tivesse acabado de escapar.
– Alina! – grito, ajoelhando-me ao seu lado, tomando sua mão gélida nas minhas. Ela não se mexe. Nada. Nenhuma reação. O pânico me atravessa o peito como uma lâmina quente. – Não... por favor, amor, fica comigo...
– Supremo, por favor... precisamos agir rápido. A Luna está em estado crítico. Vamos estabilizá-la. Leve os filhotes até a sala ao lado – diz o médico, com firmeza, enquanto outra enfermeira tenta me afastar com mãos suaves, mas determinadas.
Eu queria resistir. Lutar. Mas meu corpo simplesmente obedece. O medo me paralisava. E, pela primeira vez, senti-me frágil... impotente. Meu mundo, meu tudo... ali, entre vida e morte.
Dante, em meus braços, começa a chorar de forma desesperada, como se sentisse minha dor. Seu choro rasga o silêncio do corredor enquanto sou guiado até a sala ao lado com os dois pequenos nos braços. Filipa permanecia serena, quase etérea, como se soubesse que precisava manter o equilíbrio.
A enfermeira me ajuda a limpar seus corpinhos, com uma delicadeza reverente, como se reconhecesse a magnitude daqueles pequenos. Dante já mostrava a força de seu lobo. Sua energia era intensa, selvagem, exigente. Filipa, por outro lado, exalava algo mais profundo... um poder silencioso, firme e antigo.
Lágrimas silenciosas escorrem pelo meu rosto sem que eu perceba. Felicidade. Medo. Orgulho. Desespero. Um misto de tudo que um Alfa sente quando percebe que sua alma está dividida em três: sua companheira e seus filhos.
– Supremo. – o médico retorna, seu semblante grave.
– Alina...? – minha voz falha, carregada de medo.
– Está estável. Ainda sob observação. O sangramento foi intenso, mas conseguimos controlar. Ela precisa descansar. Vocês ficarão aqui até depois de amanhã, após os exames.
Fecho os olhos e solto o ar que nem percebia estar prendendo. Senti meus joelhos quase cederem. Como vou cuidar deles sem ela?
Me viro e caminho devagar pelo corredor. Os dois pequenos aninhados contra meu peito. A enfermeira segue ao meu lado, silenciosa, respeitando minha dor.
– SUPREMO! – a voz de Branca ecoa e, quando levanto o olhar, vejo meus betas correndo em nossa direção. Os olhos marejados. O sorriso entre o choro e o êxtase.
– Pela Deusa... – diz Luna, levando as mãos à boca. – Olha a carinha deles... e esses cílios? Filipa puxou você, Supremo!
– Parabéns, Supremo, – elas dizem em uníssono, tocando suavemente os pequenos com reverência. Meus olhos brilham de orgulho. Sinto meu peito inchar. Castro corre para fora, ansioso para anunciar às alcateias o nascimento dos novos Supremos.
Mas então...
– E Alina? – Branca pergunta. Meu coração aperta.
– Ela... ainda não acordou. O médico disse que está estável, mas perdeu muito sangue. – minha voz sai trêmula, baixa.
O silêncio pesa por alguns segundos. Até o choro de Filipa ecoar, como se exigisse minha atenção. Anonatos rosna dentro de mim, alerta, protetor.
– Deve estar com fome – comenta Branca, tentando manter a calma. Ela pega Filipa do colo de Luna e a entrega à enfermeira.
– Vou levá-la até Alina. – digo firme. – Eles precisam dela... e eu também.
Entro no quarto. O ambiente estava levemente iluminado por uma luz âmbar. Alina repousava como uma deusa adormecida. Sua pele pálida ainda transmitia fragilidade, mas seu peito subia e descia lentamente, sinal de que estava lutando.
– Meu amor... nossos filhotes estão chamando por você... – murmuro, sentando na poltrona com os dois nos braços. Dante inquieto, Filipa choramingando.
Aproximo Filipa do peito de Alina. Com um gesto instintivo e quase sagrado, minha filha se aninha sobre ela, procurando pela mama. Meus olhos se enchem de lágrimas quando, mesmo desacordada, Alina parece responder com um leve movimento.
Mas Filipa volta a chorar, ainda faminta. Retorno com ela aos meus braços, ninando-a suavemente.
– Shhh... calma, minha princesa. O papai está aqui. Tudo vai ficar bem...
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Suprema
Manusia SerigalaUma mulher escolhida pela Deusa como porta-voz de seu mundo, determinada, exigente e perspicaz, seu destino estará banhado de grandes vitórias mas com o peso de seu fardo viverá grandes momentos de desespero, encontrará o amor e aprenderá a lidar c...
