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Alina narrando

A luz da manhã não era comum. Tinha um dourado estranho, uma intensidade morna que parecia me abraçar e me acordar como um sussurro na espinha. Pisquei devagar, sentindo o toque suave dos lençóis e o calor do corpo que repousava ao meu lado.

Darius.

Ele estava ali, sentado, as costas largas nuas, com a cabeça entre as mãos e a respiração pesada como se tivesse lutado contra um exército. Ou contra si mesmo.

Meu corpo ainda doía — o parto, o esforço, a loucura da noite anterior — mas a primeira coisa que procurei foi ela.

Filipa.

No bercinho improvisado ao lado da cama, nossa filhinha dormia com um sorrisinho nos lábios... como se tivesse sonhado com os próprios demônios e os conquistado um a um.

Literalmente.

Suspirei, já sentindo o peso do que estava por vir, e ainda assim, sorri.

— Se continuar encarando o nada desse jeito, vai acabar hipnotizando o próprio vazio, Darius.

Ele não se moveu por um segundo. Mas depois virou lentamente o rosto em minha direção. O olhar dele estava sombrio, mas havia algo mais ali — dor contida, admiração e um pânico silencioso que ele jamais admitiria.

— Eles vieram — disse ele por fim, a voz grave e rouca, como se ainda estivesse preso na madrugada.

— Eu sei — respondi, tentando me sentar com dificuldade. — Eu senti. Eritia me acordou quando eles chegaram.

Darius franziu o cenho, se aproximando rapidamente e apoiando minha coluna com as mãos fortes e quentes.

— Você... viu Eritia? Falou com ela?

Assenti, sorrindo com ternura.

— Ela falou comigo — disse ele. — Antes de tudo acontecer. E quando os Sete entraram, ela ficou entre eles e Filipa... como se pudesse enfrentá-los sozinha.

Soltei uma risadinha abafada, encostando o queixo no ombro dele, provocativa.

— Eritia enfrentaria o próprio Fim do Mundo com uma pata e um uivo. Tem mais coragem que muitos machos juntos — cutuquei a lateral dele com o nariz. — Inclusive você.

— Eu preferia que ela não precisasse provar isso. — Ele virou-se para mim, me encarando de perto. — Alina... Eles tocaram nossa filha. Todos eles. Um por um.

— E ela não chorou, chorou? — provoquei, piscando para ele.

— Não. — O olhar dele escureceu. — Ela riu. Como se... como se reconhecesse cada um deles.

Toquei o rosto dele, minha palma na bochecha quente e dura.

— Porque ela reconheceu, Darius. Porque ela é feita de nós dois... mas foi feita também para muito mais do que apenas a nossa história.

Ele se afastou com um movimento brusco, caminhando até a janela. Seus ombros tremiam.

— Você acha que eu posso aceitar isso, Alina? Achar bonito? Poético? Nossa filha, nossa pequena lua, feita para amar os Príncipes do Inferno?

— Não. — A resposta foi direta. Me levantei, ignorando a dor nas pernas. Fui até ele, parando às costas dele. — Eu não quero que você aceite. Quero que você lute por ela. Mas quero que você lute do lado certo.

Ele se virou para mim com os olhos inflamados.

— E qual é o lado certo, Alina?! Dizer amém enquanto Lúcifer e seus irmãos marcam nossa filha como deles?

— O lado certo é aquele em que ela cresce com liberdade suficiente para escolher por si mesma. E força suficiente para não se curvar a ninguém. Nem aos Sete. Nem a nós.

— Você fala isso como se fosse fácil.

— Não é. É por isso que é certo.

Ele ficou em silêncio por longos segundos, encarando o chão.

— Eu queria poder colocá-la num campo, protegida, longe disso tudo.

— E eu queria te trancar num quarto comigo por dias e esquecer que temos um mundo inteiro nas costas. — Toquei o peito dele com dois dedos. — Mas nem sempre podemos viver o que queremos.

Ele ergueu os olhos para mim. E ali, naquele instante, o ar mudou.

Não era mais sobre medo. Nem sobre os Sete.

Era sobre nós dois.

— Me trancar num quarto com você? — ele repetiu, a voz ganhando um tom mais rouco e arrastado. — Isso soa como uma proposta indecente, Senhora Suprema.

— Não tão indecente quanto o que eu planejo fazer assim que meus pontos cicatrizarem — sussurrei com um sorriso malicioso.

Ele deu um passo. Depois outro. E quando me alcançou, suas mãos envolveram minha cintura com delicadeza, mas firmeza.

— Eu te amo, Alina. Com tudo que sou. Mas se algum deles — qualquer um — colocar a mão nela de novo sem permissão...

— Vai morrer? — completei, rindo, mordendo de leve o lábio inferior dele. — Você é mesmo tão possessivo quanto eu esperava.

— Eu sou pior — respondeu ele antes de me puxar contra ele e beijar minha testa. — Mas se ela tiver um décimo da sua teimosia... então talvez os Sete estejam é ferrados.

— Um décimo? Amor... — encostei minha boca no ouvido dele — ela já nasceu mais perigosa que nós dois juntos.

Antes que ele respondesse, a porta se abriu com um estrondo.

— Alguém pode me explicar o que raios foi aquele terremoto demoníaco na noite passada?! — Pietro entrou furioso, descabelado, com o pijama torto e os olhos arregalados.

— Bom dia, Betha. — Ri. — Dormiu bem?

— Não quando minha sobrinha está sendo visitada por criaturas do submundo! O que eu perdi?!

Eritia surgiu do canto da sala, estirando-se como um lobo preguiçoso, sua forma oscilando entre o espiritual e o real.

Você perdeu a parte em que sete demônios basicamente juraram lealdade à sua sobrinha... e talvez algo mais carnal no futuro.

— Ótimo. Maravilhoso. Vou ali vomitar um pouco e já volto — Pietro resmungou, passando a mão no rosto.

— Pietro... — Darius começou, com um meio sorriso irônico. — Um conselho. Não subestime sua sobrinha. Nem seus...companheiros postiços.

— Postiços o cacete — retrucou ele. — Se algum deles tentar seduzi-la antes dos 300 anos, eu juro que chamo a matilha toda.

A risada de Alina ecoou pelo quarto, leve, selvagem, livre.

E por um instante, só um instante, o mundo parecia aguentável.

Mesmo com os Sete rondando. Mesmo com o destino gritando ao longe.

Porque dentro daquele quarto... havia amor, calor, e uma promessa silenciosa de que, juntos, suportariam o que viesse.

SupremaOnde histórias criam vida. Descubra agora